“Life of Pi”, de Ang Lee (2012)

vida de piLi este livro de Yann Martel em 2003 e gostei.

Uma história que pode ser lida de várias maneiras: uma aventura extraordinária, um sonho maravilhoso, uma parábola da passagem para a idade adulta.

De qualquer modo, uma grande história – a história de um jovem, filho do dono de um Zoo na Índia, que emigra para o Canadá, com a família e com todos os animais do Zoo.

Acontece o naufrágio e o jovem sobrevive num salva-vidas, com uma zebra, uma hiena, um orangotango e o tigre Richard Parker.

Acho que a adaptação ao cinema é notável.

Ang Lee ganhou o óscar pela realização e o filme ganhou outro óscar pelos efeitos visuais que, de facto, são muito bons.

Duas horas de bom entretenimento.

“Engano”, de Philip Roth (1990)

A curiosidade deste romance de Philip Roth reside no facto de ser todo escrito em diálogo.

enganoPublicado em 1990, só agora o li, em edição deste ano da D. Quixote (tradução de Francisco Agarez), depois de muitos outros romances posteriores do mesmo autor, alguns deles, épicos.

Talvez por isso, este não me entusiasmou muito – isto para além do facto de ser um pouco difícil de seguir, devido ao facto de ser escrito em diálogo, do princípio ao fim.

No fundo, é uma história banal de dois adúlteros, um homem e uma mulher, sendo que ele é escritor (Roth?) e que aproveita aquela relação extra-conjugal para escrever um livro.

Transcrevo apenas este naco, que não mostra o tom geral dos diálogos, mas que tem graça:

«- A minha mãe ensinou-me a nunca me sentar com a cona í  mostra.

– Nem com as pernas por cima dos ombros de um cavalheiro.

– Isso nunca me disse. Acho que nunca imaginou que eu pudesse chegar a esse ponto.»

Outros livros de Philip Roth: “Goodbye, Columbus“, “Némesis“, “A Humilhação“, “O Complexo de Portnoy“, “Indignação“, “O Fantasma Sai de Cena“, “O Animal Moribundo“, “Património“, “Todo-o-Mundo“, “Pastoral Americana“, “A Conspiração Contra a América“, “Casei com um Comunista“.

 

“No Coração Desta Terra”, de J. M. Coetzee (1976)

Um livro deste autor sul-africano, Nobel em 2003, é garantia de uma boa leitura.

no coração desta terraEste “In The Heart Of The Country” (prémio da Central News Agency em 1977), está escrito como se fosse um diário.

J. M. Coetze dá a voz í  filha única de um fazendeiro branco.

Virgem, desengraçada, solitária, vive numa quinta num local ermo, com o pai e três criados negros. Quando um dos criados leva para a quinta uma jovem imberbe, para se casar com ela, as desgraças vão começar. O fazendeiro leva a miúda para a cama e a protagonista mata o pai (ou terá sido o marido enganado?).

“No Coração Desta Terra” (edição D. Quixote, tradução de Maria João Delgado), tem 266 entradas, como se fosse um diário, mas sem datas, e é assim que a acção se vai desenrolando.

A protagonista, deprimida, feia, seca, azeda, vai-nos contando a história das desgraças e tecendo considerações sobre a solidão, as suas aspirações, os seus sonhos e devaneios, as suas alucinações, os seus delírios.

Aconselho.

Outros livros do mesmo autor: “O Homem Lento”; “Diário de Um Ano Mau”; “A Vida e o Tempo de Michael K.”.

“O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick (1962)

Arranjei finalmente tempo para ler este livro de Philip K. Dick, do qual já tinha ouvido falar muitas vezes.

O Homem do Castelo AltoA acção do livro decorre nos anos 60 do século 20, e parte do princípio de que a Alemanha nazi, o Japão e a Itália ganharam a segunda guerra mundial. Boa ideia que, no entanto, não terá sido bem aproveitada, na minha opinião.

Como livro de um autor de ficção científica, há uma mistura tecnológica: existem os chamados peditáxis, que são veículos movidos a pedais e guiados por “chinas”, mas também já há foguetões que fazem a ligação entre a Europa e a América; os alemães já estão a colonizar a Lua, Marte e Vénus mas, ao mesmo tempo, a televisão ainda está em fase muito experimental; e, estranhamente, apesar de todas essas viagens pelo espaço já parecerem coisas do quotidiano, as pessoas continuam a comunicar por telefone fixo e não há computadores, nem nada que se pareça.

