“O Pianista”, de Roman Polanski

pianista.jpgTodo o realizador de cinema judeu que se preze, faz o seu filme sobre o holocausto. O de Polanski ganhou 3 óscares em 2002, incluindo o de melhor actor e melhor realizador, e ainda a palma de ouro de Cannes.

A grande diferença entre mais este filme passado no gueto de Varsóvia, durante a ocupação nazi, e muitos outros, com o mesmo tema e o mesmo cenário, reside na interpretação de Adrien Brody, que é, de facto, notável. O homem vai mirrando, ao longo do filme, ficando cada vez mais magro, com olhar mais louco e vazio, degradando-se física e psicologicamente.

O filme conta-nos a história do pianista Wladyslaw Szpilman, de como ele conseguiu sobreviver í  humilhação, í  fome, ao arbítrio nazi, quer no interior do gueto de Varsóvia, quer, depois, com a ajuda de alguns gentios anti-nazis, fechado em apartamentos da capital polaca, praticamente sem comida e sem contacto com mais nenhum ser humano.

É difícil acrescentar seja o que for a este tema, já tão estafado. Daí a importância do trabalho do actor. Só por ele vale a pena ver este filme.

Jacinto Leite Capelo Rego

Caso “Portucale”: suspeitas de tráfico de influências na aprovação de um empreendimento turístico do Grupo Espírito Santo, em Benavente, no tempo do governo do Sr. Lopes.

Simplificando: em troca da aprovação do empreendimento, algum dinheirinho entraria nos cofres do CDS-PP, de Paulo Portas. O então ministro da Agricultura, Costa Neves, já está constituído arguido mas, como é costume nestas coisas, diz estar de consciência tranquila. Os laboratórios de benzodiazepinas não fazem negócio com os arguidos portugueses. Todos de consciência tranquila, nunca precisam de um alprazolam para dormir melhor.

A PJ foi í  sede do CDS e sacou recibos dos donativos que, então, foram entregues ao partido de Portas, todos no valor de um milhão de euros.

Dos vários recibos apanhados pela PJ, havia um, no valor de 300 euros que despertou a curiosidade dos agentes. Ao que pareceu, um tal Jacinto Leite Capelo Rego (leia-se: já sinto leite cá pelo rego) doou 300 euros ao CDS-PP. Revelador…

Talvez por pudor, a PJ não divulgou os nomes de outros dadores generosos: Maria Gustava dos Prazeres e Morais, Ir Aoku Saykaro, Marie Bate Mápunhete e Táta Ky Tate Apoulos.

Como é que Paulo Portas consegue continuar a ter aquela cara de senhor respeitável quando é líder de um partido, cujos militantes ainda devem cantar, nas reuniões de angariação de fundos: “Minha tia Teodora/ cu para dentro, cu para fora/ com as tetas a abanar!”?

Sport Berardo e Benfica

berardo1.jpgE, de repente, Joe Berardo é o salvador da pátria.

Dos confins da ífrica do Sul e dos jardins da Madeira, ei-lo que surge a emprestar a sua colecção de arte moderna ao CCB, a troco de uns trocos, ei-lo que é abraçado pelos trabalhadores da PT, ao contribuir para lixar a OPA do Belmiro, ei-lo a sair exultante da assembleia do BCP, depois de ter travado Jardim Gonçalves, ei-lo a contribuir para o estudo que confirma Alcochete como alternativa í  Ota, para a localização do novo aeroporto.

E ei-lo, agora, a lançar uma OTA, perdão, uma OPA sobre o Benfica.

O que o move, não é o dinheiro – é a cultura, diz ele.

Quer ver o Benfica no topo do mundo – diz ele.

Não deixa de ser revelador o facto de o glorioso, semanas após estar cotado na bolsa, ser alvo de uma OPA, enquanto o Porto e o Sporting, há anos cotados, continuam ignorados.

O que fará correr Berardo pelo Benfica?

Amor í  camisola?

Nesse caso, teremos que mudar o equipamento do glorioso, porque o homem veste-se sempre de preto.

