Ventura é um lavagante

Depois de 40 anos de Medicina, 33 dos quais como Médico de Família, depois de ter assistido à melhoria espectacular dos cuidados de saúde neste país, de ter passado pelas Caixas de Previdência, pelo Serviço Médico à Periferia, pelos Centros de Saúde e por ter visto a evolução dos hospitais públicos, depois de ter visto como foi instituído o salário mínimo, o direito à greve, de ter visto a instituição de um período de férias, coisa que o meu pai não teve, a liberdade de expressão, o fim da guerra colonial, que era uma espada sempre em cima da minha cabeça, caso chumbasse um ano na faculdade e, mesmo assim, ainda tive de cumprir o serviço militar obrigatório, já depois de ser médico, passando um ano e meio a passar receitas para as famílias dos oficiais, depois de ter assistido ao direito à reforma, de ter visto a minha avó, que trabalhou e não descontou, a ter direito a uma reforma mínima, depois de ver a sociedade portuguesa a desenvolver-se na cultura, na música, na dança, na literatura, sem censura, sem amarras, depois de ter trabalhado num Centro de Saúde durante mais de 30 anos, perto de Bairros sociais e de ter convivido com uma população carente e muito diversa, com brancos, negros, indianos, mestiços e ter sentido toda essa diferença e ter percebido que, no fundo, somos todos iguais – vejo-me agora, com quase 73 anos, rodeado por energúmenos, egocêntricos, fascistóides, gente sem empatia, que só pensa em si própria, que tem ódio pela diferença, liberais, gente de extrema-direita, facínoras que não me merecem mais do que um vómito.

Começa no Putin e passa pelo Trump, o Órban, a AfD, a Meloni, o Vox, o Milei e, por cá, o miserável André Ventura, um tipo full of shit, capaz de se ajoelhar na igreja e rezar e, ao mesmo tempo, cagar no próximo se ele tiver uma pele de cor diferente, um tipo que não tem empatia por ninguém, a não ser por ele próprio e pelos seus apaniguados, um ignorante que não conhece as dificuldades das pessoas, que não se sente solidário com nada, um católico de merda, daqueles capaz de rezar hoje e pecar amanhã, porque é absolvido pela hipocrisia da Igreja.

Infelizmente, o desprezível Ventura tem muitos seguidores. Não quer dizer nada. Hitler também ganhou as eleições e fez o que todos sabemos. O rapaz é tão básico que, com os seus argumentos de taberna, consegue arrastar consigo todos os que, como ele, só têm argumentos rasteiros.

Qual é o programa para a Saúde do Chega: acabar com a corrupção e expulsar emigrantes.

E qual é o programa do Chega para a Educação: acabar com os alunos emigrantes e com a corrupção.

E no que respeita à Justiça, o que propõe o Chega: acabar com a corrupção e não deixar entrar mais emigrantes.

A isto se resume o programa daquele partido.

E a comunicação social deixa andar. O Ventura garante audiências. Ninguém o questiona sobre as suas propostas para o país, sobre o famoso governo sombra, que nunca teve intervenção pública, sobre o sindicado Solidariedade que ele disse que iria criar e que nunca saiu do papel. O Chega é o Ventura e pouco mais.

E este país está rendido a essa figura básica, iletrada, ignorante, um xico esperto sem estofo para governar.

Espero bem que venha a ser primeiro-ministro, para que o povo português perceba o que é ser governado por um lavagante, um tipo que andou a engordar o safio e que, quando ele ficou bem gordinho, o comeu.

Todo!

“O Desfufador”, de Valério Romão (2025)

Tenho feito um esforço, juro que tenho, mas desisto hoje, na página 262.

Quando li a entrevista ao autor, Valério Romão, no Ipsilon, do jornal Público, pensei que ia ser um livro que me iria divertir e, por alguma razão, lembrei-me de António Rebordão Navarro e do seu livro de 1972, “O Discurso da Desordem”, que li em março de 1973, com apenas 20 anos, deslumbrado com aquela narrativa revolucionária.

A entrevista que o Público publicou sobre este “O Desfufador” até falava no velho Mário-Henrique Leiria. Coitado! Daria voltas na campa se estivesse para aí virado! Mas o que é que o pobre do Mário teria a ver com isto?!