Hitler está demente e internado num lar, mas Goebbels e outros nazis de renome, continuam a mandar, todos a cair da tripeça, porque serã já octogenários. Percebe-se que há uma nova orientação das nações, que os EUA desapareceram como tal, mas a coisa nunca é muito bem explicada.

Numa palavra: ao contrário de muitos outros livros de Philip K. Dick, este desiludiu-me um pouco, ou então, sou eu que já não tenho muita pachorra para FC.

Esta edição, da responsabilidade do jornal Público, integrada na colecção “Autores não Nobel, premiados pelo tempo” (tradução de António Porto), também não ajuda, devido í  quantidade alarmante de erros tipográficos que tem, para além de parecer uma adaptação de uma tradução brasileira ou espanhola (?).

“Um Homem Inquieto”, de Henning Mankell (2009)

Cheguei a este autor sueco através da séria Wallander, da BBC, protagonizada por Kenneth Branagh.

Gostei da atmosfera da série e fiquei curioso, para saber se os livros de Henning Mankell eram tão bons como a série.

homem inquietoEste “Um Homem Inquieto” (Editorial Presença, 2012, tradução de Ulla Baginha) é o último dos dez livros que Mankell escreveu tendo o detective sueco Kurt Wallander como principal personagem.

O ambiente do livro é tipicamente sueco ou, pelo menos, a ideia que fazemos da Suécia, vagamente depressivo, com pouco sol, quotidianos sombrios, rotineiros.

Wallander é um tipo um pouco perturbado com a sua história pessoal e, neste último livro, com a sua saúde: sofre de diabetes, faz insulina, tem hipertensão e, de vez em quando, lapsos de memória que, no final do livro, se aproximam cada vez mais do Alzheimer.

Por um lado, isto faz de Wallander uma personagem mais “humana”, por outro lado, conferem í  narrativa mais traços depressivos, que se juntam í s paisagens tristes, í s manhãs frias, í s noites escuras – e tudo isto é muito bem retratado na séria da BBC, que tem a virtude de resolver tudo em hora e meia de telefilme, enquanto aqui, no livro, as coisas, por vezes, demoram tempo demais.

O estilo da narrativa e a composição da personagem de Wallander fazem-me lembrar, por vezes, o comissário Maigret, criado pelo grande George Simenon; no entanto, enquanto Maigret apreciava um bom copo de vinho e, por vezes exagerava, ficando ligeiramente ébrio, mas divertido, Wallander afoga-se em vodca e, depois, fica com peso na consciência. A diferença entre os povos do norte e os do sul da Europa…

Este “Um Homem Inquieto” conta-nos a história de um oficial da marinha sueca que, subitamente, desaparece, seguido da sua mulher, a qual surge, mais tarde, assassinada. Por trás desta trama, há uma história inesperada de espionagem.

O livro lê-se bem, mas é um pouco longo demais e a história nuclear pareceu-me demasiado “sueca”.

“Contos Completos”, de Lydia Davis

Lydia Davis nasceu em 1947 e é uma das mais originais escritoras norte-americanas.

contos completos de lydia davisEstes “Contos Completos” (2009, Edição Relógio de ígua, 2012, tradução de Miguel Serras Pereira e Manuel Resende) reúnem quatro livros de contos: “Acerto de Contas” (1986), “Quase Sem Memória” (1997), “Samuel Johnson Está Indignado” (2001) e “Variedades de Perturbação” (2007).

O título original do livro é “The Collected Stories”. No entanto, não sei se estes textos são contos, se são histórias; por vezes, parecem poemas; por vezes, são simples frases; outras vezes, são relatórios.

Uma coisa é certa: este é o livro mais original que li nos últimos anos. Lydia Davis encontra maneiras novas para escrever textos.

Alguns desses textos ocupam várias páginas, mas a maior parte deles são textos de uma única página, quando não de uma única linha.

Alguns exemplos:

“Certos Conhecimentos de Heródoto (este é o título da “história”)

São estes os factos sobre os peixes do Nilo:” (e esta é a “história”…)

Esta outra história, fez-me lembrar o Mário-Henrique Leiria:

“Assassínio na Boémia

Na cidade de Frydland, na Boémia, cujos habitantes são sempre pálidos como fantasmas e se vestem de negro no Inverno, uma velha não foi capaz de suportar por mais tempo o inevitável soçobrar da sua vida na degradação e na desgraça, e enlouqueceu, e assassinou, movida pela piedade, o marido, os dois filhos e a filha; movida pela ira, os vizinhos de lado e os da casa fronteira, que tinham desprezado a sua família; movida pela vingança, o dono da loja, a quem pedira fiado, o prestamista, dois usurários e um condutor de eléctrico, que não conhecia; e, por fim, entrando com a faca na mão na sede de município, o jovem presidente da autarquia e dois dos seus vereadores, que ponderavam, perplexos, uma nova disposição.”