Uma coisa tem Berardo em comum com os jogadores do Benfica: mal sabe falar português.

Lost – 2ª série

lost2.jpgHá duas maneiras de ver Lost.

Primeira: aceitar as regras do jogo que os criadores da série nos propõe, não questionar a Dharma Iniciative, não pí´r em causa a teoria da centralidade e de que todos estamos ligados de algum modo, adoptar o lema “here we are, entertain us”

Se assim for, Lost é uma excelente série, viciante, com um bom ritmo, bons actores, voltas e reviravoltas suficientes para nos fazerem ansiar sempre pelo episódio seguinte.

Segunda: estar í  espera de que Lost seja uma série racional, que nos dê explicações aceitáveis para o que acontece na ilha e que essas explicações sejam, também elas, racionais.

Neste caso, Lost é uma aldrabice pegada e já não há pachorra para tantas alucinações que, se calhar, não são, porque a Virgem Maria existe mesmo, bem como o cavalinho no meio da selva e mais o avião cheio de droga que, afinal, era o mesmo que levava, a bordo, o maninho do Mr. Eko e não me lixem mais essas coincidências todas que, se calhar, não são coincidências, são o destino, etc, etc.

Decidi adoptar a primeira maneira de ver Lost e, por enquanto, estou a gostar.

“Casa das Mulheres”, de ílvaro Pombo

casadasmulheres.jpgFoi o primeiro livro que li deste escritor espanhol (n. 1939) e gostei bastante. Editado em 1996, “Donde las Mujeres” conta-nos a história de uma família peculiar, na qual os homens estão aparentemente ausentes.

A narradora é a filha mais velha, que começa o livro com cerca de 8 anos; há uma irmã, dois anos mais nova, e um irmão mais pequeno; há também a mãe e a irmã da mãe. Vivem em duas casas isoladas, numa espécie de península e formam um clã, com laços muito fortes entre eles. Os outros, os que vivem na aldeia próxima, os colegas da escola, todos os que pertencem ao mundo exterior, não lhes dizem grande coisa. Este núcleo familiar cria uma espécie de mundo í  parte, com as suas regras e as suas fidelidades. Há um pai destas três crianças, mas está ausente.

No entanto, toda esta harmonia se vai esboroar quando o pai resolve regressar e a narradora descobre o segredo da família. Porque todas as famílias têm os seus segredos.

Gostei, sobretudo, da escrita de Pombo e do modo como ele consegue dar voz a uma rapariga de um modo que, pelo menos a mim, me convenceu.

Albânia – o farol fundido

George Bush visitou a Albânia e foi recebido por multidões delirantes. Tenho provas. Vi fotografias de Bush a ser abraçado por albaneses sorridentes e exultantes. Vi reportagens em que jovens albanesas, com ar perfeitamente normal, diziam “Bush is the best president of the world”. A sério!

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como dizia o Luiz Vaz.

Lembram-se quando a Albânia era apelidada de “o farol do comunismo na Europa?”

Foi no tempo de um senhor chamado Enver Hodja.

Eu lembro-me.

Maria José Morgado, Pacheco Pereira, Durão Barroso e Garcia Pereira, por exemplo, também se devem lembrar.

Mas os albaneses de hoje já se esqueceram de Hodja e da treta do farol. O que eles querem é que a América de Bush continue a investir no país e que patrocine a independência do Kosovo.

No entanto, no melhor pano cai a nódoa. Então não é que, no meio dos abraços e das saudações, algum albanês anti-Bush fanou o relógio ao George!

As imagens estão no YouTube (procurem em “Pres Bush stollen watch in Albania”).

Segundo os jornais, o relógio era um simples Timex, de 50 dólares.

Os albaneses são uns totós!

Ota era melhor…

Então, afinal, parece que já não vai ser na Ota. Agora, Alcochete é que é.

Acho mal.

Ota ficava melhor, como aeroporto internacional – toda a gente é capaz de dizer «Ota», dos francófonos aos anglo-saxónicos, dos árabes aos aborígenes.

