Mamarracho

mamarracho

Numa rotunda, no Monte de Caparica, onde havia um verdejante relvado com algumas árvores já frondosas, ergue-se agora o Mamarracho.

É um incrível monumento ao operário da construção naval.

Quase indescritível: no centro, parece haver a proa de um navio em construção, depois, uns carris sulcam o chão, cheio de cascalho; mais atrás, um guindaste; num dos cantos, três hélices no topo de umas estacas; noutro canto, uma hélice maior, em cima de um cubo de cimento.

Tudo cor de ferrugem, feio, agreste.

Mamarracho!

Ainda não foi inaugurado.

A Maria Emilia de Sousa, presidente da Câmara de Almada desde a Idade Média (que exagero! Desde a 1ª República…), deve estar í  espera da campanha eleitoral das autárquicas para inaugurar o Mamarracho.

Só por isto devia perder as eleições!

Quadrilhice

cavaco_baloesEm qualquer país dito civilizado, se houvesse a suspeição de que o Governo estava a espiar o Presidente, instalar-se-ia a crise entre os órgãos de soberania.

Em Portugal, é apenas mais um “fait divers”, uma tontice de verão, uma coisa sem importância – de tal modo que o Presidente, que ameaçou falar ao país se algo de muito grave se passar antes das eleições, até se dá ao luxo de ignorar o assunto.

E, afinal, o que se diz é que os seus assessores (com 5 ésses!) estão a ser espiados por facínoras, a mando de Sócrates.

Conversa de porteiras!

Quadrilheiras!

Está visto que os gajos do PS estão í  rasca: querem conhecer o programa eleitoral do PSD, para poderem contra-atacar e, como a Manela não se descai, eles estão í  brocha.

Pobres coitados!

Será que eles ainda não perceberam como vai ser o programa do PSD?

É que é tão simples. O programa eleitoral do PSD é curto e incisivo e divide-se em dois pontos:

1º A Manela vai ser primeira-ministra;

2º Depois, logo se vê.

Quanto a Cavaco, é vê-lo encher balões, pastar caracóis, encher pneus, pisar ovos, encher chouriços, ver navios, contar carneiros, olhar para o ar e sair de cena como o presidente que menos marcas deixou na História de Portugal, embora tenha conseguido evitar a eminente independência dos Açores…

The Shield – séries 4,5 e 6

E com estas três temporadas, de 2005 a 2007, termina a série que mais polícias corruptos a televisão mostrou, até hoje. Aliás, a frase que serve de subtítulo í  série é: “The road to justice is twisted”.

A série mantém a mesma realização “nervosa”, ao longo das seis temporadas, com uma câmara sempre em andamento, captando os intervenientes por trás de uma porta, por baixo de uma mesa, através da folhagem de um arbusto. Os principais intérpretes andam sempre num frenesim, entre a esquadra e os bairros sociais de Farmington; os bandidos são maus, mas os polícias ainda conseguem ser piores!

O “strike team” liderado por Vic Mackey (Michael Chiklis) tenta tudo para ocultar as trafulhices que foi fazendo ao longo dos anos, mas enterra-se cada vez mais.

shield4Na 4ª temporada, entra em cena Glenn Close, interpretando o papel de Monica Rawling, a nova chefe da esquadra de Farmington, substituindo David Aceveda, que se dedica í  política, e até parece que Vic Mackey tem uma nova oportunidade.

No entanto, Rawling acaba por ser posta em causa e é afastada, cedendo o lugar, finalmente, í  detective Claudette Wyms (C. C. H. Pounder) que, desde o início da série ansiava por dirigir a esquadra.

shield5Na 5ª temporada, surge o tenente Jon Kavanaugh (Forest Whitaker), encarregado de investigar as actividades do “strike team” e que, í s tantas, fica completamente obcecado pelo objectivo de prender Vic Mackey, acabando por actuar como ele, forjando provas.

É nesta temporada que Shane (Walton Goggins) não resistindo í  pressão da investigação, mata Curtis Lemansky,  o colega do “strike team”, receando que ele conte tudo a Kavanaugh.

shield6A 6ª temporada é a mais curta – aliás, é um desdobramento da 5ª temporada, decidida devido ao êxito da série ou í  greve dos argumentistas.

O “strike team” está resumido a Vic e a Ronnie Gardocki (David Rees Snell), cada vez mais entalados e Shane anda í  deriva, tentando orientar-se sozinho. Na esquadra, o detective Wagenbach (Jay Karnes), tenta fazer a diferença, mas acaba sempre por ser gozado pelos colegas, por ser tão ingénuo.

No final, Vic Mackey, no próprio dia que seria presente a uma Junta que o deveria expulsar da polícia, descobre documentos que comprometem juizes, políticos e outros “big shots” e mostra-os a Aceveda (Benito Martinez), pedindo o seu apoio.

O político e o polícia corruptos, condenados a entenderem-se…

Zangam-se as comadres…

O eminente político, autarca, ex-inspector da PJ, criminalista, comentador-tipo-nuno-rogeiro-mas-com-bronquite, autor de telenovelas, escritor e tudo, Moita Flores…

(não acham que falta aqui qualquer coisa neste nome? não deveria ser Moita de Flores?…)

…está muito zangado com Manuela Ferreira Leite. A líder do PSD tirou Miguel Relvas do lugar de cabeça de lista por Santarém, em detrimento de Pacheco Pereira.