“O Desfufador” é um livro que não incomoda ninguém porque ninguém o pode levar a sério, quando um dos seus personagens principais é o Alex, um anão que tem “corpo de pónei e sarda de cavalo”. Mas que merda de piada é esta?!

A ironia do Mário-Henrique não tem nada a ver com este chorrilho de palermices!

E eu sei o que estou a dizer…

O que é isto, afinal?

“Ao que o homem pobre não se pode negar (…) era transformar o sonho em fumo (…) ele que sempre sonhara ir ao cu a uma gaja e nunca o tinha feito”

Ou isto, na página 145:

“… quanto à execução de um orçamento cuja leitura e avaliação por parte do eleitor comum estaria, normalmente e em termos de prioridades, bem abaixo da sujeição a uma colonoscopia caseira às mãos de um tio parkinsoniano munido de uma mangueira de bombeiro”

Não, não me sinto ofendido, nem sequer me ruborizo por esta linguagem – simplesmente acho-a infanto-juvenil, como mais este exemplo absolutamente idiota, na página 181:

“a prova de que o português, em focando-se e trabalhando em grupo (!!! Exclamações minhas), é capaz de expulsar qualquer um e reclamar o que é seu. E havia que afastar da cachimónia a ideia de pequenez lusitana, a ladainha do povo simpático sempre enrabado pela sarda estranja, dos bons costumes a troco da gorjeta liliputiana…”

O autor parece enfeitiçado pelos termos “camurço” e “sarda”.

Chega de exemplos.

Fiz em esforço do caralho para ler esta preciosa merda até quase às 300 páginas e assusto-me só de pensar que ainda vai sair mais um volume.

A culpa é apenas do tipo do Público, cuja entrevista me fez despertar o interesse por esta miséria.

Volta Rebordão Navarro!

“Maligna Ofélia! Deves estar na tarde de domingo num café de domingo, com famílias passadas a papel químico, filhas iguais às mães, filhos iguais aos pais, criados baralhados nas contas, queixando-se dos joanetes e um cego que senta numa cadeira vazia e toca duas músicas antigas num acordeão ainda mais antigo, enquanto o seu acólito, um tipo de oleosa, doentia gordura explodindo no intervalo das rugas, passa de mesa em mesa uma caixa-mealheiro onde os cavalheiros depositam o seu pequeno óbulo”.
(in “O Discurso da Desordem”, 1972)

Mas o que me deu nesta cabeça, para me lembrar deste pequeno-grande livro do Rebordão Navarro quando li a entrevista ao autor deste “O Desfufador”.

Cenas…

O gato pedófilo do Chega

Já nada me espanta!

Um dos vice-presidente do Chega, um tal Frazão, que é veterinário, decidiu castrar um gato num dos gabinetes que aquele partido ocupa na Assembleia da República.

E colocou nas redes sociais fotos em que se vê ele, Frazão, com os dois minúsculos testículos do gato na mão, exibindo-os, como quem diz: vêem, pedófilos – é isto que vos faremos quando formos governo.

Que engraçado!

Os deputados e deputadas do Chega são isso mesmo: adolescentes idiotas que estão fazendo, agora, o que nunca puderam fazer no seu tempo.

Nós sabemos que o Chega preconiza a castração para os pedófilos; é de supor que, de algum modo, perceberam que o pobre do gatinho era um pedófilo de merda e sacaram-lhe os colhões! Bem feito!

Mas são estes energúmenos que nos querem passar a governar?

Felizmente, já não os terei de aturar muito mais tempo!

“O Último Avô”, de Afonso Reis Cabral (2025)

Nem de propósito, acabei de ler hoje o último livro de Afonso Reis Cabral, que se refere ao avô do narrador, um conhecido e afamado escritor, chamado Campelo (não sei porquê, mas identifiquei-o como o Lobo Antunes), que morrera sem publicar nada relacionado com a guerra colonial.

E digo, nem de propósito, porque os apaniguados do 25 de novembro, esquecem, de propósito, o que o 25 de abril fez de mais importante: acabar com a guerra colonial!

Claro que falo em meu benefício, mas é verdade que, para mim, tão importante como o fim da ditadura, o 25 de abril significou o término daquela guerra que não fazia qualquer sentido histórico, já que todos os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias africanas.

O narrador deste livro é um jovem que viveu numa comunidade “hippie” no Algarve e que tem uma ligação muito importante com o avô escritor.

