“A Invenção da Biologia”, de Jason Roberts (2024)

O escritor californiano Jason Roberts escreveu um excelente livro sobre duas personalidades que acabaram por inventar aquilo a que chamamos História Natural, abrindo caminho, por exemplo, a Charles Darwin: Lineus e Buffon.

Confesso que, embora conhecesse Lineus, a partir da classificação das plantas e dos animais, sendo famosa a expressão “vulgar de Lineu”, nunca ouvira falar de Buffon e, no entanto, este naturalista francês é tão ou mais importante que o sueco.

Lineus e Buffon foram contemporâneos. Lineus viveu em Upsala, na Suécia, entre 1707 e 1778 e Buffon, em Paris, 1707 e 1788. O sueco defendia que todos os animais e plantas e minerais existiam desde o princípio do mundo, criados por Deus, Buffon desconfiava disso e por pouco que não “inventou” a teoria da evolução das espécies.

Este livro de Jason Roberts vai acompanhando a vida e os estudos de Lineus e de Buffon e fazendo uma resenha histórica muito interessante.

Uma curiosidade:

“Vivendo nós numa época em que os frutos tropicais são presenças habituais nos supermercados locais, é fácil esquecer o clamor que a visão de um simples ananás ou de uma banana suscitava nos europeus. O que os impressionava não era apenas o próprio artigo, mas também a longa e dispendiosa cadeia de esforços necessários para o transportar entre climas diferentes. (…)

Nos anos 1730, os plebeus pagavam o equivalente a oito mil dólares actuais por um ananás”.

Lineus deixou-nos uma taxonomia que ainda hoje é aceite, mas, no seu tempo, tentou organizar tudo, incluindo a espécie humana, de um modo muito polémico para os dias de hoje:

“Homo sapiens americans – coloração vermelha, colérico, direito. Cabelo preto, liso, espesso; narinas largas; face áspera; barba escassa. Teimoso, bem-disposto; livre. Pinta-se a si mesmo com as linhas vermelhas de Dédalo. Regido pelos costumes.

Homo sapiens europaeus – pele clara, rosado, musculoso. Cabelo louro, solto. Olhos azuis. Gentil, perspicaz, inventivo. Coberto por vestes justas. Regido por leis.

Homo sapiens asiaticus – amarelado, melancólico, rígido. Cabelo enegrecido. Olhos escuros. austero, arrogante, ganancioso. Coberto por vestes largas. Regido pelas opiniões.

Homo sapiens afro – cabelo preto contorcido. Pelo sedosa. Bnariz arrebitado. Lábios cheios. Mulheres de peito nu, sem vergonha; amamentam muito tempo. Dissimulados, lentos, descuidados. Untam-se espessamente. Regido pelo capricho.”

Além de botânico e zoólogo, Lineus também se dedicou à Medicina. Aliás, naqueles tempos, a Medicina não passava de uma espécie de sub-ciência da Botânica, uma vez que os medicamentos se limitavam a certas plantas. Lineus escreveu um livro sobre isso:

Um paciente diagnosticado com Mentalis pathetici por exibir um grau indecoroso de desejo sexual devia ser tratado com plantas com «cheiro grosseiro» – Himantoglossum hircinum, erva-fedegosa, Linaria vulgaris – visto que as pessoas raramente querem copular quando sofrem de náuseas.”

O livro de Roberts não se limita às vidas de Lineus e de Buffon, mas continua até perto dos nossos dias, falando também de Darwin, Mendel e, por exemplo, de Julian Huxley, irmão de Aldous, o autor do clássico “Admirável Mundo Novo”.

Huxley foi um divulgador da Ciência e considerava que o conhecimento da biologia podia tornar o mundo um lugar mais equitativo, uma vez que podia eliminar o preconceito.

“Porém, a celebridade de Huxley tornava-se cada vez mais controversa. (…) considerava seu dever contrapor a ciência ao preconceito. Isso suscitava-lhe a antipatia dos conservadores do sul americano, quando ele e H.G.Wells comentaram que «em algumas das regiões mais atrasadas dos Estados Unidos (…) há uma campanha gigantesca pela penalização de qualquer ensinamento da Biologia que possa contradizer a Bíblia»”.

