“90 Livros Clássicos Para Pessoas Com Pressa”, de Lange & Wengelewski

50classicosDe vez em quando, alguém tem uma ideia brilhante como esta: resumir 90 conhecidas obras literárias a 3 quadradinhos de banda desenhada para cada livro.

Henrik fez as ilustrações e Thomas Wengelewski escreveu os textos, todos eles notáveis de concisão e humor. Ao ler alguns desses curtos textos, lembro-me dos Contos do Gin Tónico, do Mário-Henrique Leiria.

Um exemplo:

“A Bíblia” – 1º quadradinho: No princípio Deus criou tudo e mais alguma coisa (sem feriados); 2º quadradinho: Fast forward: Jesus, o filho de Deus, nasceu (feriado!) e morreu numa cruz pelos nossos pecados (feriado); 3º quadradinho: E no fim é provável que acabemos todos no inferno.

Só faltaria acrescentar: e depois, beberam o gin. Todo…

Outro exemplo:

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Henrik Lange é sueco e começou a sua carreira de ilustrador humorístico em 1990. Está no Facebook.

Wengelewski é norte-americano, como o nome indica, e é autor de “99 TV Series for People in a Hurry”.

O livrinho, da editoral Presença, custa apenas 10 euros e proporciona uma hora de bom divertimento.

“Invisível”, de Paul Auster

invisivelLi críticas que diziam que este era o melhor romance de Paul Auster dos últimos tempos.

Não estou de acordo. Gostei mais de “Viagens no Scriptorium” ou de “As Loucuras de Brooklyn”.

Este “Invísivel” é mais um romance í  Auster, em que se cruzam diversas histórias, que têm princípio, meio, mas não têm fim. De facto, o livro termina abruptamente, muito mais que outros, como, por exemplo, “A Trilogia de Nova Iorque”.

Depois, uma das histórias parece-me um pouco forçada. Auster descreve, de modo muito gráfico, as aventuras sexuais de uma irmão e de uma irmã. Se estava com vontade de descrever práticas de sexo oral, ejaculações e orgasmos diversos, não precisava de pí´s dois irmãos a fazê-lo. O incesto em nada melhora ou faz andar a história e parece, apenas, servir para “épater le bourgeois”.

Por outro lado, ao contrário de muitos outros romances de Auster, parece-me que, neste “Invisível”, as personagens não têm muita substância, o que faz com que as histórias, embora curiosas e inteligentes, acabem por soar a pouco verosímeis.

Enfim, achei o Paul Auster em baixo de forma.

“A Sabedoria e o Humor de Oscar Wilde”

citacoes_oscarwildePareceu-me um bom investimento, comprar este livrinho, onde estariam compilados, por temas, os principais aforismos de Oscar Wilde.

O problema é que esta é uma edição muito pouco cuidada.

Diz a capa que a compilação pertence a Loureiro Neves.

í“ Sr. Neves, explique-me lá isto:

Na página 15, no capítulo Amor, pode ler-se esta citação: «um homem pode viver feliz com qualquer mulher, desde que não a ame».

Mais í  frente, na página 33, no capítulo Casamento, lê-se esta citação: «qualquer homem poderá ser feliz com uma mulher, contanto (sic) que não a ame».

Na página 45, no capítulo Estados Unidos, lemos: «A juventude da América é a sua mais antiga tradição. Dura, pelo menos, há uns trezentos anos».

Logo na página a seguir, esta outra, tão diferente da anterior: «A juventude da América é a sua mais velha tradição – dura há trezentos anos».

E há mais exemplos como este, para além de outras situações em que a tradução das frases de Wilde é confrangedora.

Salvam-se as grandes frases de Oscar Wilde. Alguns exemplos:

«Todos os incapazes de aprender, resolveram ensinar – foi a isso que chegou o nosso entusiasmo pela educação».

«Dado o carácter do jornalismo actual, a profissão de espião deixou de fazer sentido».

«O cínico é aquele que conhece o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada».

«Não tenho nada a declarar, a não ser o meu génio».

«Tenho os gostos mais simples do mundo – contento-me com o melhor».