No fundo, o segredo deste livro é a intervenção do avô na guerra colonial, já depois do 25 de abril, num lugar tão problemático como Cabinda.

Afinal, parece que o avô não era assim um grande herói: ”O Campelo nunca o pôs o pé no mato, homem!, continuou o Anselmo. “Nem o dedo no gatilho, porra. Eu não sou ninguém para julgar, ainda menos se fosse por objeção de consciência ou motivações políticas…”

Gostei muito deste livro.

A guerra colonial continua a ser um assunto tabu na sociedade portuguesa, ainda hoje ouvi o cabrão do Ventura perorar contra o facto dos antigos combatentes não estarem a receber aquilo que deveriam. Tão preocupado que ele estava, coitadinho!… E, no entanto, deve estar bem se cagando para os antigos combatentes – ou será que, caso consiga tornar-se primeiro-ministro, irá propor que a tropa portuguesa regresse aos territórios ultramarinos?

Há coisas na História que não podemos mudar e a descolonização foi o que foi – se há muita gente que foi prejudicada, também há muitos que se lixaram por causa da guerra, quer por mortes e feridas graves, quer por situações que ficaram suspensas, aguardando pelo fim da guerra.

O livro de ARC não fala de nada disso, fala apenas de um neto que é influenciado por um avô, que ele pensa ter sido um eventual herói e que, afinal, foi mais um que se viu envolvido numa guerra sem significado.

Aconselho!

25 de novembro – festejar o meu desemprego?

No dia 25 de novembro de 1975, eu era um simples redactor do Telejornal da RTP – o único canal de televisão que existia no país.

Naquela altura, redactor era o nome correcto – jornalista veio mais tarde.

Quando os para-quedistas ocuparam os estúdios do Lumiar da RTP, ficámos um pouco sem saber o que fazer – mas quando vimos alguns dos nossos colegas de redação, de armas na mão, percebemos – pelo menos, eu percebi, que aquela não era minha guerra.

Entretanto, o Duran Clemente ocupou a emissão e começou a explicar o que era difícil de explicar.

Eu e mais alguém, achando que aquilo estava a ir longe de mais, abandonámos o nosso local de trabalho.

Desci a rampa que dava acesso aos estúdios do Lumiar e vim para casa.

Quando cheguei ao nosso pequeno apartamento em S. Domingos de Benfica, disse à Mila: estou desempregado!

Estava na RTP como jornalista desde junho de 1974, a convite do Álvaro Guerra e, achava que, graças ao 25 de novembro, estava desempregado.

Felizmente, durante o mês de dezembro de 1975, arranjei lugar como repórter do Jornal de Notícias, com filial no Bairro Alto. A família não ficaria sem ordenado.

No fim de dezembro de 1975, o Joaquim Letria telefonou-me: não queres voltar para a RTP?

Claro que queria!

Voltei e fui nomeado responsável pela edição da noite do Telejornal.

Foi assim o meu 25 de novembro e quero que esses filhos de um cabrão, todos, de Direita, se fodam todos bem fodidos – não sabem o que é temer ir parar com os costados em África, a dar tiros e a defender o que nunca foi nosso, o boçal do Ventura e dos seus apaniguados que nem sabem estacionar os carros em sítios legais, os palermas do CDS, como aquele pateta que inventou as rosas brancas do 25 de novembro, como se a disputa entre as duas datas fosse uma questão de flores!

O 25 de abril para além de nos dar a liberdade, livrou-nos da guerra colonial. Claro que nos permitiu, também, ter monstros como o Ventura, que é um ignorante merdoso, falso cristão e absoluto cabrão.

Apesar de tudo, prefiro ter de aturar energúmenos como o Frazão e aquele forcado amador que, com a sua barriga gordurosa suja as cadeiras de S. Bento, do que continuar sob o jugo dos marcelistas e da Pide.

Mas tenham muita atenção: os sacanas do Chega, se conseguirem chegar ao governo, vão estacionar no Martim Moniz e em todo o lado, sem seguir nenhuma regra porque passarão eles a ser os senhores de isto tudo!

“A Harmonia das Esferas”, de João Paulo André e Carlos Fiolhais (2025)

A Música tem a ver com tudo e João Paulo André, professor do departamento de Química da Universidade do Minho e Carlos Fiolhais, professor emérito da Universidade de Coimbra (e dizer isto destes dois é muito pouco), demonstram-no ao longo destas mais de 300 páginas.

