Por que razão Cavaco não queria discursar no 5 de Outubro

“CS – Maria! Escrevi um discurso muito bonito para ler no 5 de Outubro. É sobre e-mails, spam e hackers…

MCS – Tu livra-te, Aníbal! Não dizes nem mais uma palavra sobre essas coisas! Isso são coisas do Demo! Vais mas é ficar caladinho!

CS – Mas Maria… é o 99º aniversário da implantação da República! Se eu não falo, o rei vai dizer que o Presidente vai nu!…

MCS – Eu quero lá saber o que D. Duarte diz ou deixa de dizer! Está decidido: não discursas! E agora vem tomar o Sargenor, que está na hora…”

Nota: excerto das escutas da Presidência da República. Conversa captada no dia 2 de Outubro, pelas 14h 13 minutos. O microfone está por baixo daquela terrina da Companhia das Índias, que está no aparador da cozinha.

Agradecemos a colaboração do Agrupamento de Escutas de Vila Velha de Vintém.

“Doubt”, de John Patrick Shanley

duvidaMeryl Streep interpreta o papel de freira chefe, mázona, na Saint Nicholas Church School e foi nomeada pela enésima vez para o óscar de melhor actriz.

Philip Seymour Hoffman é o padre Flynn e foi nomeado para o óscar de melhor actor.

Amy Adams é a freira boazinha, professora de História e Viola Davis é  mãe do único aluno de raça negra – ambas foram nomeadas para o óscar de melhor actriz secundária.

Shanley adaptou para o cinema a peça de teatro que ele próprio escreveu e levou í  cena em 2004 e foi nomeado para o óscar de melhor argumento adaptado.

E apesar destas 5 nomeações, não posso dizer que o filme me tenha tocado.

Será que o padre Flynn é pedófilo, sentou o miúdo negro no colo e o acariciou, enquanto lhe lia a Bíblia?

Who cares?

Claro que a Streep é boa actriz, claro que o Hoffman é capaz de ser bom atrás, mas não chega para prender a minha atenção.

“The Reader”, de Stephen Daldry

leitorLi críticas contraditórias a este filme, que proporcionou a Kate Winslet, este ano, o óscar para melhor actriz. Eu gostei.

Adaptado de uma novela do escritor alemão Der Vorleser, publicado em 1995, “The Reader” começa na Alemanha dos anos 50, contando-nos a história de uma pica-bilhetes trintona que, certo dia, ao ajudar um miúdo de 15 anos que está mal disposto, acaba por o levar para a cama e iniciá-lo.

Assim, na primeira parte do filme, Hanna Schmitz (Kate Winslet), come o rapazinho, Michael (David Kross) dezenas de vezes, antes ou depois de ele lhe ler “A Odisseia”, de Homero, contos de Tchekov ou, até, bandas desenhadas do Tintin.

Só que, entretanto, o grande segredo de Hannah fica exposto e ela desaparece da vida de Michael, para reaparecer muitos anos mais tarde, quando ele já é interpretado por Ralph Fiennes.

Afinal, Hanna tinha sido membro das SS e tinha trabalhado num campo de concentração, tendo sido responsável directa pela morte de centenas de mulheres. E não sabia ler nem escrever.

Dois segredos terríveis, na vida daquela mulher que, no entanto, prefere que se descubra que pertenceu í s SS, do que se saiba que, afinal, é analfabeta. A vergonha de ser iletrada é maior.

O filme expõe a culpa do povo alemão: nenhum alemão desconhecia o que se passava nos campos de concentração; nenhum alemão é inocente.

Claro que este tema não é tão desenvolvido como, por exemplo, no livro “As Benevolentes“, de Jonathan Littell e, por isso, alguns críticos, como o do Guardian, detestaram o filme.

Mas estamos perante isso mesmo: um filme e um filme tem que prestar, sobretudo, entretenimento. Se queres um profundo debate de ideias, lê um livro.

Digo eu, claro.

“The Dutchess”, de Saul Dibb

duquesaNão se pode dizer que o principal interesse deste filme reside nos magníficos chapéus que a Duquesa de Devonshire exibe, mas quase (óscar para melhor guarda-roupa, este ano).

Georgiana Spencer (antepassado da princesa Diana), foi a primeira mulher de William Cavendish, duque de Devonshire e teve uma vida curta e atribulada, tendo morrido aos 49 anos, depois de ter dado í  luz várias filhas, um único filho varão e um bastardo, para além de ter aturado uma menage í  trois e ter, ela própria, dado uma facadinha no casamento, o que, para os anos de 1780, deve ter sido algo de altamente escandaloso.

