“O Homem Lento”, de J. M. Coetzee (2005)

Coetzee é garantia de boa leitura, como já tinha comprovado com “A Vida e o Tempo de Michael K” (1983), “Desgraça” (1999) e “Diário de Um Ano Mau” (2007).

—Neste romance, Paul Rayment é um fotógrafo sessentão, í  moda antiga, avesso aos avanços da tecnologia que, certo dia, ao passear de bicicleta, é abalroado por um carro.

Na sequência dos ferimentos sofridos, amputam-lhe uma perna. Paul recusa a prótese e volta para casa ainda mais deprimido do que já estava antes. É um homem amargo, misógino, divorciado, que nunca teve filhos.

De acordo com a assistência social, uma enfermeira é destacada para dar apoio a Paul, dar-lhe banho, limpar-lhe a casa, alimentá-lo (a acção decorre na Austrália). Mas o feitio de Paul é muito difícil e as enfermeiras vão-se sucedendo. Nenhuma aguenta muito tempo as idiossincrasias do fotógrafo.

Surge então uma enfermeira de origem croata, Marijana, que consegue dar a volta a Paul, com a sua simplicidade de mãe de família, habituada a ultrapassar muitas dificuldades. A pouco e pouco, o fotógrafo percebe que se está a apaixonar pela enfermeira.

Nessa altura, entra em cena a escritora profissional Elizabeth Costello, uma septuagenária que está í  procura de material para o seu futuro romance. Paul e a sua perna amputada, Marijana, o seu maridos e os três filhos, são excelentes personagens.

Em resumo, este é o riquíssimo material que Coetzee juntou para escrever este livro.

Acrscente-se as recordações de infância de Paul, de origem francesa, com um padrasto holandês, a sua paixão platónica por Marijana, que o leva a querer proteger e ajudar os seus filhos, a paixão, também ela platónica, de Elizabeth por Paul, os problemas dos dois filhos mais velhos da enfermeira, e temos um livro cheio de questões éticas de difícil resposta.

Mas também não é de respostas que Coetzee está í  procura. A missão do escritor é, exactamente, a de levantar as questões. Compete-nos meditar sobre elas.

Boa companhia de viagem, mais este romance de J.M. Coetzee, escritor nascido na ífrica do Sul, em 1940, e que recebeu o Nobel em 2003.

Almanaque Bertrand – uma deliciosa inutilidade

Lembro-me, sobretudo, dos cheiros.

A casa velha da Beira Alta, em Santiago de Cassurrães, tinha um cheiro característico, que era uma mistura de muitos cheiros: o cheiro da pocilga, o cheiro da chamada “sala da aula”, onde se secavam figos, o cheiro do “chalezinho”, que era umas águas-furtadas onde as senhoras faziam a sua sala de costura.

E o cheiro da latrina, claro. A latrina era uma casinha com 2 por 2 metros, situada na varanda, e consistia num balcão de madeira com um buraco redondo no meio. Lá em baixo, a palha amparava os dejectos. Estrume da melhor qualidade.

Ao lado do buraco, a literatura: um jornal qualquer, talvez o da paróquia, talvez o Diário de Notícias, e Almanaques Bertrand.

Muita companhia me fizeram os Almanaques Bertrand nos momentos que passei sentado naquele buraco. E confesso que o cheiro do papel envelhecido e os outros odores que se misturavam naqueles momentos, eram algo de religioso.

A avozinha Rita foi-se embora, o tio Germano e a Tia Odaleia também, a casa foi ficando vazia, cada vez mais esbarrondada, ameaçando ruína.

Trinta anos depois, fui lá buscar os Almanaques. São dos anos 30, 40 e 50 e as suas páginas mostram bem o uso que têm tido.

Nos tempos em que escrevi para o Pão Comanteiga, recorri muitas vezes a eles, e nunca me desapontaram.

—O Almanaque Bertrand publicou-se, todos os anos, entre 1899 e 1969 e este ano, a editora teve a brilhante ideia de lançar um Almanaque 2011/2012.

São contos, poemas, passatempos, calendários, receitas literárias, prazeres, listas, crónicas, palavras cruzadas, horóscopos, lugares, citações, efemérides, curiosidades, ilustrações, e muitas outras inutilidades imensamente úteis.

Como esta lista de “lugares portugueses com nomes danados para o pecado”, dos quais destaco Regato da Coitada (Viana do Castelo), Rego do Azar (Ponte de Lima), Vale da Rata (Viana do Alentejo) ou Entalada (Melgaço).