Depois de nos oferecerem elementos de música e acústica, comprovam que a Música tem a ver com a Matemática e a Astronomia, com a Física, a Química, as Ciências da Terra e do Ambiente, as Ciências da Vida e as Ciências da Saúde.

Um pequeno exemplo deste último capítulo que, por razões óbvias mais nos toca:

“Embora a ópera tenha nascido em Florença, no final do século XVI, com Dafne, de Jacopo Peri, a doença é uma condição inerente à Humanidade. De facto, a presença da doença já se faz sentir, ainda que de forma subliminar, na primeira de todas as óperas: Eros dispara sobre Dafne uma flecha de chumbo, fazendo-a rejeitar as investidas de Apolo, que, por sua vez, fora atingido por uma flecha de ouro.

Enquanto o ouro é um metal inerte, o chumbo é um metal tóxico que pode causar uma condição conhecida como plumbismo ou saturnismo, frequente em pessoas que trabalham com este elemento químico ou vivem em ambientes contaminados (…) O termo saturnismo remete para o planeta Saturno, que na alquimia estava associado ao chumbo (enquanto o Sol correspondia ao ouro e a Lua à prata). Verdadeiro espelho da vida – e, por conseguinte, também da morte – , o reportório operático tornou-se um repositório de doenças. Uma análise a 493 óperas, compostas entre 1977 e 2016, revelou que 53 (11%) incluíam um paciente e/ou um médico entre as suas personagens.”

Rico em pormenores deste género, este livro é um bom companheiro para tardes de chuva.

“O que Podemos Saber”, de Ian McEwan (2025)

McEwan continua a ser um dos meus escritores preferidos e este último livro é mesmo muito bom.

Thomas Metcalfe é um universitário académico que estuda a literatura do século 21. Ele e a sua companheira Rose, também académica, vivem em 2119, numa Europa destroçada pelas alterações climáticas, numa Inglaterra transformada num arquipélago, depois da Grande Inundação, num mundo totalmente alterado pela Desordem, em que a América voltou à confusão do wild west e em que a Nigéria domina a internet.

McEwan não perde muito tempo a explicar como é o planeta Terra no século 22. A história é narrada por Thomas e ele vive naquela actualidade e não sente necessidade em explicá-la, dando-nos, apenas, algumas pistas que nos permitem pensar que o mundo mudou muito depois de ataques nucleares e alterações climáticas extremas.

Thomas está obcecado por um poeta inglês do século 21, Francis Blundy e, sobretudo, pela sua mulher, Vivien. Na noite em que Vivien festejava o seu 54º aniversário, Francis ofereceu-lhe um poema, em forma de coroa, uma série de sonetos em que o último verso é o primeiro verso do soneto seguinte. Seria uma cópia única, escrita em pergaminho, e que até então, nunca tinha sido encontrado.

Francis Blundy não acreditava nas alterações climáticas, mas Thomas pensa que talvez aquele poema pudesse mostrar que ele estava a mudar o seu pensamento e não descansa enquanto não o encontrar.

Entretanto, pesquisa tudo o que pode sobre o poeta, a sua mulher e os amigos que estiveram no célebre jantar onde o poema foi lido, vasculhando e-mails, diários escritos on-line e outros documentos. Acabará por deduzir que o poema poderá estar enterrado algures perto da propriedade onde Francis e Vivien viveram, entretanto, localizada numa das pequenas ilhas, onde apenas se pode ir de barco dirigido por um capitão conhecedor daquele mar estranho, cheio de torres de igrejas.

O que fica de cada um de nós quando morremos?

Daqui a cem anos, o que poderão saber sobre cada um de nós? Por mais fotos que publiquemos no Instagram, por mais post colocados no X, ou no Facebook, ou no Whatsapp, por mais blogs que inventamos, como poderá alguém, daqui a cem anos, reconstituir a nossa vida, as nossas intenções, o que de facto nos aconteceu?

É isso que McEwean nos mostra, magistralmente, com a segunda parte deste livro, um longo capítulo, em que Vivien Blundy nos conta a sua vida e as suas atribulações e nos revela um segredo que não consta de nenhum e-mail, de nenhum diário, de nenhum registo informático.

