“Memoirs of a Geisha”, de Rob Marshall

—Se em “Love in the time of cholera” temos actores espanhóis, italianos e brasileiros a falar inglês com sotaque colombiano, neste filme a coisa ainda é mais complicada: temos actores chineses, a fazer de conta que são japoneses e a falar inglês com sotaque de Osaka (ou será de Hokaido?).

Tirando este “pequeno” pormenor, “Memoirs of a Geisha” é bonito e quase que faz chorar as pedras da calçada. Conta-nos a história de Sayuri, desde que foi vendida pelo pai, um pobre pescador í  beira de ficar viúvo, até se tornar na mais famosa e aclamada gueixa do Japão e arredores, nos tempos da 2ª Guerra Mundial.

Este percurso que, no filme, dura mais de duas horas, está cheio de ódios, invejas, ciúmes e sentimentos correlativos, vividos entre as gueixas, o que nos deixa um pouco perplexos, já que retrata uma realidade que nos é desconhecida. Será que é (era) exactamente assim – ou esta é a visão dos ocidentais, que dificilmente penetram noutras culturas, nomeadamente na japonesa, sempre tão fechada ao exterior.

Precisão – até no erro!

Ontem í  noite verifiquei que estava sem televisão, sem internet e sem telefone fixo.

É o que dá colocar todos os ovos no mesmo cesto.

Liguei para o Apoio ao Cliente da Zon e atendeu-se um Gonçalo qualquer.

Muito simpático e aparentemente feliz por estar a falar comigo, o Gonçalo Qualquer, depois de indagar o meu número de cliente e de consultar O SISTEMA (sempre com letra grande), informou-me que, de facto, havia uma avaria na minha zona.

Mais me informou que a avaria estava a ser resolvida e que havia uma previsão: estava previsto que o problema fosse resolvido í s 0h32 do dia 11 de março.

Não í s 0h30, não pouco depois da meia-noite, não por volta da meia-noite e meia, não ainda antes da uma da manhã – mas sim, í s 0h32!

Claro que esta manhã, quando acordei, continuava sem televisão, sem internet e sem telefone fixo.

O Gonçalo Qualquer enganou-se – mas com muita precisão!…

“Love in Time of the Cholera”, de Mike Newell

—Não sei por que razão ainda não li este livro do Garcia Marquez , publicado em 1985 – e nem sequer o tenho. Mas a história tem, toda ela, a assinatura do escritor colombiano.

O filme, de 2007, é escorreito e Javier Bardem faz um excelente papel, ao contrário da menina Giovanna Mezzogiorno que, para além de ter um par de maminhas interessantes, poucos mais atributos tem, nomeadamente na área da representação.

A pobre da Giovanna é pouco convincente como Fermina Urbino, sobretudo quando a personagem já tem uma idade mais avançada, e as camadas de pó-de-arroz também não ajudam.

Pelo contrário, Bardem faz um Florentino Ariza que nos convence, um sonhador que, na impossibilidade de ter a sua primeira amada, vai coleccionando mulheres e anotando essas experiências com minúcia, ultrapassando as seis centenas.

Outra coisa que faz com que o filme não seja tão interessante como poderia ser é o facto de ser falado em inglês: Bardem é espanhol, Giovanna é italiana, a mãe de Florentino é uma actriz brasileira cujo nome me escapa – e todos eles falam um inglês com sotaque colombiano, o que se torna ridículo.

De qualquer modo, e graças í  história, é um bom entretenimento.

PS – Afinal, encontrei o livro e descobri que o li em 1989… Tenho que começar a tomar as gotas…

Este é o Inverno do nosso descontentamento

Não, não falo do Freeport, do Face Oculta, do Programa de Estabilidade e Crescimento, da crise internacional, da taxa de desemprego, dos três patéticos candidatos í  presidência do PSD, do Orçamento Geral do Estado, da Comissão de Ética da Assembleia da República e da sua inutilidade, do ano de 369 dias de Cavaco Silva (1), do plano de Jardim para aumentar a superfície da Madeira, í  custa da lama e dos pedregulhos da enxurrada.

Estou mesmo a falar da porra deste Inverno!

Será que não pára de chover, carago?!

Estou farto de frio, de nevoeiro, de vento e de chuva!

Chega, porra!

—

Olha para o Tejo, hoje, tão triste que estava!…

(1) “Falta tanto tempo. Um ano, doze meses, 369 dias. Falta ainda muito tempo. Não acreditam no que digo e não insisto. Mas é assunto em relação ao qual eu não dediquei ainda um minuto da minha ponderação”, afirmou Cavaco Silva, a propósito da sua hipotética recandidatura.

“Scratch My Back”, de Peter Gabriel

—Toma lá com um grande disco!

Nunca fui um grande fã de Peter Gabriel – nem quando o tipo era o líder dos Genesis, nem depois, na sua carreira a solo.

Enfim, apreciava a sua voz característica, a sua vontade em credibilizar o rock como música a merecer respeito, esforçando-se por lhe dar um “ar” de erudição, através dos Genesis, ou de cometimento político, com a carreira a solo.

De qualquer modo, Gabriel parece não estar nisto só pelo dinheiro…

Este disco é surpreendente e aplaudo com ambas as mãos.

Gabriel junta-se a uma London Scratcher Orchestra, liderada por uma tal Louisa Fuller e conduzida por um tipo chamado Ben Foster e reinventa, de modo irrepreensível, “Heroes”, de David Bowie, “The Boy in the Bubble”, de Paul Simon, “Listening Wind”, dos Talking Heads (uma das melhores), “The Power of the Heart”, de Lou Reed, “Philadelphia”, de Neil Young, “Street Spirit (Fade Out)”, dos Radiohead, “Waterloo Sunset”, dos Kinks.