E ainda hoje é assim, sobretudo agora, graças ao cabrão do Trump e seus apaniguados.

Muito bom livro!

“Funeral Divertido”, de Ludmila Ulitskaya (1997)

Alik é um russo emigrado nos Estados Unidos, pintor sofrível, que está à beira da morte. Confinado à cama, os seus últimos momentos são rodeados de uma série de personagens mais ou menos caricatas, incluindo a sua actual e a sua ex-mulher, a sua filha adolescente e mais uma série de supostos amigos, todos russos, todos emigrantes.

Ulitskaya nasceu em 1943, nos Urais e estudou e cresceu em Moscovo, vivendo actualmente em Berlim.

Apesar de um dos principais protagonistas estar a morrer, o tom do livro é sarcástico e, apesar de ser traduzido do russo pela dupla de tradutores Nina e Filipe Guerra, dá a sensação de que algumas piadas ficam perdidas na tradução, que serão piadas demasiado russas, por assim dizer…

Gostei desta:

“O que importava era isto: ambos eram médicos de nascença, no mesmo sentido em que as pessoas nascem loiras, cantoras ou cobardes, ou seja, por imposição da natureza; havia em ambos o instinto da compreensão do corpo humano, um bom ouvido para a circulação do sangue, uma maneira especial de raciocinar”.

O livro foca-se nos emigrantes russos na América, mais especificamente, os judeus russos e a sua maior ou menor dificuldade em se adaptar.

“Alik, um homem do terceiro mundo, o da Rússia, aos trinta anos travou conhecimento com a Europa e a América. Primeiro, Viena e Roma (com todas as delícias italianas que não chegaram a saciá-lo durante quase um ano)… Só quando emigrou para a América e lá se fixou, sem sair das duas fronteiras, compreendeu a inveja americana velha Europa, com a sua decrepitude diáfana, o seu requinte e quase esgotamento cultural, assim como compreendeu a atitude arrogante, mas no fundo também invejosa, da Europa em relação à América espadaúda e elementar”.

Um curioso pequeno livro.

Um doente esofágico para Presidente!

André Ventura quer ser Presidente da República!

André Ventura quer ser Primeiro-Ministro!

É esta ambivalência que lhe provoca aqueles espasmos esofágicos que tanto o fazem sofrer!

Lembram-se como ele sofreu durante a campanha eleitoral?

Lembram-se como foi sujeito a um cateterismo sem necessidade nenhuma?

É assim que ele sofre, o mártire!

Não o deixem ser Primeiro-Ministro: a ansiedade do cargo dará cabo dele!

Aqueles espasmos esofágicos aumentarão de intensidade e não haverá Omeprazol que o acalme.

Assim como assim, chato como ele é, talvez seja mais fácil de aturar como Presidente.

Votem em Ventura para Belém!

E que se foda!

“Licença para Espiar”, de Carmen Posadas (2022)

O subtítulo deste livro diz: “o romance sobre as mulheres que se dedicaram à perigosa arte da espionagem”.

Na verdade, não é propriamente um romance, mas sim uma espécie de ensaio em que se misturam factos históricos com recriações da autoria da escritora.

Carmen Posadas nasceu em 1973, em Montevideu, mas vive em Madrid e teve uma boa ideia para este calhamaço de mais de 400 páginas: fazer uma revisão histórica das mulheres que terão exercido o míster de espionagem, desde antes de Cristo até aos nossos dias. Tão ambicioso projecto tem altos e baixos, histórias mais interessantes e outras um pouco monótonas. Destaco as histórias relacionadas com episódios mais recentes, nomeadamente com as duas espias que terão estado envolvidas no assassinato de Trotsky. Estranhamente, no episódio relacionado com a invasão das tropas napoleónicas, Posadas parece ignorar que essas tropas invadiram também o território português e apenas fala da resistência dos espanhóis.

