“Nas Palavras Dela”, de Alba de Céspedes (1949)

Li há pouco tempo “O Caderno Proibido”, de 1952, outro livro desta autora nascida em Roma, filha do embaixador de Cuba em Itália e, portanto, com dupla nacionalidade, cubana e italiana.

Apesar de se ter oposto ao regime fascista de Mussolini, não lhe foi retirada a nacionalidade, ao contrário do que o palhaço do Ventura queria fazer aos estrangeiros que conseguissem a nacionalidade portuguesa e cometessem determinados crimes.

Quem ler este romance, perceberá o que quero dizer.

São seiscentas páginas e a coisa pode parecer um pouco monótona, mas temos de entender a época em que o romance foi escrito, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, altura em que o papel das mulheres era absolutamente secundário.

No final do livro, temos acesso a um prefácio escrito pela autora em 1994, três anos antes de falecer. Este prefácio devia, na minha opinião, surgir antes do romance, para percebermos melhor o que a autora pensava sobre o que escrevera quase cinquenta anos antes.

“Dar-se conta de que a luta, a prisão e, para tantos, a morte, não tinham servido senão para fazer da Itália um protectorado americano” – diz a autora nesse prefácio.

Aconselho.

“O Caderno Proibido”, de Alba de Céspedes (1952)

Alba de Céspedes nasceu em Roma em 1911, trabalhou como jornalistas na década de 1930, publicou o seu primeiro livro cinco anos depois; foi também nesse ano que foi presa pela primeira vez, devido a actividades antifascistas. Faleceu em Paris em 1997.

“O Caderno Proibido” é um livro surpreendente que nos ajuda a perceber como era o ambiente da pequena-burguesia italiana (e portuguesa também, embora ainda mais pobre, penso eu).

A narradora é uma mãe de família, casada com um homem pouco ambicioso. Entre eles já não atração erótica e é suposto não haver porque já se considerem velhos, apesar de ainda não terem cinquenta anos. Têm uma filha que, a pouco e pouco, está a romper com as convenções e um filho, mais convencional. Valéria – é o nome da narradora – trabalha num escritório porque a família precisa de mais um salário; além disso, encarrega-se de todo o trabalho doméstico.

Certo dia, decide, num impulso, comprar um caderno e nele escrever um diário, que se manterá secreto.

À medida que vai escrevendo o seu diário, sempre às escondidas, Valéria cai-se descobrindo a si própria e questionando as convenções, embora não sinta coragem para as ultrapassar.

Um livro surpreendente, que aconselho.