«Sei resistir a tudo menos í s tentações».

“A Rainha no Palácio das Correntes de Ar”, de Stieg Larsson

milenium3Três dias de gripe A (ou B…) e umas 9 horas de leitura e acabei com a trilogia “Millenium”, do sueco Stieg Larsson.

O 3º volume é, muito provavelmente, o mais interessante dos três calhamaços. É neste volume que se atam todas as pontas soltas que envolvem a estranha e aventurosa vida de Lisbeth Salander, uma hacker super-dotada, filha de um espião russo que trabalhava para uma secção muito especial dos serviços secretos suecos, í  revelia das próprias autoridades e mais, e mais…

O argumento é astucioso e tem suspense suficiente para nos agarrar e, a dado passo, até nos esquecemos que tudo isto se passa na Suécia e não em Nova Iorque ou Miami.

Continuo a achar que o escritor não conseguiu eliminar partes do livro que são perfeitamente dispensáveis. Por exemplo, este naco:

“Meteu-se no Volvo e dirigiu-se ao centro da cidade, onde bifurcou, por Stora Essingen e Grondal, para Sodermalm. Meteu pela Hornsgatan e chegou í  Bellmansgatan pela Brannkyrkagatan. Virou í  esquerda na Tavastgatan, próximo do pub Bishop’s Arms, e estacionou junto í  esquina”.

Bem sei que todas estas indicações conferem alguma realidade í  coisa, mas que me interessa a mim o percurso que o tipo fez para chegar ao pub? E para quem não conhece Estocolmo, o escritor podia ter posto ali outros nomes quaisquer, que era igual ao litro.

E existem longos parágrafos com descrições semelhantes, o que acaba por quebrar um pouco o ritmo í  história. Mantendo a mesma história e reduzindo o tamanho dos livros, Larsson conseguiria um efeito ainda mais explosivo.

Mas enfim, foi um bom companheiro nestes três dias de gripe, em que o ânimo não daria para obras de outro fí´lego.

“Leite Derramado”, de Chico Buarque

leitederramadoUm homem muito velho está na cama de um hospital, vivendo os últimos dias da sua longa vida e vai desfiando as suas memórias para alguém (a filha, uma enfermeira, alguém que passa…)

As suas memórias começam no tempo em que, descendente de portugueses, vivia num casarão de ricos e vai por ali fora, de geração em geração, da riqueza í  miséria, até seu tetaraneto que, pelos vistos, trafica cocaína.

Os episódios da sua vida vão-se confundindo na sua memória já muito usada, mas o episódio fulcral é o do seu casamento com Matilde e do desaparecimento desta: fugiu com um amante, suicidou-se, morreu de doença grave?

“Leite Derramado” é um texto notável, um monólogo que vai avançando e recuando, para avançar novamente e que se lê de um fí´lego.

“A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo”, de Stieg Larsson

millenium2Este segundo volume da trilogia “Millenium” é mais fraco que o primeiro.

Stieg Larsson, o tal escritor sueco que entregou estes três calhamaços para publicação e, depois, morreu de ataque cardíaco, enche algumas páginas com “palha”, conversa mole, em que nada acontece, como este naco:

“Dormiu até quase ao meio-dia. Quando acordou, decidiu que era mais do que tempo de mudar os lençóis. Passou a tarde de sábado a limpar o apartamento. Levou o lixo para fora e juntou os jornais em dois sacos de plástico que deixou no papelão. Fez uma máquina de roupa interior e t-shirts, e a seguir outra de jeans. Encheu a máquina de lavar loiça e pí´-la a funcionar. Finalmente, aspirou e lavou o cão. í€s nove da noite, estava encharcada em suor. Preparou um banho, com montes de espuma. Recostou-se na banheira e fechou os olhos, para pensar. Acordou í  meia-noite, e a água estava fria. Secou-se e foi para a cama. Adormeceu quase instantaneamente.”

Sabendo que a senhora que fez todas estas coisas é a “hacker” Lisbeth Salander, perita em artes marciais e capaz de torturar bandidos e dar tiros a calmeirões, soa um bocado a falso e conversa para encher chouriços.