Ou como estes deliciosos aforismos de José Sesinando, tão ao gosto do Pão Comanteiga: «quem não tem um Roll’s, rói-se»; «os terroristas raciocinam por explosão de partes»; «Em Cabo Verde, Deus pegou no homem e crioulo í  sua imagem e semelhança»; «Foi Copérnico que viu a primeira estrela pular».

Ou ainda uma “lista de nomes de lugares ligeiramente compridos”, entre os quais, Parangaricutirimicuaro, no México, ou Pekwachnamaykoskwaskwaypinwanik, no Canadá.

Espero bem que a Bertrand retome mesmo a tradição e passe a editar Almanaques todos os anos.

“A Humilhação”, de Philip Roth

—Este foi meu 12º romance de Philip Roth e continuo a dizer que ele é, neste momento, o meu escritor vivo favorito.

“A Humilhação” quase que podia ser um conto. Embora tenha a estrutura de um romance, tem apenas 127 páginas e centra-se praticamente num único personagem e na sua história, não tendo narrativas paralelas ou adjacentes.

É uma pequena novela que se inscreve na série que Roth vem escrevendo sobre a velhice, a decadência do corpo e a morte, na sequência de “O Fantasma Sai de Cena“, “Todo-o-Mundo“, “O Animal Moribundo” e “Indignação“.

Em “A Humilhação”, Roth conta a história do actor de teatro Simon Axler que, com 66 anos, perdeu a capacidade de representar. No palco, já não é capaz de se transformar nas personagens das peças de teatro. Deprime-se e pensa no suicídio. Procura ajuda psiquiátrica. Conhece uma lésbica, filha de um colega actor, 25 anos mais nova que ele e consegue levá-la para a cama. Incapaz de representar no palco, vai durante algum tempo representar o papel de um amante jovem e fogoso, pronto a experimentar todos os jogos sexuais. Ao mesmo tempo, a sua companheira, até então lésbica, está, no fundo, a representar o papel de heterossexual. A coisa acaba mal, como seria de esperar.

Roth ganhou o Man Booker Internacional deste ano, pelo conjunto da sua obra, apesar de uma das juradas, Carmen Calill, ter votado contra, porque acha que ele está sempre a escrever sobre os mesmos temas e é, até, um pouco machista.

Penso que Carmen Calill não terá gostado de passagens de “A Humilhação”, como esta:

“No fim costumava pegar-lhe na piça e ficar a vê-la perder a erecção. «Que estás tu a mirar?», perguntou ele. «Isto enche-nos», disse ela, «de uma maneira que os vibradores e os dedos não conseguem. Tem vida. É uma coisa viva».

Cá fico í  espera do próximo livro de Roth que, segundo creio, sai ainda este ano.

“Ao Cair da Noite”, de Michael Cunningham

—Michael Cunningham tornou-se um dos meus escritores contemporâneos preferidos, graças a “Uma Casa no Fim do Mundo” (1990), “Laços de Sangue” (1995), “As Horas” (1998) e “Dias Exemplares” (2005).

No entanto, este “Ao Cair da Noite” desiludiu-me um pouco.

A acção decorre em Manhattan e a história é muito “classe média-alta-intelectual-nova iorquina”, como se fosse um filme do Woody Allen dos anos 80, mas sem as piadas.

Peter Harris é dono de uma galeria de arte e a mulher, Rebecca, é directora de uma revista de arte. No final do dia, o casal quarentão encontra-se no seu confortável apartamento e bebe um copo de vinho tinto, antes de encomendar o jantar tailandês ou indiano.

Tudo parece correr quando o irmão mas novo de Rebecca vem instalar-se no apartamento e, certo dia, Peter o vê, todo nu, com o seu corpo magro e musculado de ainda quase adolescente.

A partir daí, Peter vai começar a duvidar da sua sexualidade. Perplexo, pergunta-se a si próprio como é possível ter tido sempre comportamentos heterossexuais e, agora, de repente, sentir-se atraído por uma pessoa do mesmo sexo, ainda por cima, irmão da sua esposa.

Revê o seu passado e começa a encontrar indícios de anteriores impulsos que terão sido reprimidos. Recorda a história trágica do seu irmão mais velho, homossexual, e que morreu com sida.

A segunda metade do livro é toda preenchida com esta luta interior de Peter e com jogos de sedução entre ele e o irmão de Rebecca.