De qualquer modo, é um livro curioso.

Será que já havia hambúrgueres no tempo do Bach?

Marcelo Rebelo de Sousa foi convidado pelo presidente da Alemanha a estar presente na Burgerfest deste ano.

As viagens do Presidente têm de ser aprovadas pelos deputados e os deputados aprovaram, mas com os votos contra do Chega.

Todo ufano, todo lampeiro, André Ventura – esse biltre – colocou na net um vídeo em que explica que o Chega votou contra a ida do Presidente ao Bugerfest e, com aquela carinha de católico idiota explica porquê: diz ele que o Marcelo vai à Alemanha, à custa dos nossos impostos, a uma festa de hambúrgueres!

A besta quadrada confunde “burgers”, que significa cidadãos, com hambúrgueres, que deve ser o que ele come todos os dias ao almoço porque não tem quem lhe faça uma canja de galinha para lhe acalmar aqueles nervos xenófobos!

Pergunto: os tipos com o curso de Direito, ainda por cima com um doutoramento, não têm de saber um pouco de alemão, para além de Volkswagen e Heil Hitler?

Será que o distinto Doutor Ventura não sabia o significado da palavra burgers? E mesmo que não soubesse, não achava estranho que o Presidente Marcelo pedisse autorização ao Parlamento para ir a uma festa enfardar hambúrgueres? Não lhe ocorreu, ao distinto líder do Chega, consultar o Chatgpt?

Quer-me parecer que Ventura, em toda a sua ignorância alvar, deve pensar que os Concertos Brandoburgueses, era uma cena em que o Bach convidava os amigos para ouvir umas músicas, aliás muito chatas, e morfar hambúrgueres.

Chega de ignorância!

“Sobre o Cálculo do Volume – I” – de Solvej Balle (2020)

Solvej Balle é uma escritora dinamarquesa nascida em 1962 que, com este livro, conseguiu ser finalista do Booker Prize deste ano.

Parece que os escritores nórdicos gostam de publicar as suas obras em vários volumes. Tivemos o exemplo do norueguês Knausgard, com os seus seis volumes de autobiografia romanceada e agora temos esta escritora com este projecto que engloba sete volumes.

O que está na base destes sete livros é já conhecido e explorado anteriormente: a protagonista acorda sempre no mesmo dia, dia após dia. O exemplo mais conhecido é o do filme Groundhog Day, de 1993, realizado por Harold ramis e protagonizado por Bill Murray.

No caso deste livro de Balle, há uma pequena grande diferença. A protagonista, Tara Selter, apercebe-se que acorda sempre no dia 18 de novembro, mas que as restantes pessoas, não, nomeadamente o seu companheiro Thomas, que, dia após dia, repete sempre os mesmos gestos. Ela, pelo contrário, tenta mudar alguma coisa, na tentativa de saltar para o dia 19.

Este primeiro volume tem apenas 150 páginas e fico a pensar que voltas é que a autora vai dar para encher mais seis livros?…

“O Estado Novo em 101 Objectos”, de Fernanda Cachão (2025)

Os deputados do centro-direita e, sobretudo, os venturistas, deviam ser obrigados a ler, várias vezes, este excelente calhamaço.

O primeiro a ser obrigado até devia ser Paulo Portas, aquela espécie de Sebastião Bugalho do século passado que, em entrevista conduzida por Carlos Cruz, disse, há muitos anos, que o fascismo nunca existiu em Portugal.

A jornalista Fernanda Cachão fez um extraordinário trabalho de pesquisa e é difícil destacar esta ou aquela entrada nesta espécie de enciclopédia do fascismo à portuguesa.

Vou dar apenas alguns exemplos:

* A entrada 14 tem o título “A carta da irmã Lúcia”.

