Referendo é coisa de suíços

A Suíça é um país estranho. Para além de estar dividida em cantões, quando toda a gente está a ver que aquilo são cantinhos, tem marinha, embora não tenha mar.

Para além da bandeira, que é bonita, os suíços pouco mais têm em comum – até a língua oficial é três.

Por isso, fazem referendos por tudo e por nada.

Agora, os portugueses parecem queres seguir-lhes as pisadas. Mais de 90 mil pessoas assinaram um abaixo-assinado pedindo um referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Porquê?

Porque é um tema “fracturante”, que é uma palavra muito na moda e que soa a ortopedia.

Também os impostos são um tema fracturante (partem muitas cabeças) e nunca ninguém se lembrou de propí´r um referendo para saber se as pessoas querem, ou não, pagar impostos.

E, já agora que falamos de impostos, por que não um referendo para saber se as pessoas acham bem que as igrejas estejam isentas de impostos?

Se os deputados puderam aprovar uma lei que me obriga a trabalhar mais anos para atingir a reforma – por que carga de água não hão-de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

E estou a ser injusto para os suíços… também gosto muito dos queijos e dos relógios…

The Closer – 4ª temporada

closer4Kyra Sedgwick compí´s a personagem da Sub-Chefe Brenda Leigh Johnson de modo perfeito e a série The Closer vive dessa personagem.

Com argumentos mais ou menos imaginativos, o interesse da série é, de facto, ver como Brenda desvenda o mistério, ao mesmo tempo que tenta entreter os pais ou resolver qualquer outro problema doméstico.

Os personagens secundários também não são maus e acompanham bem a Sub-Chefe.

No último episódio, Brenda casa-se com o seu companheiro, que é agente do FBI. Veremos se a série sobrevive ao casamento.

Três Cantos – José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto

3cantosNo dia 26 de Novembro de 1971, tinha eu 18 anos, estive sentado na plateia do antigo cinema Roma e, com o coração exaltado, assisti í  emissão, ao vivo, do Programa Página Um, da Rádio Renascença.

Nessa emissão, foi feita a apresentação pública do primeiro disco de José Mário Branco, “Mudam-se os Tempos…”. O Página Um era um programa “revolucionário”, de José Manuel Nunes, onde passava música que mais nenhuma rádio transmitia. A apresentação do disco, sem a presença do seu autor, exilado em França, foi feita pelo jornalista Adelino Gomes que, mais tarde haveria de ser meu colega na redacção do Telejornal da RTP.

A música do José Mário Branco era diferente de tudo o que tinha ouvido antes, em português, entenda-se: os arranjos eram notáveis, as melodias complexas e simples, simultaneamente, as letras empenhadas politicamente. José Mário Branco tinha conseguido fazer algo de novo: um produto musical sofisticado e, ao mesmo tempo, revolucionário, no sentido político do termo.

Como em muitas outras coisas, a “luta” contra a ditadura unia pessoas com diferentes estilos e opções de vida. O 25 de Abril afastou-as. Nos primeiros anos, ainda me exaltei com algumas das músicas do José Mário Branco, compostas para o colectivo GAC, com o “Ser Solidário”, como o “FMI”, mas, a pouco e pouco, afastei-me.

No entanto, ontem, ao assistir, em dvd, ao concerto do Campo Pequeno, não pude deeixar de passar por muitos momentos de emoção, com um nó na garganta, sobretudo quando tentei acompanhar canções como “Mariazinha”, “Confederação” ou “Inquietação”.

No que respeita ao Sérgio Godinho, sempre acompanhei a sua carreira e sempre pensei que ele tem uma enorme capacidade para meter o Rossio na Betesga e acho que tem músicas notáveis, que vão ficar na história da música popular portuguesa, incluindo, mesmo, aquela do “tractor, trabalha a todo vapor”…

Também me emocionei, ontem, com “Maré Alta” e “Primeiro Dia”.

No que respeita a Fausto, a coisa é um pouco diferente. Nos anos 70, na sala de alunos da Faculdade de Medicina de Lisboa, assisti a um espectáculo em que ele cantou, mas em que a estrela foi, sem dúvida, Ary dos Santos, que pí´s aquela malta toda de pé a berrar “S.A.R.L! S.A.R.L.”

Para além de “Por este Rio Acima”, que é um grande disco, pouco conheço da carreira de Fausto.