O outro herói, continua a ser o super-jornalista Mikael Blomkvist e, neste 2º livro da trilogia, o tema é tráfico de mulheres.

Sinceramente, quase que não me apetece ler o 3º volume…

“Como o Acaso Comanda as Nossas Vidas”, de Stefan Klein

comooacasoStefan Klein é um biofísico alemão que se dedica ao jornalismo científico e é considerado, por António Damásio, como “o mais importante escritor sobre Neurociência, na Alemanha”.

Portanto, este “Como o Acaso Comanda as Nossas Vidas” (“Alles Zufall” – Tudo Acaso, em alemão) é um livro muito mais sério do que a capa da edição portuguesa faz prever.

Em resumo, Klein tenta provar que o acaso não só faz parte da nossa vida, como determina a maioria das decisões e dos acontecimentos. Cabe-nos, a nós, estarmos preparados para ele, tentando tirar o máximo partido do acaso.

Recorrendo í s conclusões de inúmeras experiências de outros investigadores, Klein vai mostrando que devemos estar mais atentos ao acaso e passar a contar com ele, como se fosse algo de planeado.

E ser positivo, sempre. Um exemplo:

“(…) se uma pessoa em cada dez mil está infectada com o VIH e em 99,99 por cento das vezes o teste da Sida dá o resultado correcto, o que significa então o resultado de um teste positivo? “Que a pessoa em questão adoeceu irremediavelmente”, responderia qualquer um de nós e sentir-se-ia esmagado se fossemos nós próprios a receber a notícia. De facto, porém, ainda não há motivo para desesperar: o perigo de que a triste notícia se confirme é apenas de 50%. Se, entre dez mil pessoas, uma tiver Sida, o teste acusará de certeza positivo. Entre as 9999 que não estão infectadas, 99,99 por cento, portanto 9998 pessoas, obterão um resultado negativo. Mas, no caso de uma pessoa saudável, o teste irá falhar e acusar “positivo”. Entre as dez mil pessoas que foram testadas, duas serão confrontadas, portanto, com um resultado positivo: uma que se encontra, de facto doente, e outra saudável. Isto quer então dizer que, no caso de um resultado positivo, as possibilidades de estar ou não infectado, são idênticas.”

“Os Homens que Odeiam as Mulheres”, de Stieg Larsson

millenium1A história é conhecida: Stieg Larsson foi jornalista e editor da revista sueca Expo. Morreu subitamente, em 2004, com 50 anos, pouco depois de entregar para publicação a trilogia “Millenium”.

Larsson não assistiu, portanto, ao êxito instantaneo destes seus três calhamaços, que nos contam as aventuras do super-jornalista da revista Millemiun, Mikael Blomkvist e da hacker associal, Lisbeth Salander.

Neste primeiro volume, Blomkvist e Salander resolvem o caso do desaparecimento de Harriet, uma descendente da poderosa família Vanger, desaparecida há 30 anos.

A escrita de Larsson é escorreita, a história está bem contada e esta é a leitura indicada para o tempo de férias.

Só é pena eu não estar de férias…

“A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago”, de Bill Bryson

rapazrelampagoÉ sempre um prazer ler um livro de Bill Bryson.

Embora seja mais conhecido pelos seus livros de viagens, Bryson escreve sobre quase tudo – aliás tem um livro chamado “Breve História de Quase Tudo”.

E escreve sempre de um modo muito divertido.

Este livro aborda a América da década de 50, do século passado, a década da prosperidade norte-americana e, também, a década em que Bill Bryson, nascido em 1951, cresceu.

Os pais de Bryson eram jornalistas no Register de Des Moines, no Iowa – o pai, jornalista desportivo, a mãe, de temas femininos e, pelos vistos, a infância do futuro escritor foi feliz e despreocupada.

No livro, Bryson relembra esses tempos, sempre com muitos e curiosos pormenores estatísticos.