Ralph Fiennes faz um Duque duro e seco, como deviam ser os duques naqueles tempos; para ele, a mulher apenas existia para o servir e para lhe dar um herdeiro. E, no que respeita a amantes, claro que era suposto ter as que quisesse.

Keira Knightley faz uma Duquesa pouco convincente, que passa pelas verdadeiras violações do marido, pelas infidelidades e pelo affair com Charles James Foxx, com pouco mais do que meia dúzia de lágrimas.

Mas com chapéus formidáveis, de facto…

Cavaco confuso

Estava eu sentadinho na minha casa do Algarve, já com as pantufinhas calçadas e uma mantinha sobre os joelhos, a estudar os decretos-lei que o malvado do Sócrates me obrigou a levar para férias, quando apareceu a minha Maria, a dizer:

– Estão lá fora duas pessoas importantes do PS a dizer que tu estás a ajudar o PSD a elaborar o programa do Governo.

– E como sabes tu que elas são duas pessoas importantes do PS? – perguntei.

E ela: “porque os contei – um, dois -, porque são altos e porque trazem rosas ao peito.

Percebi automaticamente que o PS me queria manipular, encostando-me ao PSD, para disso tirar dividendos eleitorais.

Regressei a correr a Lisboa e, mal entrei no meu gabinete da Presidência da República achei que alguém me tinha mexido no computador porque o naperon que a Maria tinha posto por cima da impressora, por causa do pó, estava um bocadinho desviado.

Liguei o computador e fui ver os mails e achei-os um pouco vulneráveis. De tal maneira, que hoje mesmo liguei para a Zon e já cá veio um brasileiro que me configurou o meu programa de mails, de modo a só receber mails de pessoas decentes.

Por isso, portugueses, sou forçado – repito: sou forçado – a tornar pública a minha indignação e repetir que ninguém está autorizado a falar em meu nome, nem mesmo a minha mulher.

Se algum dia ela vier a público dizer que eu estou desmemoriado ou confuso, ou baralhado, ou confuso outra vez, podem ter a certeza que falará em seu nome pessoal porque, em meu nome, ninguém fala, a não ser o chefe da Casa Civil e o chefe da Casa Militar e, talvez, eu próprio, embora não tenha bem a certeza disso.

Boa noite e agora vou para dentro, pensar como raio é que vou arranjar uma maneira de não indigitar Sócrates como primeiro-ministro.

“Como o Acaso Comanda as Nossas Vidas”, de Stefan Klein

comooacasoStefan Klein é um biofísico alemão que se dedica ao jornalismo científico e é considerado, por António Damásio, como “o mais importante escritor sobre Neurociência, na Alemanha”.

Portanto, este “Como o Acaso Comanda as Nossas Vidas” (“Alles Zufall” – Tudo Acaso, em alemão) é um livro muito mais sério do que a capa da edição portuguesa faz prever.

Em resumo, Klein tenta provar que o acaso não só faz parte da nossa vida, como determina a maioria das decisões e dos acontecimentos. Cabe-nos, a nós, estarmos preparados para ele, tentando tirar o máximo partido do acaso.

Recorrendo í s conclusões de inúmeras experiências de outros investigadores, Klein vai mostrando que devemos estar mais atentos ao acaso e passar a contar com ele, como se fosse algo de planeado.

E ser positivo, sempre. Um exemplo:

“(…) se uma pessoa em cada dez mil está infectada com o VIH e em 99,99 por cento das vezes o teste da Sida dá o resultado correcto, o que significa então o resultado de um teste positivo? “Que a pessoa em questão adoeceu irremediavelmente”, responderia qualquer um de nós e sentir-se-ia esmagado se fossemos nós próprios a receber a notícia. De facto, porém, ainda não há motivo para desesperar: o perigo de que a triste notícia se confirme é apenas de 50%. Se, entre dez mil pessoas, uma tiver Sida, o teste acusará de certeza positivo. Entre as 9999 que não estão infectadas, 99,99 por cento, portanto 9998 pessoas, obterão um resultado negativo. Mas, no caso de uma pessoa saudável, o teste irá falhar e acusar “positivo”. Entre as dez mil pessoas que foram testadas, duas serão confrontadas, portanto, com um resultado positivo: uma que se encontra, de facto doente, e outra saudável. Isto quer então dizer que, no caso de um resultado positivo, as possibilidades de estar ou não infectado, são idênticas.”

Mas afinal, quem ganhou as eleições?

Olhando para os jornais, assim de repente, até parece que foi o Paulo Portas!…

E, afinal, o CDS não teve mais do que 10% dos votos, o que corresponde a 21 deputados. Quer dizer que o Partido do táxi vai ter que comprar um mini-bus.

