Estava na faculdade de Ciências e Tecnologia, a inaugurar um laboratório, quando alguém lhe ofereceu um moscatel. Quente.
O presidente não resiste a um copo ““ seja de moscatel, de ginjinha, de cerveja ou de qualquer outro líquido com uma percentagem de álcool aceitável.
Ignorando o facto ““ grave! ““ de já ter engolido o conteúdo de uma embalagem de Fortimel, Marcelo bebeu o Moscatel.
Estava quente!
Toda a gente sabe o mal que faz um cálice de moscatel quente.
Assim que o moscatel entrou no estí´mago presidencial, iniciou-se uma reação química com o Fortimel que ainda lá estava, a sobrenadar.
Consultando as precauções que constam da embalagem do Fortimel, podemos ler que só deve ser usado como suplemento, não sendo adequado como fonte alimentar única.
Ora, o presidente não almoçou e usou o Fortimel como fonte alimentar única. Ainda por cima, emborcou um cálice de moscatel. Quente!
Desceu-lhe a tensão!
Estava-se mesmo a ver.
Aliás, todos os médicos receitam moscatel quente aos hipertensos. É conhecida a sua ação hipotensora.
Felizmente, Marcelo recuperou bem. Depois de ter feito exames no Hospital, teve alta í s 8 horas, mesmo na abertura dos telejornais!
Marcelo afirmou aos jornalistas que, muito provavelmente, o Moscatel interferiu com a digestão do Fortimel.
Um presidente que acredita nas indigestões, é mesmo o que todos nós merecemos!
O outro livro chama-se O Labirinto do Inumano e foi escrito por um senegalês que emigrou para França, um tal Elimane. Esse livro ou é uma obra-prima ou um conjunto de plágios e Elimane desapareceu da circulação e ninguém sabe o que lhe aconteceu. Nunca ficamos a saber, ao certo, de que tratava o livro, embora muitos o tenham lido e tenham ficado fascinados com a escrita de Elimane.
Sarr (Dakar, Senegal, 1990), recebeu o Prémio Goncourt em 2021 graças a este complexo livro, que mistura cartas, mails, notícias de jornal, depoimentos de quem privou com o autor do tal livro e mais.
Confesso que tive alguma dificuldade em seguir o livro que, para mim, me pareceu uma sucessão de pequenas histórias, sendo que o livro de Elimane serve de costura a todos esses retalhos.
Em 1962, os belgas Goscinny e Tabary criaram uma personagem de banda desenhada a que deram o nome de Iznogoud. Trata-se de um grão-vizir que se quer tornar califa e tudo engendra para o conseguir. É um ser desprezível, que recorre í mentira, í trapaça, í s armadilhas mais torpes, no sentido de tirar o califa do Poder e ficar com o seu lugar.
João Miguel Tavares é um cronista que partilha com Iznogoud todas essas qualidades. Aproveita todo o rabo de notícia para construir um ataque ao governo. No fundo, Tavares, tal como Iznogoud, quer tirar o governo do Poder e colocar lá alguém do seu agrado.
Ao longo das últimas crónicas, Tavares tem acusado membros do governo, incluindo o Costa, de dizerem meias-verdades ““ isto é, não estão propriamente a mentir, mas também não dizem a verdade toda.
E afinal, Iznogoud faz o mesmo. Constantemente. É a sua técnica habitual.
O título da crónica de hoje, por exemplo, é este “…Visitar Viktor Orbán e esquecer Pedrógão Grande”.
António Costa assistiu a parte de um jogo de futebol, sentado ao lado do primeiro-ministro húngaro. É verdade. E António Costa não foi a Pedrógão Grande no sexto aniversário dos grandes incêndios. Também é verdade.
Mas, acontece que Costa não foi visitar Orbán. Dizer isso é mentir. E Costa não esqueceu os incêndios de Pedrógão. Dizer isso também é mentir.
Portanto, que credibilidade merece um cronista que mente assim, tão descaradamente?
A mesma que nos merece um personagem de banda desenhada.
O Diário de Notícias titula, em manchete a vermelho: “…Bónus a médicos fez disparar cirurgias, mas um terço dos doentes é operado tarde demais”.
Fiquei preocupado.
Será que um terço dos portugueses, apesar de serem operados, já não tiveram salvação possível e morreram?
Parece que não.
Na página 12, o título é mais moderado: “…Incentivos a cirurgias permitem recordes em 2023, mas 30% ainda são tratados fora de tempo”.
Isto é: um terço dos operados esperam mais tempo para ser operados do que o recomendado. No entanto, dizer que são operados “…tarde demais”, é apenas mais um sintoma do populismo que tomou conta dos órgãos de comunicação social.
Ignorando mais este título exagerado do antigamente circunspecto Diário de Notícias, gostaria de me deter neste número impressionante: em 2023, 758 mil portugueses foram operados e, nos primeiros quatro meses deste ano, já foram operados mais 246 mil. Por outras palavras, um milhão de portugueses operados em menos de ano e meio!