O espectáculo captado no Campo Pequeno, para além da surpresa de juntar estes três figurões da música popular “revolucionária”, não tem mais nenhuma surpresa: os arranjos orquestrais e vocais são competentes, mas expectáveis, as versões das canções são o mais possível parecidas com os originais e o inédito é mais do mesmo.

No fundo, era isto que as pessoas queriam: o Zé Mário, o Sérgio e o Fausto o mais parecidos possível com o tempo em que tínhamos 18 anos!…

A explosão de Portugal

Cavaco Silva, na sua optimista mensagem de Ano Novo: «podemos estar a caminhar para uma situação explosiva».

Nota-se, nestas palavras de ânimo, a verdadeira alma do filho do gasolineiro: se as coisas estão a correr mal, nada melhor do que deitar gasolina no fogo.

Mais lugares comuns da mensagem de Cavaco: «o exemplo tem que vir de cima». De cima? De onde? Do céu? De Deus? De Belém? De S. Bento?

Outro: «é preciso recuperar o valor da família». Qual valor? O do marido alcoólico que bate na mulher e acaba por matá-la? Das famílias que abandonam crianças nas vésperas do Ano Novo? De qual família? Da família “cristã”, em que todos se odeiam em surdina, mas mantêm as aparências perante os estranhos?

O discurso de Cavaco foi tão banal que até teve a aprovação de Carvalho da Silva, da CGTP.

Mas numa coisa estou de acordo com Aníbal: era bem engraçado que Portugal explodisse – em vez da jangada de pedra, idealizada por Saramago, teríamos várias pequenas ilhas portuguesas a vogar no Atlântico e, finalmente, poderíamos receber subsídios, como a Madeira.

cavaco_explosao

“Indignação”, de Philip Roth

indignacaoNão há dúvida que Roth é, neste momento, o meu escritor favorito e cada novo livro dele me proporciona um prazer substantivo.

“Indignação” é o 27º livro de Philip Roth e foge um pouco aos temas abordados nas últimas obras de Roth (“O Fantasma Sai de Cena” ou “Património”), que falavam da velhice, da doença, da decrepitude do corpo.

Neste livro, Roth conta-nos a história de Marcus Messner, filho de um talhante kosher de Newark, que decide sair de casa por já não poder aturar o protecionismo do pai, indo frequentar uma universidade longínqua, no Ohio.

A acção passa-se em 1951 e sabemos, desde o início, que o jovem não vai chegar aos 21 anos. Naquele tempo, decorria a guerra da Coreia e a única maneira de um jovem se livrar da guerra, era frequentar a universidade e não chumbar e/ou não ser expulso.

Mas Marcus é um jovem de ideais firmes, grande polemista, ateu convicto e a sua personalidade vincada vai acabar por lhe trazer dissabores numa universidade tão tradicionalista como era, então, a de Winsburg.

A prosa brilhante de Roth é, como sempre, versátil, luminosa, imensamente rica e cheia de humor cínico de quem sabe muito da vida.

Aqui fica um exemplo de como Roth transforma um episódio trágico, mas banal, numa pequena história bem colorida:

“No centro da cidade, onde o chefe da estação e o seu ajudante tinham mantido as linhas de comboio desimpedidas durante o nevão, o Elwyn terá tentado fazer uma corrida contra o comboio de mercadorias da meia-noite para ver quem chegava primeiro í  passagem de nível que separava a Main Street da Lower Main, e o LaSalle, derrapando sem controlo, fez dois piões em cima dos carris e foi apanhado em cheio pela armadura limpa-neves da locomotiva vinda de leste a caminho de Akron. O carro em que eu tinha levado a Olívia a jantar e depois ao cemitério – um veículo histórico, mesmo um monumento, digamos assim, na história do advento da felação no campus de Winesburg na segunda metade do século XX, foi projectado para o lado, capotou e foi cair na Lower Main onde explodiu em chamas, e Elwyn Ayers Jr. morreu, aparentemente vítima do impacto,  e rapidamente ardeu no meio dos escombros do carro de que cuidara mais do que tudo na vida e que amara em vez de homens ou mulheres.”

Infelizmente, “Indignação” tem apenas 170 páginas…

“90 Livros Clássicos Para Pessoas Com Pressa”, de Lange & Wengelewski

50classicosDe vez em quando, alguém tem uma ideia brilhante como esta: resumir 90 conhecidas obras literárias a 3 quadradinhos de banda desenhada para cada livro.