Agora, peçam a um inglês para dizer «Alcochete» e vão ver a confusão que vai ser. O tipo terá que dobrar a língua de tal modo, que acaba por preferir aterrar em Madrid.

E depois, há sempre o perigo dos americanos olharem para o nome (Al Cochete) e pensarem que é algum aeroporto da Al Qaeda.

Invasão í  vista.

“Por Aqui e Por Ali”, de Bill Bryson

bryson_walk.jpgInvejo o Bill Bryson, a quem pagam para viajar. Depois, ele “só” tem que escrever um livro sobre isso.

Este chama-se “A Walk in the Woods” mas, mais uma vez, o responsável pela edição portuguesa achou o título pateta e decidiu chamar-lhe “Por aqui e Por Ali”.

Bryson publicou o livro em 1997 e nele conta as suas caminhadas pelo trilho dos Apalaches, que vai desde a Geórgia ao Maine, atravessando as Carolinas, a Virgínia, a Pensilvânia, um pouco de Nova Iorque, e depois o Massachussets, o New Hampshire e Vermont. São mais de 3300 km, dos quais Bryson “apenas” percorreu 1400, por vezes sozinho, outras vezes acompanhado pelo seu amigo Katz.

Sempre com muito humor e com preocupações ambientais quanto baste, sem entrar em histerias, Bryson vai-nos descrevendo as suas longas caminhadas por uma das maiores florestas do planeta, ao longo das montanhas dos Apalaches (mais de 350 picos com mais de 1500 metros de altitude). O Trilho dos Apalaches é o mais antigo e longo do mundo, e ficou concluído em 1937.

Um daqueles livros que sabe bem ler com companhia. E um tipo fica logo com vontade de tentar percorrer, pelo menos, uma parte desse trilho.

“It was 40 years ago today”

sgtpeppers.jpg…Sgt Pepper taught the band to play”

Fez ontem 40 anos que os Beatles editaram o álbum que mudou a história da música pop-rock.

O primeiro álbum dito conceptual, com uma espécie de elo de ligação entre as várias faixas, com uma certa coerência entre as músicas, e não apenas um conjunto de canções coleccionadas num mesmo disco; o primeiro álbum de música pop-rock com a ajuda de orquestra sinfónica (“A Day in the Life”) e de truques de gravação, como pí´r a fita a girar ao contrário (“Being for the Benefit of Mr. Kite!”); o primeiro disco a ter uma capa com algum cuidado “artístico”. Enfim, digam o que disserem os detractores dos Beatles, fez-se história com este disco.

Naquela altura, em 1967, eu tinha apenas 14 anos e vivia em Portugal. O disco quase me passou despercebido. Só cerca de um ano depois comecei a ouvir e a conhecer algumas das faixas deste álbum. E, então, já os Beatles tinham lançado o duplo branco, que sempre foi (e continua a ser) o meu preferido.

Em Fevereiro de 1969, consegui finalmente juntar o dinheiro suficiente para comprar o duplo branco. Vinha numerado e tudo – é o número 510204. Ainda ali está, embora já nem tenha pick-up (alguém sabe o que é um pick-up, ou um gira-discos?).

Quanto ao “Sgt Pepper’s”, só o comprei (o vinil, bem entendido), aos 25 anos e o cd, quando já ia nos 34 anos!

Seja como for, “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” continua a ser, 40 anos, depois, um disco que se ouve, do princípio ao fim, com a mesma emoção – enfim, com uma emoção temperada pelos anos. Aos 15 anos, ouvir os Beatles a debitarem “Good Morning! Good Morning!”, com galos a cantarem, ao fundo, ou escutar a voz algo metálica de Lennon, a cantar “Lucy in the Sky with Diamonds”, sabendo que ele se estava referir a LSD (sobretudo porque não se sabia muito bem o que era isso de drogas alucinogénicas…), bom, essa emoção, claro que já não existe, porque já não tenho 15 anos.

E isto também não é nostalgia. Não tenho saudades dos meus 15 anos. Sinto-me muito bem com 54 anos e poder estar “alive and kicking”, 40 anos depois (o mesmo já não podem dizer Lennon e Harrison…).