“Némesis”, de Philip Roth (2010)

Roth anda obcecado com o acaso, com as circunstâncias da vida que podem mudar todo um plano laboriosamente construído, com a impotência dos seres perante a força dos acontecimentos inesperados e imprevisíveis.

Acaba por ser esse o tema dos seus últimos livros, Todo-o-mundo (2006), Indignação (2008) e A Humilhação (2009).

—Em Némesis, a força das circunstâncias é representada pela poliomielite. A acção decorre em Newark, nos anos 40. Um jovem judeu, Bucky Cantor, fica livre da tropa e, portanto de participar na 2ª Grande Guerra, devido a sofrer de alta miopia. Frustrado por não poder combater ao lado dos seus amigos, dedica-se ao desporto e dá aulas a miúdos do bairro judeu. Cantor é um modelo de jovem, amado por novos e velhos. Tem uma jovem namorada e pensa em casar e constituir uma família. Mas, com o Verão, vem uma nova epidemia de poliomielite que, naqueles tempos pré-vacina, é devastadora.

E contra essa força do acaso, não é possível lutar. Podes ser muito bem comportado, educado, grande atleta, cuidadoso – podes ser tudo o que há de bom, que nada disso te vai salvar da morte ou de uma paralisia deformante e incapacitante.

Tal como nos outro livros, Deus está ausente, ou melhor, está presente mas nada faz. A propósito do velório de um jovem de 12 anos, morto pela polio, Roth escreve:

«O Sr. Cantor teria achado uma afronta muito menor se as pessoas ali reunidas pelo luto se declarassem oficiantes da majestade solar, filhas de uma divindade solar justa, e, í  maneira fervorosa das antigas civilizações pagãs do nosso hemisfério, se entregassem a uma dança ritual do sol í  volta da campa do rapaz morto (…) – muito melhor honrar com as nossas orações o encontro diário e tangível com esse ubíquo olho de ouro isolado no corpo azul do céu e o seu poder imanente de incinerar a terra – do que engolir a mentira oficial segundo a qual Deus é bom e dobrar a cerviz perante um assassino de crianças a sangue frio.»

Afinal, aquilo a que chamamos Deus talvez não passe do Acaso, e pode, ou não, ser bom. Como refere Roth: «Umas vezes temos sorte, outras não. Toda a biografia é acaso e, a começar pela concepção, o acaso – a tirania da contingência – é tudo.»

Apenas uma curiosidade: no fim do livro, um dos jovens reinado por Bucky Cantor, reencontra o seu antigo treinado, muitos anos depois e pergunta-lhe como é a sua vida agora. Cantor responde: «Eu não sou pessoa de grandes convivências, Arnie. Vou ao cinema. Aos domingos desço até ao Ironbound e como um bom jantar português. Gosto de me sentar no parque quando o tempo está bom. Vejo TV. Vejo os noticiários.» (sublinhado meu)

Bucky Cantor, judeu de Newark, gosta de comer um bom jantar português.

Tem bom gosto.

Roth também.

 

 

Economistas de Família

Crise.

Vivemos acima das nossas possibilidades.

Cortes nos ordenados e nos subsídios.

Famílias falidas.

Crédito malparado.

A pressão dos mercados.

Dívida soberana.

Quem se consegue orientar por entre esta floresta de novos conceitos?

Que devo fazer para apertar o cinto, sem sofrer demais?

É nesta perspectiva que avanço com esta grande ideia: a criação da figura do Economista de Família, especialista em Economia Geral e Familiar.

í€ imagem e semelhança do Médico de Família, o Economista de Família teria a seu cargo uma lista de cerca de 1500 a 2000 utentes e seria da sua responsabilidade aconselhar os seus utentes sobre a melhor maneira de gerir os respectivos ordenados.

Poderei comprar uma máquina de lavar nova, apesar de não receber subsídio de Natal; estarei em condições de comprar um carro novo, a crédito; terei dinheiro para comprar um par de sapatos ou deverei, em primeiro lugar, renovar o meu stock de cuecas?

Estas e outras perguntas poderiam ser respondidas pelo nosso Economista de Família.

Vamos nisso?

O caso da ré fofinha

Esta história é tão inacreditável que me sinto obrigado a fazer uma declaração solene.

E essa declaração é: o que eu vou contar é verdade!

O Conselho Superior de Magistratura decidiu aposentar compulsivamente um juiz da Covilhã que, para além de ter centenas de processos em atraso, ainda tinha o desplante de usar termos menos próprios, em pleno tribunal.