No entanto, nada acontece, para além de um beijo…

Confesso que a história não me tocou, como as dos anteriores romances de Cunningham. Claro que ele não sabe escrever mal, e a história deste “By the Nightfall” está bem contada, mas não chegou para me emocionar.

“O Sonho do Celta”, de Mário Vargas Llosa

—De Vargas Llosa só ainda tinha lido três romances: “A Guerra do Fim do Mundo” (1981), “Os Cadernos de Don Rigoberto” (1997) e “Travessuras da Menina Má” (2006).

Apesar de o achar um autor interessante, sempre preferi Garcia-Marquez e Cortazar, no que respeita aos escritores latino-americanos.

Este ano, Vargas Llosa ganhou o Prémio Nobel e as livrarias encheram-se com as suas obras e peguei neste “O Sonho do Celta”.

O livro conta a história de Roger Casement, um irlandês que lutou e morreu pela independência do seu país. Antes disso, como cí´nsul britânico no Congo belga e em Iquitos, no Peru, lutou contra o modo desumano como eram tratados os autóctones, explorados pelas grandes companhias que extraíam borracha das florestas.

A narrativa de Llosa parece-me pouco consistente, de tal modo que, no fim das 400 páginas não fiquei com uma ideia bem formada de como terá sido Roger Casement, como pessoa. Claro que o autor nos dá grande quantidade de pormenores da sua vida, de como se sentia horrorizado com as torturas que os colonialistas impunham aos indígenas; ficamos também a saber que Casement era homossexual e que registava num caderninho as suas aventuras sexuais, descrevendo-as de modo muito cru. Mas são apenas factos. Fiquei sem saber como era Casement, como pessoa.

Porventura, Llosa também não sabe, ao certo, quem foi Roger Casement mas, como romancista, tinha a obrigação de criar uma personagem credível para os seus leitores, até porque este livro é um romance, não uma biografia.

Ou então, fiquei desiludido porque estava í  espera de mais uma história passada na América Latina e saiu-me uma coisa completamente diferente.

 

“Juliet Nua”, de Nick Hornby (2009)

—Nick Hornby escreveu um livro muito bem conseguido, chamado “Alta Fidelidade” (1995), que foi adaptado ao cinema, com a realização feliz de Stephen Frears e a interpretação inspirada de Jonh Cusack.

E isso chegava para que Hornby tivesse o seu quinhão no “hall of fame” dos escritores populares.

Os restantes livros de Hornby são muito menos interessantes e deixam pouca marca (“Era Uma Vez Um Rapaz” (1998), “Como Ser Bom” (2002), “Um Grande Salto” (2005) e “Slam” (2008).

Este “Juliet Nua” é, talvez, o menos interessante de todos.

Conta-nos a história de Duncan e Annie, um casal inglês, quarentão, que vive uma vida triste, rotineira e sem filhos, numa terrinha igualmente triste e sensaborona. Ela é conservadora do desinteressante museu local e ele é professor, tendo como único interesse na vida a figura de um obscuro músico rock dos anos 80, o norte-americano Tucker Crowe.

Este último, depois de lançar o álbum que seria o melhor da sua carreira, chamado “Juliet”, retira-se para parte incerta e nunca mais dá sinal de vida.

Depois de algumas peripécias, Tucker acaba na cama de Annie, mas só por uma noite. Ou talvez não.

A história é curta, praticamente não há personagens secundárias nem histórias paralelas e a escrita de Hornby, que se quer coloquial, acaba por se tornar enfadonha e, por vezes, difícil de seguir – e a culpa não deve ser da tradução.

Bom para se ler no aeroporto (o que não foi o caso…)

“Sunset Park”, de Paul Auster

—Auster já tem uma legião de seguidores em Portugal, o que lhe permite ter todos os seus livros traduzidos e editados por cá, mal saem nos EUA. O mesmo não acontece com Philip Roth, que tem um novo romance que só será editado por cá no próximo ano…

Claro que Auster merece. É um notável contador de histórias e, ainda por cima, é simpático, dá entrevistas a toda a gente, gosta da Europa e é pouco americano.

Este “Sunset Park”, no entanto, é mais do mesmo. Como este, já Auster escreveu vários romances.

A história gira í  volta de quatro jovens adultos que ocupam uma casa abandonada em Sunset Park, Nova Iorque. São dois homens e duas mulheres mas não são dois casais. Cada um tem a sua história, o seu drama pessoal, as suas dúvidas existenciais e Auster vai-nos dissecando as suas dúvidas e angústias; cada capítulo é dedicado a uma das quatro personagens principais e mais duas ou três acessórias.