Mesmo depois de lermos esse longo capítulo, a nota final que McEwan acrescenta e que diz que esse capítulo foi anotado e editado por Thomas Metcalfe deixa-nos a dúvida: será que essa é toda a verdade?

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos!

Outros livros de McEwan: A Barata; Máquinas Como Eu; Numa Casca de Noz; A Balada de Adam Henry; Mel; Na Praia de Chesil; Cães Pretos; Entre os Lençóis; O Jardim de Cimento; Solar; Lições

Assim vai o Mundo em 2030

(Este texto é colocado on line 26 anos depois do Coiso estar on line!)

Estamos no outono de 2030 e o Mundo mudou.

Muito.

Já pouca gente se lembra como é que Trump conseguiu alterar as regras, mas o que é certo é que foi eleito para um terceiro mandato. Agora com 84 anos, é patente a sua demência, mas ninguém tem mão nele.

Os Estados Unidos estão transformados num campo de batalha, com grupos armados digladiando-se em vários Estados e sem um verdadeiro Poder central que consiga controlar o caos.

Tudo começou quando Trump, argumentando que queria acabar com o tráfego de droga, ordenou a invasão da Venezuela. Pensava ele que rapidamente acabaria com o negócio do Fentanil, mas não contava com a heróica resistência dos venezuelanos. Na verdadeira selva que se transformou Caracas, os soldados norte-americanos foram presa fácil para os atiradores escondidos nas favelas.

Simultaneamente, Trump tentou anexar o Canadá, como já ameaçara no segundo mandato. Também não lhe está a correr bem. Os canadianos resistem com firmeza e o exército invasor ainda não avançou um milímetro. Os combates fronteiriços fazem lembrar a primeira guerra mundial, com trincheiras de ambos os lados.

Em mais uma prova da sua demência, Trump ordenou também a anexação da Gronelândia. Neste caso, o fracasso foi ainda maior. O mau estado do oceano Ártico e as temperaturas extremas, dizimaram os poucos marines que aceitaram fazer parte de mais essa louca expedição.

Acrescente-se que Trump ordenou, também, uma expedição ao Brasil, para libertar Bolsonaro. Os fuzileiros americanos foram todos capturados e rapidamente aderiram a uma escola de samba.

Em resultado de todos estes fracassos, o poder de Trump dissipou-se e começaram a surgir grupos armados um pouco por todo o lado. Além disso, J. D. Vance, que era um grande aliado de Trump e que muitos pensavam que poderia vir a ser o próximo presidente, está a viver um momento menos conservador da sua vida: abandonou a mulher e tem sido visto em grandes bacanais com a viúva de Kirk, aquele influenciador que foi morto com um tiro no pescoço, ou com a explosão do microfone que tinha na lapela, dúvida que ainda não foi esclarecida. Vance e a viúva entregam-se a jogos eróticos à vista de todos, indiferentes às críticas dos sectores mais conservadores dos republicanos.

Em resumo, podemos dizer que os Estados Unidos estão em guerra civil, embora não haja dois campos bem definidos, mas sim diversos focos de instabilidade, com confrontos por vezes muito violentos.

Com tudo isto, Trump deixou de pensar na Ucrânia. Aliás, quando soube, ano após ano, que não ia receber o Novel da Paz, desistiu definitivamente de se interessar pelo conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Apesar disso, a guerra acabou porque Putin, misteriosamente, caiu de uma janela. Caiu ou alguém o empurrou – este o grande mistério. Provavelmente, provou do seu próprio veneno. O velho Lavrov, apesar de já ter quase 80 anos, tomou o seu lugar e acabou com a guerra. A Rússia retirou-se da Ucrânia e assinou um Tratado de Paz com Zelensky. Em troca, o presidente da Ucrânia aceitou realizar eleições, que perdeu e voltou para a sua antiga actividade de humorista. Tem um programa de televisão que é visto em todo o país e muito apreciado na Rússia.

Em França, Marine Le Pen, a nova presidente francesa, foi apanhada por um fotógrafo, no banco traseiro de um Renault, a apalpar uma argelina e está a ser acusada, pelos seus próprios acólitos, de conivência com raças inferiores.

Em Itália, a primeira-ministra Meloni aderiu à social-democracia e deixou de pintar o cabelo.