Por exemplo, segundo o Boletim do Conselho, o juiz teria dito, no final de um julgamento, “está absolvida a ré fofinha”.

Ora, não é aceitável que um juiz classifique de “fofinha” qualquer ré, por mais jeitosa que seja.

Se a ré for feiosa, malpronta, desajeitada, será que o juiz diria: “está absolvida o estafermo da ré”?

Ou ainda: será que o juiz absolveu a ré por ela ser fofinha?

Em resumo: fez muito bem, o Conselho Superior de Magistratura, em reformar compulsivamente o dito juiz.

Ou não?

O Público hoje revela que, afinal, o que o juiz disse foi: “foi absolvida a ré Fofinha”.

E, neste caso, o éfe capital, é importantíssimo.

É que a ré era, com efeito, uma empresa – Fofinha – Fios e Tecidos, Ld.

Portugal no seu melhor!…

Obama e os crocodilos

Notícia do DN de hoje:

«Barack Obama inicia hoje uma visita de dois dias í  Austrália e uma empresa local não quis perder a oportunidade de se promover, oferecendo (…) um seguro contra dentadas de crocodilo. Obama passará por Darwin, habitat por excelência destes animais e se uma eventual mordidela levar í  sua morte, a família receberá 37 400 euros.»

A família do crocodilo?

Fumar, mata – não fumar, também?

Título do DN de hoje:

«Mil pessoas morrem por ano devido a cigarros mal apagados»

O quê?!

Então, e devido a cigarros bem acesos, quantas morrem?

Diz a notícia que vão «entrar em vigor as novas regras para o fabrico de cigarros para que se apaguem quando não são fumados».

Para além da frase estar mal construída, esta afirmação levanta-me a seguinte dúvida: será que, agora, os maços de cigarros passarão a ter cigarros acesos, que se apagarão automaticamente se não forem fumados?

E ao fim de quanto tempo?

Claro que é apenas um erro de construção da frase.

Diz a Comissão Europeia que «os cigarros acesos abandonados são uma das principais causas de incêndios mortais na Europa». Assim, poder-se-ão evitar cerca de 500 mortes por ano, com a introdução dos chamados cigarros de propensão reduzida para a ignição.

Segundo a notícia, este tipo de cigarros têm um »tempo de combustão mais reduzido e, assim, menor possibilidade de inflamar mobiliário, roupa de cama e outro material».

Ainda bem que já deixei de fumar.

Uma das coisas que me dava mais gozo era ver o mobiliário e a roupa da cama arderem em segundos!…

A pão e água

Segundo o DN, «o PS vai propor na terça-feira que a Comissão parlamentar do Ambiente passe a consumir água da torneira, uma medida para dar o “exemplo” no Parlamento, onde se consomem anualmente mais de 45 mil garrafas de água».

Acho mal.

Percebe-se que, em tempos de crise, os deputados fiquem a pão e água, mas penso que os nossos deputados deviam ajudar a nossa economia e passar a consumir vinho.

As sessões parlamentares seria muito mais divertidas!

Salvemos o escudo!

Segundo o Sol, «o Estado está a preparar-se para derreter as moedas de escudo que estão guardadas desde 2002 – momento da adesão í  moeda única europeia».

São toneladas de moedas de escudo que estão í  guarda de militares da Força Aérea, no campo de tiro de Alcochete.

Derreter tantos escudos, quando o euro está í  beira de explodir, será boa ideia?

Se calhar, é altura do Otelo pegar nos seus 800 homens e assaltar Alcochete!

O Coiso há uma dúzia de anos

Foi em Novembro de 1999 que meti O Coiso na net, já lá vão 12 anos!

Tal só foi possível graças í  Dee, que fez o design da página, e ao Pedro, que me ensinou como fazer. Para colocar O Coiso na net, usava-se o Dreamweaver, se não estou em erro.

Nessa altura, a ideia era recordar textos que escrevi nas décadas de 70, 80 e 90, para as mais variadas publicações e programas de rádio e televisão.

A saber, por ordem cronológica: jornal República, semanários Pé de Cabra, O Coiso e Gazeta da Semana, Pão Comanteiga, programa de rádio, revista e suplemento em A Capital, ainda na rádio, o Contra-Ataque, o Programa da Manhã da Rádio Comercial, a crónica semanal do Raúl Solnado, quer na rádio, quer na RTP, os Intocáveis, rubrica de discos da música pimba, integrada num programa de Paulo Fernando, na RDP, o semanário O Bisnau, os programas televisivos A Festa Continua e Arroz Doce, o programa de rádio Pé de Vento e o semanário Pau de Canela, o programa de rádio Uma Vez por Semana, os programas televisivos A Quinta do Dois e 1,2,3, a peça de teatro Quem Tramou o Comendador?, os episódios iniciais da sitcom Lá Em Casa Tudo Bem, e o programa televisivo Zona +.

