Mel Gibson e Francisco Louçã – a mesma luta!

Louçã propí´s – sem se rir – que as escolas portuguesas passem a leccionar nas línguas dos emigrantes. Fez esta proposta durante uma visita a uma escola do concelho da Amadora.

A ministra da Educação terá, agora, que procurar professores que, para além de aceitarem dar aulas de substituição (coisa que eles – e o Bloco de Esquerda – contestam!) ainda arranjem ânimo para falar ucraniano, moldavo, umbundo, quimbundo, quicongo, chokwé-cuanhama, ovambo, makonde, suaíli, shona, ronga-shangana e crioulo, entre outras línguas.

Para preservar a língua das minorias.

A luta de Mel Gibson é idêntica.

Depois de fazer “A Paixão de Cristo”, filmada em aramaico, realizou “Apocalypto”, em língua maia.

O próximo projecto de Gibson poderá ser, com a ajuda inestimável de Louçã, “The Adventures of Joseph of the Roof”, falado em mirandês.

Futebolistas em greve

Este Sócrates ainda há-de ser vítima de um atentado!

Então, agora, quer obrigar os jogadores de futebol a pagar os mesmos impostos que as outras pessoas?!

O homem passou-se definitivamente!

Há alguma comparação entre um futebolista e, por exemplo, um médico, um professor, um canalizador, um programador informático ou um pintor da construção civil?

O médico passa o dia, de estetoscópio ao pescoço, a passear a bata e a mandar toda a gente abrir a boca para ver o que está lá dentro; o professor não faz mais do que escrever uns rabiscos no quadro e mandar os miúdos copiar aquilo; o canalizador limita-se a atarraxar os canos, uns nos outros; o programador informático gasta o tempo a escrever coisas imperceptíveis, numa linguagem alienígena; o pintor da construção civil agarra o pincel e anda com ele para cima e para baixo.

Enquanto isto, o jogador de futebol interna-se pela meia direita, cruza com açúcar, cabeceia í  boca da baliza, finta, dribla, remata, chuta, dispara, descai para a esquerda, ludibria o adversário, corta, pensa e lê o jogo, amortece no peito, cola na relva, corre como se fosse um extremo, faz compensações, faz chapéus, usa a meia distância, tem disponibilidade física, sacrifica-se pela equipa, enverga e sua a camisola, dá de calcanhar, e corre, corre muito.

Alguma vez os futebolistas podem ser obrigados a pagar as mesmas taxas de IRS que nós, os comuns mortais, que desempenhamos profissões de merda?

E o exemplo de João Pinto é revelador do modo como o pérfido Sócrates pretende lidar com esta questão.

Vejam bem que o pobre do homem sacou 3 milhões de euros dos direitos desportivos (de quê?!) e queriam que ele pagasse impostos sobre isso! E o desgaste rápido que o J. Pinto tem tido nos últimos anos – vejam como ele passou do Benfica para o Sporting, depois para o Boavista e, agora, já vai no Braga. Com este desgaste tão rápido, em breve veremos o “menino de oiro” a jogar nos Pescadores da Caparica. Claro que ele tinha que se precaver deste desgaste rapidíssimo!

Os futebolistas portugueses estão revoltados e ameaçam fazer greve.

Acho muito bem e apoio incondicionalmente!

Suspeito é que ninguém dê por isso.

Como a maior parte das equipas quase só tem jogadores estrangeiros, se os portugueses não jogarem, não se vai dar por falta deles.

Nomes artísticos, precisam-se

Allen Stewart Konigsberg pensou que o seu nome era uma lástima e, para vingar no mundo do show-bizz, decidiu chamar-se a si próprio, Woody Allen.

O mesmo pensou Issour Daniilovitch Demski. E passou a chamar-se Kirk Douglas.

Quanto a Reginald Kenneth Dwight, todos o conhecem como Elton John.

Até Robert Zimmerman decidiu que seria melhor chamar-se Bob Dylan.

Há nomes que não pegam. Na música, no cinema – até na política.

Por isso, aconselho vivamente os seguintes políticos a adoptarem um pseudónimo rapidamente:

Abel Chivukuvuku, político angolano e Gurbanguli Berdimukhamedov, candidato í  presidência do Turquemenistão.

Mais: ao Sr. Berdimukhamedov aconselho que, depois de eleito, mude também o nome do seu país!

Bom Natal!

O que eu gosto mesmo no Natal é das prendas. Das listas de prendas, das compras, dos embrulhos e da Grande Troca de Prendas.

Nos idos anos 70, do século passado, o dia em que se realizava a Grande Troca de Prendas, era sorteado e nunca calhou no dia 24 de Dezembro.

Mas depois – why bother? – por que não fazer coincidir a Grande Troca de Prendas com o dia de Natal?

Claro que coincide com o dia em que se festeja o nascimento de Jesus – mas, em que dia é que nasceu Jesus?

Convenções, portanto.

Portanto, convencionou-se que, nesse dia, a família se reunia, comia í  fartazana, contava umas piadas, dava grandes abraços e beijos, sentia-se feliz por estarmos todos vivos e, durante toda a tarde, trocava presentes entre si.