“De toda a correspondência trocada pelos dois homens (Franco Nogueira e Salazar), destaca-se este cartãozinho com o selo do Patriarcado (…)

Segundo o diplomata do Estado Novo e biógrafo de Salazar, o ditador atravessava uma grande crise psicológica. Esses meses de fragilidade, a seguir à vitória dos Aliados e à queda dos fascismos na Europa, deixava Portugal politicamente isolado face ao triunfo das democracias. (…)

«António, nesta hora de tantas preocupações, desgostos e talvez dúvidas para ti, envio-te este trecho de uma carta da Irmã Lúcia, a vidente de Fátima, que acabo de receber. Deve levar-te muita consolação e confiança. (…) escuso de dizer que isto que ela diz, o não diz por ela mesma, mas por indicação divina. (…)

O Salazar é a pessoa por Deus escolhida para continuar a governar a nossa Pátria, a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade.”

Ora se a irmã Lúcia dizia que Deus lhe tinha dito que Salazar é que era o tal, quem éramos nós para o contradizer? E assim, tivemos de o aturar todos aqueles anos!

* A entrada 52 é dedicada à Constituição de 1933, que foi referendada:

“A 19 de março de 1933, o voto foi obrigatório, mas só votavam os chefes de família, e as abstenções foram contadas como votos a favor”.

Deve ter sido então que foi inventada o refrão: quem cala, consente.

* Na entrada 57, A Lista dos assinantes da Seara Nova, lê-se:

A Seara Nova publicava ainda textos de Vladimir Ilitch (porque se omitia Lenine do nome do autor) ou de Carlos Marques (na realidade Karl Marx).”

Os censores, além de incultos eram estúpidos…

* A entrada 59: A carta que denuncia o «passador»

A máquina burocrática do Estado sustentou a actividade da polícia política. Nas suas diversas esferas sociais, o cidadão era obrigado a pedir múltiplas autorizações e preencher os mais diversos documentos. Queria sair do país? Tinha de pedir ao Governo Civil? A professora desejava casar? Tinha de pedir um atestado de idoneidade do futuro marido. O estudante matriculava-se na Universidade? Um dos impressos ia direitinho para a Pide”

Agora, o PSD também quer obrigar as mães a pedirem um atestado de 6 em 6 meses para poderem continuar a dar de mamar…

* Na entrada 80, podemos ler um dos mais profundos pensamentos de Salazar – esse que muitos acham que faz muita falta a Portugal (aliás, um nunca chegaria, pelos vistos!…). Disse o Botas:

“É mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler. É que os grandes problemas nacionais têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.”

* Na entrada 84, podemos recordar algumas publicações do Diário do Governo. Esta diz respeito aos direitos das mulheres. O que diria a isto a judiciosa Rita Matias?

Foi extensa a legislação que abrangeu a mulher, desde aquela que impedia o exercício da carreira diplomática, da magistratura judicial e de cargos de chefia da administração local, à que obrigava as casadas a ter a autorização do marido para viajar. Dependia igualmente dele para abertura de conta bancária. O marido devia ainda autorizar tanto o uso de contraceptivos como contrato de trabalho (…). Podia, por exemplo, chegar a uma empresa e dizer: «Eu não autorizo a minha mulher a trabalhar».”

E, no que respeita a enfermeiras:

“O diploma não só atribui o tirocínio ou prestação de enfermagem hospitalar feminina a mulheres solteiras ou viúvas sem filhos, como define as condições de idoneidade exigidas às candidatas. (…) exigindo bom comportamento moral e o teor de vida irrepreensível e para candidatos à enfermagem hospitalar, do sexo feminino, ser solteira ou viúva sem filhos”

* Na entrada 94, fala-se nos mineiros e na silicose:

“A Companhia das Minas teve o monopólio da exploração do complexo de São Pedro da Cova entre 1921 e 91972. (…) Para terem direito a habitação, todo o agregado familiar, incluindo filhos menores, acabava de ser obrigado a trabalhar na mina”.

Estas citações são apenas algumas das muitas que aqui poderia colocar. Parabéns à jornalista autora desta obra que mostra, à exaustão, que o fascismo existiu e que, se não invertermos alguns caminhos que a democracia está a tomar, ele vai voltar, talvez com outro rosto, mas com a mesma intenção.