Mas 10% é uma miséria! Se o estádio da Luz estiver cheio, com 60 mil pessoas (e isso, agora, é cada vez mais frequente…) apenas 60 terão votado no Portas, considerando que as crianças até aos 18 anos não votam, mas gostam muito do Benfica…

Ridículo!

Então, se não foi o Portas que ganhou, parece que terá sido o Louçã, o que ainda é mais ridículo, pois o Bloco nem sequer chegou aos 10%!

É preciso contar mais de 90 portugueses para encontrar o primeiro que tenha votado no Bloco.

Insignificante!

No que respeita ao PCP, já se sabe que ganha sempre, ou porque tem mais votos, ou porque os votos são mais bonitos, ou porque teve mais jovens a votar ou porque o Jerónimo sua mais que os outros candidatos.

Mas – 7%?!

Tenham dó!

Portanto, quem ganhou as eleições, com 36% dos votos, foi o Sócrates!

Sem espinhas!

Agora tem é que fazer alianças e nisso os políticos portugueses são muito esquisitos.

Ainda há pouco tempo, na Noruega, três partidos de esquerda, incluindo comunistas, se coligaram para formar um governo maioritário.

Ontem mesmo, a Angela Merkel ganhou as eleições, mas vai governar coligada com o Partido Liberal – mas também podia ser com o SPD, só que estes tiveram um resultado miserável.

Em Portugal, não.

O Louçã já disse que, com o Sócrates, nunca!

O Manuel Alegre já disse que coligações, só com a esquerda!

Mas se o Louçã não quer o Sócrates e p o Sócrates é que ganhou as eleições, coligações í  esquerda, só se fí´r com o Jerónimo.

Mas com o Jerónimo não chega para formar governo maioritário…

Nesse caso, mais vale o PS formar um governo minoritário e governar sozinho.

Está-se mesmo a ver que vamos ter que aturar o Portas no governo, outra vez.

Se eu fosse ao Sócrates, dava, ao CDS, as pastas da Agricultura, da Segurança Social e da Educação.

Sempre gostava de ver ministros do CDS a distribuir subsídios pelos agricultores, a cortar com o rendimento mínimo aos ciganos e a avaliar professores!…

Faz isso, Sócrates… não és homem, não és nada!…

Dia de reflexão

Há uns anos, havia uma frase feita que classificava a nossa democracia como “a jovem democracia portuguesa”.

Portugal só é uma democracia desde abril de 1974 e, comparativamente com a Inglaterra, a França ou os Estados Unidos, há-de ser, sempre uma mais jovem democracia.

No entanto, 35 anos depois do 25 de Abril, o chamado dia de reflexão, em que os partidos não podem fazer campanha e os órgãos de comunicação social não podem falar disso, faz cada vez menos sentido.

De certeza que, na net, dezenas, centenas de blogs estão a ser actualizados com posts sobre as eleições, dizendo, claramente, a intenção de voto dos seus autores.

Eu, no meu caso, vou votar no PS, como fiz há 4 anos, porque defendo o Serviço Nacional de Saúde e o PS tem uma ideia boa para a sua reforma, através das Unidades de Saúde Familiares, por causa do ensino de inglês na instrução primária, pelos 12 anos de escola obrigatória, pela aprovação da lei do aborto, pelo complemento solidário para idosos, pelo cheque-dentista, pelos medicamentos genéricos gratuitos para os reformados com complemento solidário, pelo programa Novas Oportunidades, pela distribuição do Magalhães, apesar dos erros, pelo complemento para grávidas, pela informatização de todos os centros de saúde, etc, etc.

Todas estas políticas compensam, largamente, os erros cometidos – e quanto í  história da arrogância, do medo e do autoritarismo, tenham paciência, mas já dei para esse peditório.

Pensei, por momentos, na Manuela Ferreira Leite como primeiro-ministro e ia tendo um enfarto.

O Paulo Portas é postiço e não merece mais que um bocejo.

O Jerónimo de Sousa cheira a bafio e só se mantém porque Portugal teve um líder comunista chamado Cunhal e um ditador chamado Salazar.

Quanto ao Louçã, é o mais perigoso de todos eles. É um moralista de esquerda, um conservador encapotado, um defensor de propostas de ruptura, que não usa gravata mas que, enfim, até nem se importaria de fazer parte de um governo burguês, quem sabe para corroer o sistema por dentro (ah! ah! ah!).

Portanto, Sócrates, apesar de já ter gostado mais de ti, podes contar com o meu voto amanhã.