(Pacheco é aquele senhor barbudo, com elevado perímetro abdominal, corpo de pêra, favorável ao aparecimento de diabetes, com uma biblioteca riquíssima, que já foi militante do MRPP – que quer dizer Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado – ah! ah! ah! -, que escreveu uma biografia não autorizada de ílvaro Cunhal, que participa em debates há décadas, dizendo como os políticos se deviam comportar e que, agora, aceita ser deputado por Santarém, borrifando-se nas distritais do seu partido e esquecendo-se que recebeu um subsídio por já ter sido deputado…)

Enfim, eu diria apenas uma coisa í  Dona Manuela: deixe a política para quem tem jeito para a coisa e dedique-se aos netos; não faça de conta que tem fibra para vir a ser primeira-ministra quando não consegue, sequer, dirigir o seu próprio partido.

manuela_listas

Olhe que o Prof. Cavaco está cheio de vontade de ocupar o seu lugar. Pelo menos, parece…

Raul Solnado

Lidei algum tempo com o Raul Solnado, nos anos 80 do século passado. Escrevi alguns textos, que ele depois interpretava, dando-lhes, muitas vezes, a graça que eles não tinham.

Do pouco tempo que passámos juntos, recordo uma pessoa afável e com uma inteligência aguçada.

Recordo, também, o nervosismo que senti quando me convidou para escrever, juntamente com ele e com o Mário Zambujal, o “Lá em Casa Tudo Bem”. Percebi que aquela não era a minha guerra: uma coisa era escrever uns epigramas e um textos despreocupados para o Pão Comanteiga, outra era escrever uma série de televisão para o Raul Solnado. Acabei por desistir, depois de 12 semanas de grande ansiedade e 12 episódios escritos e re-escritos, com muita ajuda do Zambujal e do Solnado.

Mas foi uma honra ter colaborado com o Solnado que, apesar da diferença de idades e de estatuto, sempre me tratou como um igual.

Recordo um dos textos que escrevi para ele:

“Venho aqui falar em nome dos pequenos e médios ladrões, larápios, carteiristas e ofícios correlativos.

Bom… para que não haja confusões, não sou o porta-voz dessas profissões que são, sem dúvida, as mais antigas do mundo… mas li no jornal uma notícia que me deixou revoltado.

É que a crise ataca todos e não escapa ninguém!

Já não basta um tipo ter que palmar quatro ou cinco carteiras no Metro, pondo em risco a sua integridade física. Depois, chega a casa e as carteiras só têm documentos e fotografias da família – nem uma nota para amostra!

Andamos todos tesos!

E os pequenos roubos já não dão lucro! É um risco que não vale a pena correr!

Hoje em dia, ou se rouba a sério, assim uma coisa em grande, com estilo, ou mais vale arranjar um emprego, nem que seja com contrato a prazo numa empresa em situação económica difícil.

E depois, ainda por cima, como um azar nunca vem só, andaram a colar aqueles cartazes nas estações do Metro, que dizem “cuidado com os carteiristas”!

E as pessoas estão sempre a pau, com a mãozinha a segurar a carteira.

Depois vem um carteirista mais inexperiente, tanta palmar qualquer coisa e pimba!… é apanhado com a boca na botija!

A polícia está farta, já não fecha os olhos a nada e lá vai o larápio para a prisão!

Para a prisão?!… Mas qual prisão?!…

É aqui que entra a notícia: segundo a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, as 48 cadeias portuguesas estão a abarrotar!

6 478 presos! Não cabe nem mais um ! Lotação esgotada!

É uma situação que não se registava desde 1967 – há 17 anos, portanto!

Estão a ver isto?!

Se um larápio qualquer for apanhado pela polícia, fica preso onde?…

As escolas são poucas para os alunos;

Os hospitais não chegam para os doentes;

Os edifícios públicos são pequenos para as repartições.

Isto não pode continuar assim!…

Se esta noite mesmo, um polícia de giro capturar algum rato de automóveis, não tem outro remédio senão levá-lo par casa, dar-lhe jantar e depois fechá-lo na despensa, í  espera que haja vaga em Alcoentre.

Sinceramente, só vejo uma solução: enquanto não se conseguirem mais prisões, levem os presos para os museus.

Seria a única maneira de os nossos museus deixarem de estar í s moscas!

Boa noite e façam o favor de ser felizes.”

- esta crónica foi para o ar no programa televisivo “Fim de semana”, a 4/2/1984. De Dezembro de 1983 a Junho de 1984, escrevi crónicas que o Raul Solnado interpretava, melhorando-as com as suas “buchas”.

Colaborei, também com o Raul Solnado na escrita de crónicas semanais no Programa da Manhã da Rádio Comercial, entre Outubro de 1984 e Março de 1985.

Finalmente, fui co-autor, com ele e com o Mário Zambujal, dos primeiros 12 episódios da primeira sitcom portuguesa, “Lá em Casa Tudo Bem”.

Foi o Solnado quem me propí´s para membro da Sociedade Portuguesa de Autores, em 1984.

“Os Homens que Odeiam as Mulheres”, de Stieg Larsson

millenium1A história é conhecida: Stieg Larsson foi jornalista e editor da revista sueca Expo. Morreu subitamente, em 2004, com 50 anos, pouco depois de entregar para publicação a trilogia “Millenium”.

Larsson não assistiu, portanto, ao êxito instantaneo destes seus três calhamaços, que nos contam as aventuras do super-jornalista da revista Millemiun, Mikael Blomkvist e da hacker associal, Lisbeth Salander.

Neste primeiro volume, Blomkvist e Salander resolvem o caso do desaparecimento de Harriet, uma descendente da poderosa família Vanger, desaparecida há 30 anos.

A escrita de Larsson é escorreita, a história está bem contada e esta é a leitura indicada para o tempo de férias.

Só é pena eu não estar de férias…