Operar 1% da população em menos de ano e meio, é obra, caramba!
Quando comecei a ler este livro lembrei-me logo de outro: O Outono do Patriarca, de Gabriel Garcia Marquez, livro publicado em 1975 e que eu li em 1978.
Lembrei-me desse livro porque, também este, é sempre a andar, sem parágrafos, com uma oralidade muito bem conseguida, como se estivéssemos a ouvir alguém a contar-nos uma história sem pausas, sem sequer respirar. Marquez, no entanto, não facilitou a vida ao leitor porque não colocou pontuação no seu texto, enquanto Fernanda Melchor deu-nos uma grande ajuda, usando vírgulas e pontos finais ““ mas não parágrafos.
Fernanda Melchor é uma escritora mexicana (Vera Cruz, 1982) e com este livro foi finalista do Booker Internacional de 2020.
A história ““ que não é o mais importante, penso eu ““ gira em redor de uma Bruxa, numa localidade perdida do México e de um grupo de pessoas desgraçadas, pobres, drogadas, sem trabalho, que se prostituem, se drogam, se matam, se amedrontam com feitiços, acumulam más decisões e não têm futuro.
A linguagem que a escritora usa é dura.
Página 34:
“… (…) para que a velha finalmente se apercebesse do género de menino que era o seu neto, maricas de merda e cobarde, devasso de merda que nunca agradeceu tudo o que a avó fez por ele, tudo o que teve de lhe suportar, porque se não tivesse sido a avó, o raio do rapaz teria morrido, porque a puta que o pariu tinha-o completamente abandonado e cheio de parasitas, maltratado e cheio de fome numa choça enquanto ela andava na maior a fazer vida de puta na estrada.”
A linguagem é mesmo muito dura.
Páginas 134/135:
“…porque Maurílio trazia-me pelo beicinho com a sua lábia, com as suas cantiguinhas, mas sobretudo com a sua verga; porque eu tinha catorze anos quando o conheci, acabada de chegar a Villa, farta até aos cabelos de cortar limões lá no rancho e de o meu pai arrecadar o dinheiro todo e a gastá-lo a emborrachar-se e a apostá-lo nos galos; até ao dia em que eu soube que andavam por aqui a construir uma estrada nova, para ligar os poços a Puerto, e que diziam que era uma mina de ouro e que havia muito trabalho e eu não sabia fazer nada, só cortar limões, mas vim na mesma para cá sozinha, e qual foi a minha surpresa quando vi que esta terra era ainda mais fodida que Matadepitas, puta que pariu, e o único lugar onde me deram trabalho foi la na fonda da dona Tina, maldita puta velha e cara de caralho, avarenta como só ela. Eu quase tinha de lhe pedir por favor que me pagasse, negra de merda, e dizia que eu ficava com as gorjetas ““ mas quais? -, se naquela barraca de merda não paravam nem as moscas.”
E dou só mais um exemplo, caso contrário, começo a transcrever o livro todo.
Página 156:
“…Eh pá, o Nelson, o que será feito desse paneleiro? Dizem que foi para Matacocuite e que montou um salão de beleza e que já ninguém o trata por Nelson, agora chama-se Evelyn Kristal. Ganda paneleiro, as nalgotas que ele tinha, lembras-te, mano? E de como ele passava í nossa frente a dar ao cu e a fingir que não percebia que nós o estávamos a ver? Ainda era bem novo quando lhe tirámos os três, mas também já estávamos fartos de andar a ver-lhe as nalgas, cheios de tesão, e um dia levámo-lo ali para os lados da via-férrea e entre demos demos-lhe a foda da vida dele, lembras-te mano? O paneleirote até chorava de alegria, não sabia nem o que fazer com tanto caralho!”
Claro que tenho de falar nos tradutores ““ diria adaptadores, porque a autora não terá escrito termos como “…paneleirote” ou “…panisgas”, ou “…cheio de nove horas” e muitos outros. Os tradutores são Cristina Rodrigues e Artur Guerra que, segundo informação da editora Elsinore, traduziram já centenas de livros desde a década de 1990 e usam, como método de trabalho, lerem tudo em voz alta.
Não insistam: não quero saber quem deu a ordem para ir buscar o computador!
Quero lá saber se o adjunto ia de bicicleta ou de trotineta, ou se foi ele que deu dois murros na senhora ou se foi a senhora que lhe deu uma canelada!
Estou-me a cagar para as notas do adjunto! O gajo pode tê-las escrito na reunião secreta ou depois, em casa, quero lá saber!
Foi o Galamba que lhe ofereceu dois socos? E depois, o que tenho eu a ver com isso?!
Ah! Foi o Pinheiro que insultou o Galamba! Quero lá saber!
Estou farto desta merda!
Será que não há mais nada para discutir?
Toda a comunicação social a falar sempre da mesma coisa há semanas, porquê?
Que ganham com isso?