A “História Oral (com Soluços)”, é um texto com espaços em branco, que correspondem a soluços (“A minha irmã morreu o ano passado, deixado duas fi lhas”).

A “Entrada de Índice Remissivo”, diz, apenas: “Cristã, não sou”.

Alguns textos têm um humor muito particular, como este “Mildred e o Oboé”, que reza assim:

“A noite passada, Mildred, a minha vizinha do andar de baixo, masturbou-se com um oboé. O oboé ofegou e uivou dentro da vagina dela. Mildred gemeu. Mais tarde, quando eu pensava que ela acabara, começou a gritar. Eu estava deitada na cama com um livro sobre a Índia. Podia sentir o seu prazer invadir o meu quarto através das tábuas do soalho. É claro que talvez haja outra explicação para o que ouvi. Talvez não fosse o oboé mas o tocador de oboé que penetrava Mildred. Ou talvez a Mildred estivesse a bater no seu cão pequeno e nervoso com qualquer coisa de esguio e musical, como um oboé.

Mildred, a que grita, mora por baixo de mim. Por cima de  mim moram três raparigas de Connecticut. Há ainda uma senhora que é pianista, com as suas duas filhas, no piso nobre, e umas quantas lésbicas na cave. Sou uma pessoa comedida, uma mãe, e gosto de me deitar cedo – mas como poderei levar uma vida regular neste prédio? É uma roda-viva de vaginas que se encabritam e saltam: treze vaginas e um único pénis, o do meu filho pequeno.”

Uma coisa posso garantir: nenhum destas histórias terminam do modo que se poderia esperar.

Aconselho vivamente.

“Liberdade”, de Jonathan Franzen (2010)

“Um clássico moderno” – foi assim que The Guardian classificou este longo romance do americano Jonathan Franzen.

liberdadeE, de facto, ao lermos este “tijolo” de 684 páginas (Edição D. Quixote, tradução de Maria João Freire de Andrade), não podemos deixar de pensar nos grandes autores clássicos norte-americanos.

A história desenvolve-se em redor do casal Walter e Patty Berglund e do seu amigo Richard Katz. Os três conhecem-se na Universidade, nos finais dos anos 70 e, ao longo dos anos, vamos conhecendo as suas vidas, os seus desencontros, as suas traições, as suas reconciliações.

Patty era uma basquetebolista com algum mérito que, depois de se casar com Walter, se transforma numa dona de casa cada vez mais deprimida, reprimindo, durante muito tempo, a sua atracção física por Richard Katz, um músico rock mais ou menos falhado, cuja carreira musical tem altos e baixos.

Walter é um defensor da natureza, transformando-se num verdadeiro militante, obcecado pela conservação de várias espécies de aves nativas. Quando Patty se envolve com Richard, deixa-se, ele próprio, seduzir por Lalitha, uma outra ecologista militante, com metade da sua idade.

Franzen cria personagens credíveis e consegue manter o leitor interessado ao longo de toda a história, embora todos estes conflitos da classe média norte-americana sejam um pouco distantes da nossa realidade.

Vale a pena ler, sobretudo pelo retrato fiel da América dos últimos 40 anos.

“Mel”, de Ian McEwan (2012)

O novo e excelente romance de Ian McEwan prega-nos três partidas.

—A primeira consiste no facto da história ser narrada por uma mulher, a funcionária do MI5, Serena Frome e, í s tantas, esquecemo-nos que o livro foi escrito por um homem.

A segunda reside no facto de McEwan aproveitar a personagem do escritor Tom Haley para nos contar meia dúzia de histórias da autoria de Haley e que dariam um bom livro de contos mas, como Haley diz, os livros de contos não se vendem… Assim, diluem-se as histórias num romance e não se perde tudo…

A terceira partida é o final do romance, que é surpreendente.

A história passa-se em Inglaterra, nos anos 70 do século passado. Serena Frome é uma jovem funcionária menor do MI5 que é escolhida para um projecto que consiste em subsidiar, através de uma Fundação fantasma, escritores promissores que, assim, veladamente, pugnariam pelos ideais anticomunistas, através dos seus romances.

Esse projecto tem o nome de código “Sweet Tooth” (não sei porque a Gradiva escolheu “Mel”, como título porque, parece-me que “sweet tooth” quer dizer qualquer coisa como “apetência por doces”).

Serena fica encarregue de convencer Haley a aceitar uma subvenção da tal Fundação, fazendo-se passar por uma angariadora de talentos literários. Ele aceita e em breve se apaixonam.