Este ano, seremos 15.

Espero que, para o ano, sejamos, pelo menos, 16!

Bom Natal para todos!

Títulos de jornais

No início da década de 70 do século passado, o diário A Capital, tornou-se conhecido pelos seus títulos de primeira página. Em letras garrafais, a ocuparem quase toda a página, era frequente A Capital titular, por exemplo: “RíPIDO MATA SETE”. Descodificando, o que o jornal queria dizer era que o comboio chamado rápido (que era aquele que só parava em algumas estações), teria sofrido um acidente, do qual resultara a morte de sete pessoas.

A tradição de títulos explosivos manteve-se, embora, mais tarde, A Capital tenha desistido de os usar. Mas teve seguidores, como o Correio da Manhã, o Tal e Qual, o 24 Horas. É o estilo dos tablóides.

Mas esse estilo acabou por passar para alguns jornais de referência, embora suavizado.

Vejamos este título do Público de quinta-feira passada: «Menino Jesus “raptado” pela segunda vez em Faro». Reparem que o jornalista colocou as aspas em “raptado”, e não em “Menino Jesus”. Com isto, quis ele dizer que a entidade “Menino Jesus”, que é algo que não há a certeza de que alguma vez tenha existido, não foi raptado, de facto. Ninguém pode raptar o Menino Jesus, na medida em que ele está no Céu, sentado í  direita de Deus Pai – e já não é menino nenhum: tem, no mínimo, 33 anos.

Afinal, o que aconteceu? Claro que foi a figura do menino Jesus, de um presépio, que foi fanada por alguém, em Faro, pela segunda vez. O título da notícia poderia ser, então: “Roubada figura de um presépio em Faro” – mas o jornalista não resistiu a fazer uma piadinha com o título. Provavelmente, o que poderia ter feito era nem sequer escrever a notícia…

Outro exemplo: «Deco tem simulador de tarifas eléctricas». E o leitor pergunta-se: para que raio é que o jogador do Barcelona quererá um simulador de tarifas eléctricas? Todos os títulos relacionados com a DECO provocam este tipo de confusões. Se o jornalista colocasse DECO em letras capitais, a confusão já não existiria.

Mais um exemplo: «Protesto de sem-abrigo parou Ponte 25 de Abril». O protesto terá parado a ponte ou o trânsito na ponte? Talvez seja só um pormenor, mas…

E já que estava a embirrar com títulos, aqui vão mais uns quantos, todos do mesmo jornal:

«Bush admitiu pela primeira vez que não está a ganhar a guerra» – mas vale tarde do que nunca.

«Governo fecha mais 900 escolas em 2007» – mas afinal, quantos milhares de escolas é que há neste país de analfabetos?

«Estrangeiros obesos deixam de poder adoptar crianças na China» – e se forem obesos homossexuais?

«22 mil funcionários públicos passaram í  reforma até final de Novembro» – onde é que eles estavam a trabalhar, que ninguém ainda deu pela sua falta?

«José Veiga vai processar o Estado português» – isto resolve-se com um almoço com Madaíl?

«Esperança média de vida ultrapassou os 80 anos no Canadá» – atenção: se tens 79 anos, emigra para o Canadá já!

«Operação “Natal em segurança” com menos mortos que em 2005» – os portugueses resolverão este deficit nas próximas horas.

O Rui Lemos morreu

Soube, há alguns dias, que o Rui Lemos, um dos fundadores do semanário “O Coiso”, morreu há uns meses.

Já não via o Rui há alguns anos e a notícia foi um choque.

Fomos companheiros de escrita durante vários anos, no República, antes do 25 de Abril e, depois, no Pé de Cabra, no Coiso e em alguns programas de rádio e TV.

Passámos momentos muito divertidos das nossas vidas, com o Mário-Henrique Leiria, o José António Pinheiro, o Carlos Barradas e o ílvaro Belo Marques, naquele curto e glorioso período, entre 1973 e 1975.

O Rui tinha um humor amargo e desdenhava a mediocridade desta Pátria de poetas e patetas.

Aqui fica um texto do Rui, publicado no semanário Pé de Cabra, em 29 de Novembro de 1974 e que é bem ilustrativo do que ele pensava do Portugal bafiento do “antes do 25”. O pior é que muito do que eles escreveu então, continua bem actual!

Um abraço para o Rui.

Lusolândia – síntese reminisciativa

Génese

Os Lusíadas, nascidos entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974, eram lindos. (Eu sou lindo). Quando nasciam, as opiniões eram unânimes: «mas que lindo bebé!». E, se era menino, era igualzinho ao papá. Marialvismo? Aval da seriedade da senhora sua mãe? Inextricáveis meandros da língua portuguesa? Sigamos. Os historiadores que deslindem a questão.

Geografia

Pois então, a escola ensinava-nos que nascéramos num país cheio de tradição, que se chamava Pátria. A Pátria era casada com o Senhor Governo, e tinham uma criança chamada Nação. Viviam então num país chamado Estado, que tinha filiais em vários continentes. Dizia-se, então, que Portugal havia dado novos mundos ao mundo. Era porreiro ser português. Mas – era preciso merecê-lo! E como, como se merecia tão inesperada honra?