Tirando as imagens do Benfica campeão e do Almeida ciclista, é só conversa fiada sobre os incidentes no Ministério das Infratorturas.
Caçam o tipo do governo na Convenção do Bloco de Esquerda e atacam-nos com as perguntas do costume: foi o senhor que deu a ordem?
NíƒO QUERO SABER!
Cambada de obsessivos! Agarram-se a um assunto como lapas e não largam, como se desse assunto dependesse a vida das pessoas!
A malta está-se a lixar para quem chamou o SIS!
Convençam-se disso: ninguém fala nessa merda a não ser vocês!
Desapareceu de sua casa este idoso, com idade cronológica de 84 anos, embora aparente muito mais.
Sofre de desmemoriação, não se recordando, por exemplo, que foi o responsável pelo numerus clausus nas Faculdades de Medicina, pelo fim da agricultura e das pescas, por grande parte do cimento e do alcatrão e por muitas outras patifarias.
Se alguém tiver o azar de o encontrar, deixe-o estar sossegado. Ninguém sente a sua falta!
Claire Keegan (Wicklow, Irlanda, 1968), foi finalista do Booker Prize de 2022 com este livro.
Depois de ter lido um calhamaço com mais de 600 páginas, despachei este pequeno livro de 80 páginas numa penada.
Por vezes, não é preciso escrever muito para se conseguir o que se pretende. O que esta escritora irlandesa quis foi falar-nos, de um modo simples, de mais uma tragédia relacionada com a igreja católica.
No final do livro, uma nota dá-nos conta das chamadas Lavandarias de Madalena, instituições ligadas a conventos que albergavam raparigas “…pecadoras”, aquelas que engravidavam depois de terem sido violadas, ou depois de uma relação ocasional, e que eram solteiras. Diz a nota que essas mulheres eram “…escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nessas instituições”. Muitos dos registos dessas lavandarias foram destruídos e não se sabe ao certo quantas mulheres albergaram. Há quem fale em 10 mil, há quem diga que foram 30 mil. Muitas dessas mulheres perderam os seus bebés, muitas perderam as suas vidas. Um relatório recente da Comissão de Investigação dos Lares para Mães Solteiras concluiu que 9 mil crianças morreram em apenas 18 das instituições investigadas. Em 2014, a investigadora Catherine Corless descobriu que 796 bebés morreram entre 1925 e 1961 no lar de Tuam, no condado de Galway.
É sobre isto que trata esta pequena, mas eloquente novela.
Bill Furlong vendia carvão, antracite e lenha. Vivia numa pequena vila irlandesa, com a sua mulher e as suas cinco filhas. Um dia, ao entregar carvão no convento local, deparou-se com uma rapariga presa no reservatório de carvão.
Depois de muito matutar, Bill Furlong tomou uma decisão em relação í quela rapariga. O que fez, não foi nada de especial, mas são Pequenas Coisas Como Estas que podem fazer a diferença.
O governo aprovou mais restrições í venda e ao consumo de tabaco. Os comentadores, em geral, estão contra. Pena não dizerem se são, ou não, fumadores.
Fui fumador durante 39 anos. Deixei de fumar quando nasceu o meu primeiro neto, há 16 anos. Já era tarde. Tenho doença coronária grave, já fiz três angioplastias e colocaram-me nove stents.
Uma das poucas coisas de que me arrependo na vida: ter começado a fumar. E porque comecei a fumar? Por imitação. Toda a gente fumava nos anos 60 do século passado: fumava-se nos cinemas, nos transportes públicos, nos aviões; na televisão, os apresentadores do telejornal, fumavam em directo. Assisti ao célebre debate entre Soares e Cunhal. Os moderadores foram o Joaquim Letria e o José Manuel Megre. Ambos conduziram o debate a fumar. Como estudante de Medicina, lembro-me que se fumava até nas enfermarias, enquanto se observavam os doentes. Os meus primeiros cigarros, comprei-os avulso numa mercearia perto do Liceu. Como podia não fumar?
Agora, vai ser proibido fumar í porta dos hospitais, das escolas e dos restaurantes. Finalmente, posso beber a bica na esplanada do café da minha rua, sem levar com o fumo do cigarro do vizinho da mesa ao lado, porque também vai ser proibido fumar nas esplanadas.
Acham mal? Parece que sim. Dizem que não se proíbe o álcool nem o jogo, mas proíbe-se o tabaco. Considerações próprias de quem fuma.
Vi uma reportagem numa aldeia do Alentejo. Queixava-se um fumador que, para comprar cigarros, teria de se deslocar 18 km, a Évora e, com o preço das passagens da camioneta, não podia. Como diz o povo, quem não tem dinheiro, não tem vícios.
Todos os dias, oiço queixas. A vida está por hora da morte, depois de se pagar os alimentos, não há dinheiro para os medicamentos; se se comprar os comprimidos, não se põe comida na mesa. Ora aqui estão medidas sérias para ajudar a malta: deixando de comprar tabaco, já ficam com uma folga para a comida e para os medicamentos.