Se querem saber o resto, leiam porque vale mesmo a pena.

“Diário de Inverno”, de Paul Auster (2011)

Para quem nunca leu nenhum livro de Paul Auster, este não é o melhor para começar.

Trata-se de um livro intimista, talvez demasiado intimista para quem não conheça este escritor norte-americano.

—Para quem, como eu, o conheço de ginjeira, tendo lido todos os seus livros, este pequeno livrinho foi uma maneira de me reconciliar com Auster, depois da semi-desilusão que foi Sunset Park (2010).

Em Winter Journal, Auster fala consigo mesmo e vai recordando episódios da sua vida, desde a infância (problemática, pelos vistos), até aos dias de hoje.

Mais em jeito de autobiografia do que de diário, Auster conta episódios divertidos, momento de angústia, acidentes de automóvel, quedas, encontros amorosos, cenas de pancadaria, viagens, refeições e tudo com muita simplicidade; í s tantas, parece que estamos a ouvir um amigo a contar-nos a sua vida.

E Auster vai ao pormenor de nos contar coisas tão comezinhas como daquela vez que estava muito aflito para urinar e não tinha onde nem como, porque ia no banco de trás do carro da família, com a mãe ao volante e ela já tinha dito que não ia parar por causa da sua urgência urinária. E foi assim, que Auster, já com 15 anos, ouviu a sua mãe ordenar-lhe que se mijasse pelas pernas abaixo. A propósito deste episódio, o escritor lembra as últimas palavras proferidas pelo pai de um seu amigo: «Lembra-te, Charlie! – disse – nunca percas uma oportunidade de mijar!».

É a narração deste e de outros episódios, simples e corriqueiros, que tornam este pequeno e honesto livro, uma obra indispensável para quem gosta de Paul Auster.

“Kafka í  Beira-Mar”, de Haruki Murakami (2002)

Afinal, Murakami não me convenceu.

—Depois de ter lido a colectânea de contos A Rapariga Que Inventou Um Sonho, fiquei curioso em relação a este autor japonês tão na moda; os livros dele vendem-se aos milhões e fala-se dele para Prémio Nobel.

Mas…

Mas este Kafka í  Beira-Mar começou por me agarrar e acabou por me enfastiar.

O romance conta duas histórias principais: a de Kafka Tamura, um jovem de 15 anos que foge de casa, onde vive com o pai e a do velho Nakata que, quando jovem, foi vítima de um acidente provocado por um OVNI (?), tendo ficado um pouco tolo mas capaz de falar com gatos.

Kafka vai ter a uma localidade com uma biblioteca privada, dirigida por um trangénero, de nome Oshima e cuja proprietária, uma senhora de cerca de 50 anos, talvez seja a mãe desaparecida de Kafka. Nunca o saberemos e isso seria importante porque eles acabam por dar umas quecas, quanto mais não seja imaginárias (para já não falar numa outra personagem, que poderá ser a irmã mais velha de Kafka, e com quem ele também vai para a cama).

Entretanto, Nakata mata o pai de Kafka, um arquitecto pérfido que matava gatos para fazer flautas e que talvez se chamasse Jack Daniels, como o whisky… e parte em busca de uma Pedra de Entrada, com a ajuda de um camionista bronco. A certa altura, somos levados a pensar que Kafka é que matou o pai e foi para a cama com a irmã e, depois, com a mãe, o que seria o delírio de qualquer freudiano de pacotilha…

Depois de muitas peripécias, que envolvem um coronel Saunders que é igual ao velhote do Kentucky Fried Chicken, uma prostituta que cita filósofos e outras cenas, Nakata e o camionista vão ter í  cidade onde está Kafka, encontram-se com a suposta mãe do rapaz e, a seu pedido, queimam-lhe todas as recordações, após o que ela falece. Nakata morre também e o camionista fica com a incumbência de matar uma coisa horrível que sai de dentro do velhote e, ao mesmo tempo, começa a conseguir falar com gatos.

Entretanto, Kafka foi para a montanha, interna-se na floresta, encontra-se com dois soldados da 2ª Guerra Mundial que continuam parados no tempo e vai ter a uma pequena localidade onde o tempo não tem importância. É lá que reencontra aquela que talvez seja a sua mãe.

E chega.

Se quiserem saber mais, leiam o calhamaço.

Para mim, chega!

Confesso que fui avançando no livro com curiosidade. Murakami tem uma escrita fluida e fácil, que nos prende. No entanto, a partir de uma certa altura, a coisa começou a parecer-me demasiado disparatada.

Não sei se terei pachorra para ler outro livro de Murakami…