Em Espanha, Sanchez vai no quarto ou quinto mandato e acabou por dar a independência à Catalunha que, ao fim de dois anos, pediu a adesão à União Europeia, exactamente no ano em que esta organização se desintegrou, depois do primeiro-ministro húngaro Victor Órban ter colocado uma bomba no Parlamento, em Estrasburgo e ter sido agredido por António Costa, mesmo minutos antes da bomba explodir.

Quanto ao novo primeiro-ministro português, André Ventura, foi visto a chorar, sentado no chão do escritório do Palácio de São Bento porque não é capaz de formar governo. Todos os principais elementos do seu Partido estão presos e Ventura começou a ter medo de falar em público devido aos constantes ataques de acidez gastro-esofágica.

O Ventura quer três Salazares

Em mais uma entrevista televisiva (são já mais de 523 desde janeiro deste ano), o líder do Chega, André Ventura, disse que serão precisos três Salazares para acabar com a podridão que vigora neste país.

No dia seguinte, interpelado pelos jornalistas, explicou que aquela foi apenas uma expressão, que até a sua avó já costumava dizer.

Ficámos, portanto, a saber, que os sentimentos fascistóides são usuais na família Ventura, pelo menos, há três gerações.

Para eles, um Salazar nunca é suficiente.

Três seria a conta certa!

Três Pides/DGS. Três prisões de Caxias, três Tarrafais, três Fortes de Peniche, três vezes mais analfabetos, três vezes mais mortos nas guerras coloniais, três vezes mais versos do Afonso Lopes Vieira, três vezes mais beatas de cabeça tapada a beijar a mão dos patriarcas, três vezes mais ballet rose, com meninas sentadas ao colo de deputados da União Nacional, três vezes mais Tenreiros com as suas bilhas de gás Cidla, três vezes mais Marchuetas (que o Ventura nem sabe quem foi), três vezes mais Américos Tomás a cortar fitas, três vezes mais jornais, filmes e livros censurados, três vezes mais mulheres a morrer, vítimas de abortos clandestinos, três vezes mais trabalhadores sem direito à reforma, três vezes mais crianças a aprender os rios de Moçambique, três vezes mais… três vezes mais…

Apetecia dizer que, em vez de três Salazares, o que nós precisaríamos para acabar com o Ventura era, talvez, outro 25 de Abril!

“Mortes Fabulosas dos Antigos”, de Dino Baldi (2010)

Há livros para todos os gostos e sobre tudo e mais alguma coisa.

Dino Baldi, ensaísta e tradutor de textos clássicos, decidiu fazer um livro em que nos conta as mortes de numerosas personagens da antiga Grécia, do Império Romano e de outras civilizações da chamada Antiguidade Clássica.

Para além da descrição pormenorizada de como essas personagens morreram, Baldi aproveita para contar alguns pormenores curiosos das suas vidas.

Por exemplo, a propósito do imperador Cláudio, conta:

“Todavia, no geral, parece que não foi um mau príncipe, tendo sido, pelo contrário, bastante justo e tolerante, considerando a média dos seus antecessores. Certa vez, por exemplo, ponderou emitir um decreto através do qual autorizava que as pessoas arrotassem e se peidassem durante os banquetes, ao saber que um indivíduo quase morrera após se ter contido na sua presença.”

Uma das características do livro – que, com a descrição de tantas mortes, se torna um pouco monótono – é, sem dúvida, os nomes de algumas personagens e o modo como se relacionam, como se vê por este naco:

“Os seus filhos, além de irmãos de Agripina Menor, Nero César e Druso César, foram escolhidos como herdeiros por Tibério após a morte de Germânico e do filho Druso Menor, embora por ordem de Sejano o primeiro tenha sido exilado na ilha de Ponza com a acusação de homossexualidade e subversão, onde morreria por suicídio ou fome, o segundo tenha sido aprisionado nos calabouços do palácio imperial, sendo que também ele morreria de fome, constrangido a comer, segundo dizem, o estofo da cama. Druso Menor já estava morto, envenenado com toda a probabilidade pela mão da mulher, Cláudia Lívila, irmã de Germânico e neta de Augusto, bem como de Sejano, que aspirava secretamente à sua mão e ao império”.

E continua neste tom por mais umas quantas páginas.

Ficamos aliviados quando o livro chega ao fim…