Henrik fez as ilustrações e Thomas Wengelewski escreveu os textos, todos eles notáveis de concisão e humor. Ao ler alguns desses curtos textos, lembro-me dos Contos do Gin Tónico, do Mário-Henrique Leiria.

Um exemplo:

“A Bíblia” – 1º quadradinho: No princípio Deus criou tudo e mais alguma coisa (sem feriados); 2º quadradinho: Fast forward: Jesus, o filho de Deus, nasceu (feriado!) e morreu numa cruz pelos nossos pecados (feriado); 3º quadradinho: E no fim é provável que acabemos todos no inferno.

Só faltaria acrescentar: e depois, beberam o gin. Todo…

Outro exemplo:

50classicos_2

Henrik Lange é sueco e começou a sua carreira de ilustrador humorístico em 1990. Está no Facebook.

Wengelewski é norte-americano, como o nome indica, e é autor de “99 TV Series for People in a Hurry”.

O livrinho, da editoral Presença, custa apenas 10 euros e proporciona uma hora de bom divertimento.

O 10º Natal do Coiso na net

Foi no dia 1 de Novembro de 1999 que meti o Coiso na net.

A página de O Coiso foi toda desenhada pela Dalila e a sua forma original pode ser vista aqui.

O Coiso na net começou por ser um local onde coloquei textos que escrevi para muitos sítios, sobretudo, o Pão Comanteiga (programa-âncora da Rádio Comercial dos anos 80), o Uma Vez por Semana (o seu programa sexual), Pé de Vento, Pé de Cabra, Pau de Canela, Bisnau, A Quinta do Dois, Um, Dois, Três, etc, etc – e, claro, o próprio O Coiso, “o semanário humorístico com maior penetração no país”, e que durou apenas 13 semanas, em 1975.

Depois, a pouco e pouco, transformei este Coiso numa espécie de blog pessoal, onde publiquei as Memórias de um Fumador. Não gostei da exposição. Arrependi-me de partilhar com desconhecidos os altos e baixos da vida. Desisti do tom intimista e voltei ao tom “jornalístico”.

O “problema” é que, desde a infância que gosto de inventar jornais.

Assim, este Coiso é, sobretudo, uma necessidade – e um gozo.

O Coiso – jornal, foi um projecto meu, do ílvaro Belo Marques, do Mário-Henrique Leiria, do Ruy Lemus, do José António Pinheiro, do Carlos Barradas e de mais uns quantos maduros que giravam na órbita do jornal República, ainda antes do 25 de Abril de 1974.

Era um projecto “anarquista”, daqueles que não pode durar muito tempo porque se auto-destrói por natureza.

Chamava-se O Coiso, porque era (e é…) assim que a Mila se referia í s mais variadas coisas, pessoas, atitudes, acontecimentos – «passa-me aí o coiso», «viste aquele coiso?», «olha, acabou-se-me o coiso»…

Assim, í  pergunta: «como se há-de chamar o jornal?», acabámos por concordar em “O Coiso”, porque, de facto, aquilo não era bem um jornal, nem uma revista, nem nada de definível… era um coiso.

Portanto, com a ajuda da Dalila e do Pedro, O Coiso está na net há 10 anos.

Prometo, para já, mais 10 anos.

E bom Natal, pá!

Nip/Tuck – 5ª temporada, 2ª parte

niptuck5_2Já se sabe que Nip/Tuck é a série mais “kinky” da televisão.

Basta dizer que Matt, o filho do cirurgião McNamara que, afinal é filho do outro cirurgião, Christian Troy, uma vez que a sua mães, Julia, dormiu com os dois cirurgiões, muito antes de descobrir que era lésbica, pois Matt casou-se com uma ex-atriz porno, que já fora casada com o Dr. Troy e com ela teve uma menina que, aos 18 meses, já leva com Botox nos lábios para poder fazer campanhas publicitárias.

Depois, os casos clínicos vão desde o tipo que tem o corpo coberto de verrugas enormes, passando pela mulher que corta uma das mamas com uma serra eléctrica na recepção da clínica, e culminando com o tipo que quer fazer uma redução do pénis porque passa o tempo a fazer broche a si próprio.

Esta é mais uma daquelas séries que exige, do espectador, a aceitação do “setting”. Se o aceitarmos, divertimo-nos pela certa.

E a produção é excelente, com o guarda roupa dos actores a condizer com os sofás, ou os cortinados.

Por mim, pode continuar durante mais algumas temporadas.