É só saúde!

A ministra da Saúde não gosta do amarelo.

Duas horas depois da DGS ter dito, pela voz da sua Directora-Geral, que os bolentins de saúde das criancinhas iam deixar de ser azuis e cor-de-rosa, consoante o sexo, e passariam a ser todos amarelos, Ana Paula Martins, ministra da Saúde, fez sair um comunicado a informar que essa ideia peregrina seria posta de lado e voltávamos ao que estava: boletim azul para os machos e cor-de-rosa para as fêmeas. Os amarelos são da Carris.

Se Ana Paula Martins tivesse sido tão lesta a enfrentar a crise do INEM, talvez não tivessem ocorrido tantas mortes por falta de assistência.

Mas a culpa- sabemos agora, foi da secretária de Estado da Gestão da Saúde, aquela simpática que disse que a Comunicação Social estava com anemia, querendo significar amnésia – ou então, foi do chefe do INEM, recém-nomeado pela ministra – ou, em última instância, a culpa é mesmo do Montenegro que foi nomear ministra uma senhora que afirmou não ter capacidade para ser chefe do Hospital de Santa Maria.

“Visitar Amigos e Outros Contos”, de Luísa Costa Gomes (2024)

Luísa Costa Gomes gosta de nos contar histórias. Vencedora do Grande Prémio do Conto da Sociedade Portuguesa de Escritores tem já, no seu currículo, alguns livros de contos.

Depois de lermos “Setembro e Outros Contos” (2007) e “Afastar-se e Outros Contos” (2021), detivemo-nos, por estes dias, com este “Visitar Amigos”, editado já este ano.

São 13 contos, dos quais talvez destaque dois.

No conto “O Velho Senhor”, lemos este parágrafo:

“A mãe morrera num acesso de extrema discrição. Retirar-se por partes para um silêncio todo feito de modéstia, contíguo a uma etapa em que a sua única frase tinha sido, não me lembro, não sei, já não sei nada.”

O outro chama-se “Património” e começa assim:

“Na primavera dos seus quarenta e um anos, saindo de um duche frio, Félix teve a consciência de que nunca por nunca viria a ser rico. A nitidez, quase de alucinação, pode ter vindo do choque térmico, ou da fome danada com que sempre acordava. Secando-se depressa calculou que o esperavam anos e anos de contas e acertos, dívidas pequenas que iam transitando de mês a mês, mudando, na melhor das hipóteses, a intensidade com que as sentia”.

Mas há mais, muito mais…

A história “Catilinária”, começa assim:

“Não encontro dono de gato que o seja sem relutância. É comum julgar-se vítima de um acaso que lhe trouxe à porta, miando pela vida, uma exigência a que ele, por fraqueza, não resiste. Diz com ironia que é mais o gato que o tem a ele do que ele ao gato. Não convém argumentar”.

Muito bom…

“A Orgia de Praga” (1985), de Philip Roth

Este é o último livro de Roth dedicado ao seu heterónimo Nathan Zuckerman.

Após a publicação do Complexo de Portnoy, Roth foi atacado de tal modo, sobretudo pela comunidade judaica, que decidiu inventar Zuckerman, um escritor proscrito por ser judeu e criticar os hábitos judaicos.

Foram quatro livros: O Escritor Fantasma (1979), editado em Portugal em 2017, Zuckerman Libertado (1981), editado cá em 2023, A Lição de Anatomia (1983), por cá em 2015 e A Orgia de Praga (1985), aqui apenas este ano.        

Estes quatro livros de Roth não são, certamente, dos mais interessantes do grande escritor norte-americano, já que são uma espécie de vingança perante a comunidade judaica norte-americana.

Este último volume, A Orgia de Praga, talvez seja o menos interessante. No entanto, tem algumas diatribes que vale a pena assinalar:

“A Olga também é escritora. É muito conhecida na Checoslováquia pelos seus livros, pelo seu alcoolismo, e por mostrar a cona a toda a gente”.