Como também já é habitual nas narrativas de Auster, a história acaba abruptamente, sem um fim “como deve ser”.

Já li coisas muito melhores escritas por ele.

“Os Detectives Selvagens”, de Roberto Bolaí±o (1998)

—Depois de ter lido “2666” e este “Os Detectives Selvagens”, não fiquei rendido a Bolaí±o, pelo menos, não ao ponto de o considerar “indiscutivelmente o escritor mais brilhante no actual panorama da literatura latino americana. Um autêntica lenda literária”, como se diz no El País, citado na contracapa de mais um calhamaço de 500 páginas.

Também não vejo onde “Os Detectives Selvagens” seja uma “visão brutal e lírica dos últimos trinta anos do milénio”, como diz Le Monde des Livres, também citado na contracapa.

Aliás, penso que “Os Detectives Selvagens” e “2666” são o mesmo livro ou, por outras palavras, Bolaí±o foi escrevendo e depois, decidiu dividir as milhares de páginas que escreveu em dois livros e, cá para mim, até trocou os títulos, tal como Boris Vian fazia.

De facto, onde é que há detectives? Em “2666” e não em “Os Detectives Selvagens”. E a data 2666, ou aproximada, aparece é em “Os Detectives Selvagens” e não em “2666”. Na página 496 do segundo livro, lê-se: «Porém Cesárea falara dos tempos que haviam de vir, e a professora, para mudar de assunto, perguntara-lhe que tempos seriam esses e quando viriam. E Cesárea dissera uma data: por volta do ano 2600. Dois mil seiscentos e picos”

“Os Detectives Selvagens”, tal como “2666” é uma sequência de pequenas histórias entre poetas, e não só. A acção principal decorre no México e a primeira parte do livro (“Mexicanos perdidos no México”) passa-se em 1975 e surge como um diário escrito por um jovem poeta, que pertence í  corrente “real visceralista”. Já aí se fala em Arturo Belano e Ulisses Lima, duas personagens que percorrem todo o livro, sem nunca terem voz activa na narrativa. Há sempre alguém que fala deles, sobre eles, por eles – o que os torna ainda enigmáticos.

A segunda parte do livro, chamada “Detectives Selvagens”, decorre entre 1976 e 1996 e é formada por entradas, como se se tratasse de uma enciclopédia de histórias. Cada entrada pertence a um personagem, um local e uma data e é uma história, não necessariamente relacionada com as outras, embora se fale muitas vezes do tal Lima e do tal Belano. As entradas não têm ordem cronológica e a histórias decorrem maioritariamente na Cidade do México, mas também no Midlewest americano, Barcelona, Paris, Londres ou Telavive.

Joaquim Font, a partir da Clínica de Saúde Mental El Reposo, nos arredores da Cidade do México, diz, em Janeiro de 1977:

«Não se pode viver desesperado toda uma vida, o corpo acaba por dar de si, a dor acaba por se tornar insuportável, a lucidez escapa-se em grandes jorros frios. O leitor desesperado (ainda mais o leitor de poesia desesperado, esse é insuportável, acreditem-me) acaba por se antagonizar com os livros, acaba inelutavelmente por se transformar num desesperado sem apelo nem agravo. Ou cura-se! E então, como parte do seu processo de regeneração, volta lentamente, como que entre algodões, como que sob uma chuva de comprimidos tranquilizantes fundidos, volta, como ia dizendo, a uma literatura escrita para leitores serenos, repousados, com a mente bem centrada. A isso se chama (e, se ninguém lhe chama assim, eu chamo-lhe assim) a passagem da adolescência í  idade adulta. E com isto não quero dizer que quando nos convertemos num leitor tranquilo se deixe de ler livros para desesperados. Claro que se lê! Sobretudo se são bons, ou passáveis, ou se um amigo os recomendou. Mas, no fundo, chateiam-no! No fundo, essa literatura amarga, cheia de armas brancas e de Messias enforcados, não consegue penetrá-lo até ao coração como, por outro lado, o consegue uma página serena, uma página meditada, uma página tecnicamente perfeita.»

Mais í  frente, na página 321, André Ramirez, no bar El Cuerno de Oro, em Barcelona, em Dezembro de 1988, fala-nos de Eusébio!