E, ainda, adaptações de coisas que eu não conhecia e que não me apetece conhecer porque, assim estão muito bem: “Flume”, de Bon Iver, “Mirrorball”, de Elbow, “I Think It’s Going To Rain Today”, de Randy Newman e, as três melhores: “My Body Is Cage”, dos Arcade Fire, “The Book Of Love”, dos Magnetic Fields, e “Aprés Moi”, de Regina Spector.

Gabriel pode ter descoberto uma mina: a pop-rock tem centenas (milhares?) de músicas que podem e devem ser recriadas por quem tem a paciência, o tempo e a sabedoria para lhes conferir o classicismo que elas merecem.

“Public Enemies”, de Michael Mann

—Johnny Depp é um actor sui-generis, capaz de encarnar personagens tão estranhas como o Eduardo Mãos-de-Tesoura ou o pirata das Caraíbas e, nos intervalos, vestir-se de John Dillinger e ser um duro clássico, ao estilo dos gangsters de Chicago.

Os norte-americanos, como não têm heróis com mais de 200 anos, do tipo da Deuladeu Martins, Joana d’Arc, D. Quixote ou Ivanhoe – para citar apenas quatro -, fazem filmes sobre bandidos que, nas décadas de 30-40, assombraram as ruas de Chicago.

Michael Mann é um realizador excessivo e gosta dos planos rodopiantes, com a câmara a rodar em volta do actor e, depois, a subir, até se obter um plano aéreo, mas esses truques não substituem a caracterização das personagens. É por isso que não se percebe muito bem que tipo de pessoa era Dillinger, a não ser que desprezava o futuro e que vivia só para o dia-a-dia. Por que se tornou gansgter, por que escolheu assaltar bancos, em vez de ter uma vida honesta, de simples empregado do McDonalds? Dillinger não tem densidade, como personagem.

Mas enfim – se eu quisesse densidade (e chatice!…) – tinha alugado um filme europeu…

Aljubarrota – a sequela

“Manuela diz que Sócrates até pressionou Rei de Espanha”

(Título do Diário de Notícias.)

—Cego pelos ataques de Manuela Moura Guedes, Sócrates telefonou ao Rei de Espanha e gritou:

“Ou fazes com que a Prisa cale aquela gaja, ou a gente invade o teu país e levam mais porrada do que em Aljubarrota!”

E foi assim que, com o rabinho entre as pernas, o Rei Juan Carlos telefonou aos tipos da Prisa e a Manuela foi para a rua.

í“ Manuela: tenha paciência, querida. Eu sei que a menina deve estar farta de médicos, nomeadamente, de cirurgiões plásticos, mas acho que a querida precisa, urgentemente, de um anti-psicótico.

“Zack and Miri Make a Porno”, de Kevin Smith

—Quem sabe inspirado no britânico “The Full Monty“, em que seis trabalhadores desempregados resolvem montar um espectáculo de strip-tease para angariar fundos, o argumento desta comédia conta-nos a história de Mark e Miri, que se conhecem desde a escola primária e partilham a mesma casa, embora nunca tenham partilhado a mesma cama.

Sem dinheiro, com a água a luz cortadas, decidem fazer um filme porno para tentar arranjar umas massas.

Esta ideia tão disparatada podia dar origem a um filme completamente idiota, do género das comédias para adolescentes tão ao gosto de alguns norte-americanos.

Mas não. O filme vê-se bem, o tipo que faz de Mark (Seth Rogen) tem graça, as situações são divertidas, sem serem demasiado escatológicas (excepto uma, enfim…) e até se conseguem alguns sorrisos.

Claro que não perderia uma tarde no cinema por causa disto, mas tolera-se.

(Participação especial de Traci Lords – quem se lembra dela?)

“Inglourious Basterds”

—Tarantino está em forma!

Estava um pouco desiludido com ele. Depois do inolvidável “Reservoir Dogs” e do inultrapassável “Pulp Fiction”, o díptico “Kill Bill” não me entusiasmou. As artes marciais não são o meu forte…

Em contrapartida, este “Inglouriou Basterds” é um entretenimento cinco estrelas, contendo todos os tiques geniais de Tarantino: os longos diálogos aparentemente sem sentido, a divisão da narrativa em capítulos, a banda sonora muito especial.

A primeira cena do filme dá logo o tom: Christoph Waltz, que faz um espantoso Coronel Hans Landa, conversa com um produtor de leite francês, í  mesa da sua modesta casa, sabendo que, por baixo, se esconde uma família de judeus. Lá fora, estão alguns soldados alemães, que aguardam a ordem do coronel para chacinarem os judeus, e as três jovens filhas do agricultor, virginais e cândidas. Não lhes acontece nada, mas Tarantino cria o ambiente de tal modo que nós estamos sempreÂ í  espera da maior desgraça.

Brad Pitt faz o papel do sargento Aldo Raine que, com o seu bando de “basterds” (fazendo lembrar “Dirty Dozen”), se entretém a matar nazis e a tirar-lhe os escalpes. Algumas cenas são citações dos westerns de Sérgio Leone, incluindo a banda sonora, a fazer lembrar “The Good, the Bad and the Ugly”.

Na cena final, ou quase, Hitler é metralhado, juntamente com todo o seu Estado-maior, o que fez com que a guerra tenha acabado naquele dia. O facto disso nunca ter acontecido não tem a menor importância.

Destaque para a figura criada por Brad Pitt mas, sobretudo, para a interpretação de Christoph Waltz. O tipo consegue que odiemos o coronel Landa e aprovemos a sua sanguinária morte.

(Eu sei que ele não morre no fim do filme – mas aprovamos, ou não, a sua sanguinária morte?)