História

Para ser português, não bastava ter nascido na Pátria. Que os portugueses tinham uma segunda nacionalidade – eram patriotas (não confundir com cipriotas). E os portugueses eram ainda mais patriotas se fossem portugueses e tivessem uma grande peitaça. Eram peitotas e patriotas. Os portugueses eram portugueses até ao quinto dos liceus, altura em que passavam a lusíadas. Havia ainda os pretiotas, que viviam numa coisa chamada ultramar. Vários historiadores reclamam outra versão, que dividia lógica e etariamente os portugueses em lusitos, vanguardistas, cadetes e legionários, consoante usassem calções, calças í  golfe, botas de montar ou ladrilho.

Economia

Era excelente. Era cá uma economia… De alimento, de palavra, de tudo. E estava indissoluvelmente ligada ao patriotismo e í  precocidade. Uma criança de mama, após ingurgitar os primeiros golinhos de leite materno, tinha observações do género desta: «o leite português é o melhor, o mais puro!» Depois, mais uma mamada e outra asserção: «a teta portuguesa é a maior, a mais úbere, a mais tenra!»

Se, inversamente, a criança cuspia, é porque começava a manifestar, de pequenino, tendência para a independência. E era assim que se tornava duro, castigador e castiço.

Arte

Nessa época havia várias manifestações artísticas. Em cada sala de aula, o professor era enquadrado pelas fotografias de dois gajos muito graves, que eram um tal Salazar e outro que nem sei se tinha nome, ou que acabava em mona. Tanto faz. Era essa uma das manifestações artísticas. Outra, era um S que havia no cinto que os meninos eram obrigados a comprar voluntariamente.

No campo da música, existia uma notável composição chamada «Já vamos», que devia ter sido o hino dos guardas-nocturnos. Ou era «Lá vamos»? Era qualquer coisa do género. Só sei que tinha que ser cantada com o braço estendido, como quem vê se chove.

Clima

Era tépido e ideal. Privilegiado. O clima nacional era o melhor do mundo. Fresco no verão, morno no inverno. Era cá um tempo! E não eram pobrezinhos, aqueles que andavam sem roupa, não senhores. Era do clima. Andavam í  fresca. Só.

Política

Era notável. Sã. Cheia de princípios. Exercida por verdadeiros patriotas.

Desempregados? Não senhor – turismo interno.

Famintos? Torpe insinuação. Elegantes, é que eram. Da alimentação racional.

Todos muito unidos, muito amigos, muito graves, muito solenes, muito clementes. E as esposas, tão benfeitoras! Até fazia um nó na garganta, vê-las, no Natal, a visitar os bairros de lata, em risco de sujarem os sapatinhos de cetim e os casacos de pele, só para reconfortarem os desamparados da fortuna!

Estava tudo certo: os maridos faziam os pobres, para que as esposas se ocupassem a dar-lhes bolos-reis e broas. Muito racional.

í€ parte isso, havia um partido político que congregava os 8 milhões de sobreviventes (perdão, de habitantes) do continente (ou metrópole). Era a União Nacional.

Agricultura

A mais abundante. Couves, azeitonas, bolota, cortiças, alfaces, tudo, mas tudo, se dava nesta bendita e santa terrinha. E tudo saudável!

Batatas também havia algumas, e vinho, era em cataratas. Les portugais son toujours gais.

Portugal também produzia um subproduto degenerado, chamado «exilados». Mas estavam condenados í  extinção e o glorioso futuro da Pátria se encarregaria de provar que eram uns trasfegas, um rebotalho sem significado.

Folclore

Havia o futebol, Fátima, as toiradas e o fado.

E quem não fosse do Benfica, era do Sporting e vice-versa. E quem não fosse católico, era ateu.

E quem não gostasse do Diamantino Viseu, gostava do Manuel dos Santos. E quem não fosse pela Amália, era pela Hermínia.

E ainda havia quem dissesse que não havia pluralismo…

Língua

A mais pura, a única que conservou as autênticas raízes latinas.

A mais indicada para cantar o fado.

Inspiradora de autênticas obras de filigrana oratória, tendo por cenário esse magnífico anfiteatro do espírito nacional – a Assembleia.

Exemplo de pequenas pedras preciosas:

«…os valores imparáveis da pátria lusitana…»

«…os inequívocos sacrifícios patrióticos do nosso querido Presidente…»

«…a inalienabilidade do solo pátrio…»

«… a indissolubilidade da identidade e comunhão de sentimentos…»

Literatura

Exemplos da ínclita literatura lusíada: «Oh glória de mandar, oh vã cobiça! Alça a perna e coça a pica!»

Ou: «oh tu que tens do humano o gesto e o peito, vira o cu para lá e põe-te a jeito!»

E ainda. «as aguardentes e os vinhos gaseificados/ que da taberna sórdida ou bela garrafeira/ por goelas e goelas de esfaimados/ passaram inda além da borracheira»

E exemplos não faltam. Faltou foi gente para os seguir.