Ou esta, ainda melhor:

“- Mas nós vivemos numa sociedade sem classes – diz ela – No socialismo. De que me serve o socialismo se ninguém me fode quando eu quero? Todas as grandes figuras nacionais vêm a Praga ver a opressão em que vivemos, mas não hã um único que me foda. O Sartre esteve cá e não quis foder-me. A Simone Beauvoir veio com ele e não quis foder-me. O Heinrich Boll, o Carlos Fuentes, o Graham Greene – e nenhum quer forder-me.”

O resto tem menos interesse…

“Bambino A Roma”, de Chico Buarque (2024)

É sempre um prazer ler um livro do Chico Buarque. Nascido em 1944, Chico Buarque viveu em Roma entre 1953-54, porque o seu pai foi dar aulas numa Universidade, sobre e3studos brasileiros.

Essa estadia em Roma, apanhou Chico nos seus 9-10 anos e, neste pequeno livro, ele aproveita meia dúzia de memórias para criar um livro curioso e, sobretudo, divertido.

Chico Buarque recorda a sua relação com os irmãos e, sobretudo, com alguns colegas do colégio que frequentou naqueles dois anos. A diferença das línguas, entre os estudantes dessa escola internacional, era um dos motivos para galhofa. Buarque conta que tinha um colega japonês e que…

“Na sala de aula o Kasuki se sentava na carteira à minha frente e costumava trocar mensagens comigo. No verso das suas folhas de caderno com ideogramas caprichados, a nanquim, eu escrevia boceta, caralho, cu da mãe, coisas que de algum modo ele compreendia, pois se virava e piscava o olho com um ar malandro que eu não conhecia em japoneses.”

Muito divertido.

E, a pouco e pouco, a obra de Chico Buarque, Prémio Camões de 2019, vai-se consolidando.

Outros livros de Chico Buarque: “Anos de Chumbo e Outros Contos” (2021); “O Irmão Alemão” (2014); “Essa Gente(2019); “Leite Derramado” (2009)

“A Forasteira”, de Olga Merino (2020)

Olga Merino (Barcelona, 1965), escreveu um romance que se integra num novo movimento das letras espanholas, a narrativa neorrural. Recentemente li um outro livro que também se integra neste movimento e de que gostei mais: “Eu Canto e a Montanha Dança”, de Solà Saez.

No entanto, este “A Forasteira” também é interessante e, como diz a contracapa, é uma espécie de “western contemporâneo no território da Espanha esquecida”.

Ângela é a narradora. Viveu em Londres durante alguns anos, serviu de modelo para um pintor e acabou por viver com ele, cometeu alguns excessos e agora, que se aproxima a menopausa, decide regressar às origens, voltando para a sua aldeia no sul de Espanha, numa zona isolada.

Algum tempo depois de chegar, descobre o proprietário de terras mais poderoso da região, enforcado numa nogueira. Também o seu pai morreu precocemente e ela nunca soube como. Também ter-se-á suicidado. Os enforcamentos são comuns naquela região.

Ângela decide, então, escavar o passado e a tensão da história vai aumentando, à medida que o livro avança.

Vale a pena ler.

Pedro Pinto vítima de bullying!

Coitado do líder parlamentar do Chega!

Pedro Pinto foi à RTP defender a actuação do agente da PSP que matou um cidadão que, aparentemente, tinha uma faca fechada numa bolsa.

Disse Pedro Pinto que “se os polícias atirassem mais a matar, o país estaria mais em ordem”.

É uma verdade insofismável!

Se eu matasse todos os cabrões que mudam de direcção sem fazer pisca, todos os filhos da puta que cospem para o chão e não apanham a merda dos cãezinhos, se eu matasse à pancada todos os filisteus que me ultrapassam pela direita, todos os sevandijas que fogem aos impostos, todos os políticos que faltam à verdade, talvez ficássemos com um país semi-deserto, mas haveria mais paz e tranquilidade. Para já não falar nos merdósicos que me passam à frente na fila para o autocarro, nos energúmenos que deixam as trotinetes a atravancar os passeios e nos atrasados mentais que estacionam em cima dos passeios.

Pedro Pinto apenas deu voz a milhares de portugueses e querem, agora, silenciá-lo só porque ele é obeso – e isso é discriminação!