«(…) por fim zarpámos e deixámos para trás a laboriosa capital portuguesa, que eu imaginava, nos meus sonhos febris, como uma cidade negra, com gente vestida de negro, com casas feitas de ébano, ou de mármore negro, ou de pedra negra, talvez porque no meu delírio febril tivesse alguma vez pensado em Eusébio, a pantera negra daquela selecção que tão bom papel desempenhara no Mundial de Inglaterra de 1966».

Na página 408, é marco António Palacios, que nos fala na Feira do Livro, em Madrid, em Julho de 1994, sobre escritores:

«Visitar os escritores nas suas residências, ou abordá-los nas apresentações de livros e dizer a cada um exactamente aquilo que ele quer ouvir. Aquilo que ele quer desesperadamente ouvir. E ter paciência, pois nem sempre funciona. Há cabrões que te dão uma palmada no ombro e a seguir se te vi não me lembro. Há cabrões duros, e cruéis, e mesquinhos. Mas não são todos assim. É necessário ter paciência e procurar. Os melhores são os homossexuais, mas, cuidado, é preciso saber em que momento parar, é necessário saber com precisão o que é que se quer, de contrário pode-se enrabado debalde por qualquer velho mariconço de esquerda».

E finalmente, a terceira parte do livro, e a mais curta, intitula-se “Os desertos de Sonora”, passa-se em 1976 e é novamente um diário que descreve a viagem de quatro amigos, incluindo Lima e Belano, em busca dos locais por onde passou e viveu Cesárea Tinajero, a pretensa primeira poeta real visceralista, seja lá o que isso for…

Fecho o calhamaço, respiro fundo, arrumo-o na prateleira, satisfeito. Foi uma boa companhia durante cerca de dois meses, mas tão cedo não vou pegar em “O Terceiro Reich”, outro do Bolaí±o que espera para ser lido…

“A Lebre de Vatanen”, de Arto Paasilinna

—Paasilinna é um escritor finlandês, nascido em 1942 e que, ao que parece, estará internado num lar para terceira idade, devido a comportamentos anti-sociais recentes, como condução automóvel perigosa (sob o efeito de álcool?).

“A Lebre de Vatanen”, publicado pela Relógio de ígua em 2009, data de 1975 e é o seu romance mais conhecido, embora a classificação “romance” talvez não seja a mais correcta.

O livro conta-nos a história de Vatanen, um jornalista de Helsínquia (Paasilinna foi jornalista) que, num certo dia, a meio de uma reportagem, encontra uma lebre-bebé, resolve adoptá-la e deixa tudo, o colega que o acompanha na reportagem, a mulher, o emprego e a cidade, passando a viver com a lebre diversas aventuras, através das florestas da Finlândia, atravessando a Lapónia e, caçando um urso, até í  União Soviética.

Num tom humorístico e iconoclasta, que faz lembrar Boris Vian, o escritor vai-nos contando essas aventuras, com uma seriedade jocosa que nos leva a dizer: este tipo está a gozar connosco.

Estará?

“Escritos Pornográficos”, de Boris Vian

—O que não terá feito Boris Vian, na sua curta vida de 39 anos? Um livro com receitas de cozinha? Ou como podar arbustos? Ou mezinhas caseiras para curar a gripe?

Se o tivesse feito, alguém o teria publicado, certamente.

Este pequeno livro, de capa muito dura, para enformar, contém um Prólogo de sete páginas, da autoria de Noel Arnaud, Notas sobre os textos (mais 6 páginas), referências Bio-Bibliográficas (mais 4 páginas), ilustrações de Pedro Vieira (mais 7 páginas) e, propriamente da autoria de Boris Vian, 48 páginas, 26 das quais pertencendo a uma espécie de conferência, intitulada “Utilidade de uma literatura pornográfica”, e que é um texto com muito pouco interesse e que poderia ter continuado na gaveta.

Os restantes textos de Vian incluídos nesta colectânea, têm, também eles muito pouco interesse e Vian tê-los-á inscrito porque sim. São eles: “Liberdade”, “Durante o Congresso”, “As Fufas”, “A Marcha do Pepino”, “A Missa em João Menor” e “Drencula, excertos do diário de David Benson”, o único texto que poderá ser considerado “pornográfico” e que tem alguma graça.

Gosto muito do Boris Vian, mas senti-me enganado ao dar 17 euros por este livrinho da Guerra e Paz, que poderia surgir como “extra” numa qualquer reedição do “Outono em Pequim”.