Escrevia que me desunhava!

Mas, a pouco e pouco, o Velho Coiso começou a integrar, também, textos a propósito da actualidade e fotos legendadas, geralmente com políticos da nossa praça. Por coincidência, o último Cromo do Coiso publicado no antigo design da página, em abril de 2006, foi de Berlusconi, que ontem mesmo se demitiu.

A partir desse ano (2006), O Coiso mudou-se para aqui, para o WordPress e está muito bem assim.

Mais 12 anos?

“Como É Possível Ser Português?”, de Michel BJ Cartier

Nascido em 1939, em França, Cartier vive em Portugal há anos o que o fez aventurar-se a escrever esta espécie de dicionário, directamente em português.

—Não faria mal nenhum, não fosse o caso de, aqui e ali, não se perceber o que ele quer dizer. Além disso, não houve grande cuidado na revisão do texto, já que Cartier repete a mesma coisa várias vezes, em partes diferentes do livro. Por exemplo, sobre o herói de BD Tintin, esclarece que o nome do seu autor Hergé, é um pseudónimo de Georges Remi, pelo menos, em dois trechos do livro. Também refere, em três ocasiões diferentes, que a palavra “azar” provém do árabe az-zahr, que significa dado. E estes são apenas dois de muitos exemplos de repetições desnecessárias e que poderiam ter desaparecido se o texto tivesse sido revisto.

Como estrangeiro que é, Cartier sacou bem alguns vícios da nossa língua coloquial e quase que consegue ter alguma graça.

Exemplo, com a palavra “andar”:

«Deslocar-se a pé. Em outras palavras, indica e traduz a locomoção. Mas é também sinónimo de piso (Eu moro no 5º andar). e mesmo de apartamento (Visite o nosso andar modelo). Não confundir com “andor” (apesar do facto de que o mesmo não pode andar sozinho). Se alguém pode perfeitamente andar a correr, a recíproca não existe (e porque não?). Usa-se também peremptoriamente associado com “tocar” na expressão definitiva, sinónima de “E pronto!” ou “Vamos embora!”: Toca a andar! (pronunciada: tocandar). Encontra-se também em expressões curiosas e automáticas feitas principalmente pelo telefone, tais como: “Onde é que tu andas?”, ou: “O que é que tu andas a fazer?” Os pais podem também chamar a atenção do filho ou da filha, exigindo: “Anda cá!”»

Se o autor se tivesse cingido í  análise destas palavras ou frases da nossa linguagem do dia-a-dia, talvez tivesse conseguido fazer um livrinho coerente e simpático, fazendo lembrar um brilhante Elucidário de Conhecimentos Quase Inúteis (1985), de Roby Amorim, pequena publicação onde eram explicadas as origens dde algumas expressões correntes, como “ir para o maneta”.

Mas Cartier mistura muita coisa, pequenas informações linguísticas, datas históricas, citações de filósofos e escritores franceses e até referências í  actualidade política (uma das entradas, por exemplo, é TGV…)

E por vezes, parece que se perde no português, que perde o fio í  meada. Um exemplo: a propósito da palavra “dias”, espanta-se por usarmos “segunda, terça, quarta, quinta, sexta”, enquanto os ingleses e os franceses têm um nome para cada dia da semana. Mas, depois, acrescenta: «Infelizmente, os Portugueses não são os únicos originais neste aspecto: também os Gregos (apesar dos inumeráveis deuses da Antiguidade) “traduzem” os quatro primeiros dias da semana, contando por números ordinais (no feminino, como em Português), depois do Sábado (Savvato que é neutro) e do Domingo (Kuriaki, também feminino); Sexta-feira, também no feminino, se diz Paraskevi. Onde é que se encontra e exclusividade ou originalidade portuguesa? Mas, de todo o jeito e em poucas palavras: Deus seja louvado!»

Perceberam? Eu não.

E há muitos trechos destes no livro, o que é pena, porque o resultado final acaba por ser um pouco entediante.

Acrescentaria: o autor pergunta “Como é possível ser português?” e eu pergunto: “como é possível uma editora publicar um livro destes?”