Na década de 50, na América “éramos felizes e indestrutíveis. Não precisávamos de cintos de segurança, de airbags, de detectores de fumos, de água engarrafada, nem da manobra de Hemlich. Não eram necessárias tampas í  prova de crianças nos medicamentos. Passeávamos sem capacete quando andávamos de bicicleta, e sem joalheiras e cotoveleiras quando andávamos de skate. Sabíamos, sem que precisassem de nos lembrar por escrito, que a lixívia não era um refresco e que, quando exposta a um fósforo, a gasolina tendia a entrar em combustão. Não nos precisávamos de preocupar com aquilo que comíamos, pois quase todos os alimentos eram benéficos: o açúcar dava-nos energia, a carne vermelha tornava-nos fortes, o gelado proporcionava-nos ossos saudáveis, o café mantinha-nos alerta e produtivos”.

Tempos felizes, esses, onde até o tabaco era aconselhado pelos médicos…

Mas também existiam modas irritantes, como o aeromodelismo (e só a malta com mais de 50 anos, sabe do que estou a falar). “O modelismo tinha fama de ser muitíssimo divertido mas, na verdade, não passava de uma provação misteriosa que tínhamos de enfrentar de tempos a tempos, como parte do processo de juventude. Os modelos pareciam sempre divertidos, é verdade. As ilustrações nas caixas representavam aviões de combate de um pormenor maravilhoso (…). Mas, quando chegávamos a casa e abríamos a caixa, o conteúdo revelava ser de um cinzento-chumbo, ou de um verde-azeitona uniforme, consistindo talvez em sessenta mil partes minúsculas, algumas pouco maiores do que um protão, todas ligadas de uma qualquer forma orgânica e inseparável a varetas de plástico semelhantes a palitos de coquetel. Os tubos de cola, em contraste, eram enormes, do tamanho de seringas de pasteleiro. Por muito pouca força que se empregasse, vomitavam sempre pelo menos meio litro de uma gosma viscosa transparente cujo único instinto era aderir a qualquer objecto estranho – um dedo humano, os cortinados da sala, o pêlo de um animal de passagem – e transformar-se num fio infinitamente comprido.”

Tantas vezes que isto me aconteceu, no início da minha adolescência, até desistir, definitivamente de construir modelos de aviões, ou barcos, ou automóveis.

Bryson é dois anos mais velho do que eu, e enfrentou a possibilidade de ir para guerra do Vietnam um pouco antes de eu enfrentar a possibilidade de ir para a guerra colonial. Em ambos os casos, o que nos safou foi estudar.

Diz ele: “Em 1968, um quarto dos jovens americanos estava nas forças armadas. Quase todos os outros frequentavam a escola, estavam na prisão ou eram o George W. Bush”.

Impagável, este Bryson!

“Slam”, de Nick Hornby

slamNick Horny (nascido em Inglaterra, em 1957), escreveu um livro muito divertido. Chama-se “Alta Fidelidade”, foi publicado em 1995, adaptado ao cinema em 2000, com Stephen Frears a realizar e John Cusack a protagonizar.

E isto chegava, como currículo de Hornby porque, todos os restantes livros que escreveu são versões de “High Fidelity”.

“Era Uma Vez Um Rapaz”, (“About a Boy”, 1998, adaptado ao cinema, com realização de Chris Weitz e protagonizado por Hugh Grant), “Como Ser Bom” (“How to be Good”, 2001), “Um Grande Salto” (“A Long Way Down”, 2005), e este “Slam” (2007), são todos muito parecidos com o primeiro êxito de Hornby.

Antes, já tinha publicado “Febre no Estádio” (“Fever Pitch”, 1992, também adaptado ao cinema, num filme obscuro realizado por David Evans e protagonizado por Colin Firth), mas foi “High Fidelity” que deu o mote para os restantes livros.

“Slam” tem como tema a gravidez na adolescência. A Grã Bretanha é o país da Europa com a mais alta taxa de gravidez antes dos 18 anos e Hornby dá voz a um puto de 15 anos, Sam, que engravida a namorada e que, de repente, se vê a braços com a responsabilidade de um filho.

Mais um livro divertido, fácil de ler, mas que não deixa marca nenhuma.