Pedro Pinto não tem culpa de ser obeso e de parecer um taberneiro (sem ofensa para os verdadeiros taberneiros). Foi certamente um erro na sua educação; comeu muitos chocolates quando era criança e engordou porque teve falta de carinho e atenção. Devia ser ajudado e não acusado de incentivar à violência.

Se o Pedro Pinto fosse um tipo todo janota, magro e elegante, nada disto aconteceria!

Tenham vergonha!

Justiça para Pedro Pinto!

Ministro dos Comes e Bebes

Deve ser preciso estudar muito para se chegar a Ministro – e para se chegar a ministro da Agricultura, ainda mais!

O ministro da Agricultura tem de saber tudo sobre maçãs, azeitonas, castanhas, laranjas, mirtilos, cenouras e bróculos, couves variadas, vinhos e bebidas correlativas e muito mais. No fundo, é um Ministros dos Comes e Bebes.

O que ele deve estudar!

O Ministro dos Comes e Bebes do governo do Montenegro chama-se José Manuel Fernandes, nasceu em 1967 e é formado em Engenharia de Sistemas e Informática, portanto, deve perceber do que fala.

Foi ele que disse que, em Portugal, a “longevidade é maior onde bebem tinto verde”.

Claro que os produtores de vinho branco já se preparam para organizar uma manifestação a favor do vinho branco. Há casos de portugueses que bebem vinho branco até aos 96 anos de vida!

Mas o licenciado em engenharia de sistema foi mais longe e afirmou que “água em excesso faz mal”. Por um lado, foi muito aplaudido pela malta que não gosta de tomar banho, mas os produtores de água-pé ficaram incrédulos. Será que o ministro também inclui a água-pé neste lote das bebidas que fazem mal?

Sr. Ministro Fernandes, por que não se limita aos sistemas informáticos e deixa a Agricultura para os agricultores?

Montura e Ventenegro

Ventura diz que se encontrou com Montenegro cinco vezes para discutir o Orçamento e que o primeiro-ministro lhe pediu que saísse pelas traseiras, para não ser notado.

Verdade ou mentira?

Ventura também diz que Montenegro lhe ofereceu um compromisso: o Chega poderia vir a fazer parte do Governo se aprovasse o Orçamento.

Verdade ou mentira?

Ventura ainda disse que o “não é não” de Montenegro já não fazia sentido.

Verdade ou mentira?

Pouco interessa se é verdade ou mentira.

Quem se mete com o fogo sai sempre chamuscado.

“Azul de Agosto”, de Deborah Levy (2023)

Deborah Levy é uma escritora britânica, nascida em Joanesburgo em 1959. Escreveu várias peças de teatro estreadas pela Royal Shakespeare Company e é autora de diversos romances, tendo sido nomeada para o Bokker Prize três vezes.

Este “August Blue”, traduzido para a Relógio de Água por Alda Rodrigues, é uma romance singular, um pouco surrealista até, que nos conta a história de Elsa M. Aderson, uma pianista virtuosa que, a meio da interpretação do concerto para piano e orquestra nº2 de Rachmaninov, em Viena, começa a falahar e acaba por abandonar a sala de concertos.

Devido ao tom da escrita, eu teria optado pelo título “Agosto triste”, mas enfim…

Elsa foi adoptada aos 6 anos por um professor de piano que está agora velho e doente. Ela pouco sabe sobre a sua mãe biológica.

Ao longo do livro, a pianista vai saltitando entre Atenas, Paris, Londres e a Sardenha, sempre “perseguida” por uma mulher que ela pensa ser a sua dupla.

O livro tem uma linguagem, por vezes, surreal e poética:

“Durante a adolescência, fui uma pessoa serena, disse ele. Fiquei neurótico aos vinte, quando comecei a beber batidos de abacate e a esforçar-me por ter apenas pensamentos positivos.”

Ou ainda:

“As plantinhas cheiravam a meia-noite e a pedras quentes sob a chuva”.

Gostei de ler, mas não vai deixar marcas.