Que mal lhes fizeste, Sócrates?

Os jornalistas, em geral, não gostam de Sócrates – e o inverso também deve ser verdadeiro.

Esta história da maioria absoluta versus maioria parlamentar, é mais um exemplo.

Questionado í  entrada para a reunião da comissão política do PS, Sócrates disse aos jornalistas que pretende uma maioria parlamentar nas próximas legislativas.

Parlamentar? – espantaram-se os jornalistas. Então tu não queres uma maioria absoluta, ó Sócras?!

E, í  saída da reunião, voltaram ao ataque: afinal, queres uma maioria parlamentar ou uma maioria absoluta, pá?

E o pá respondeu: “…A maioria parlamentar é uma maioria absoluta, que eu saiba, a não ser que haja outra maioria parlamentar que permita governar sozinho, só a maioria absoluta”.

Que confusão, na cabeça deste primeiro-ministro!

O que vale é que os jornalistas explicam tudo.

Diz a jornalista do Público, Maria José Oliveira: “Maioria absoluta e maioria parlamentar possuem diferentes definições. A primeira, uma maioria qualificada (50 por cento mais um), não implica necessariamente a maioria de um só partido político, bastando lembrar a aliança governamental entre o PSD e o CDS/PP, que assim detinham o maior número de votos no Parlamento. A maioria parlamentar, por seu lado, pode ser uma maioria absoluta, é certo, mas também uma maioria relativa, esta última habitualmente controlada por apenas uma força partidária (embora também existam coligações minoritárias).”

Perceberam?

É tão claro! Absoluta é a maioria que, embora podendo ser de um só partido, como a actual, do PS, também pode ser de uma coligação; maioria parlamentar é, digamos, quer dizer, enfim, também pode ser absoluta, mas se calhar é relativa, a menos que existam coligações… ou não.

Espantosos, estes jornalistas!

Se querem bater no Sócrates, façam o favor; mas, já agora, sejam um pouco mais inteligentes, caramba!

Uma bica contra a demência

Eu não dizia?…

Este fim-de-semana foi divulgado um estudo, realizado por investigadores portugueses e franceses, segundo o qual o consumo moderado de café pode prevenir o aparecimento de perturbações da memória, sobretudo nas mulheres.

Parece, assim, confirmar-se o que já se pensava: o café previne o Alzheimer e a doença de Parkinson.

E mais: pode também ser responsável pelo atraso no aparecimento de diabetes tipo 2, tendo também um efeito positivo na prevenção dos cancros do cólon e da próstata, melhorar os estados depressivos, a atenção, a memória e a concentração – embora, provavelmente, não tudo ao mesmo tempo.

Ora, juntando isto ao que escrevi no post anterior, vamos mas é todos para a praia, apanhar sol, comer sardinhas e beber bicas!

Sol, salmão & sardinhas

No 2º Congresso Ibérico de Medicina Anti-Envelhecimento, o especialista norte-americano, Michael Holick afirmou que “a vitamina D pode salvar a vida e todos dependemos dela”.

Segundo Holick, quem não consumir vitamina D fica sujeito aos cancros da mama, da próstata e do cólon, a enfartos do miocárcio, demência, esquizofrenia, osteoporose, osteomalácia e raquitismo, embora, provavelmente, não a tudo isto ao mesmo tempo…

Ora, onde se pode obter vitamina D em doses generosas e í  borla?

Isso mesmo: expondo o nosso maravilhoso corpo ao sol, sem usarmos protector solar.

Pagando um pouco mais, também podemos obter vitamina D comendo salmão e sardinhas.

Portanto: abaixo o cancro da pele, toca a apanhar sol sem protector! que se lixe a acumulação de metais pesados, vamos mas é comer salmão í  fartasana! fora com essa história dos peixes raimosos, embora emborcar sardinhas í  la gardére!

Ainda hei-de ver cientistas defendendo sex, drugs & rock and roll…

Ronaldo em Madrid, Scolari em Tashkent

Estamos naquela época do futebol que se designa por “defeso”.

É a época em que o Benfica descobre os jogadores que lhe iriam devolver a glória, se o FCP não os contratasse primeiro.

É a época em que todas as equipas preparam a próxima temporada, enquanto o Benfica discute quem há-de ser o próximo presidente.

É a época em que as restantes equipas renovam os contratos com os seus treinadores ou apresentam os novos, enquanto o Benfica continua í  espera de Jesus.

É a época das transferências milionárias, que fazem sonhar qualquer ex-depositante do BPP, sobretudo os de “retorno absoluto”.

Pagar 93 milhões de euros por um jogador de futebol, parece exagerado, por muito bom que esse jogador possa ser.

Os responsáveis do Real Madrid dizem que Cristiano Ronaldo vale mais que isso e que os 93 milhões de euros são um bom investimento.

Os 3,5 milhões de desempregados espanhóis devem pensar isso mesmo.

Outra contratação interessante foi a de Scolari, para treinador do Bunyodkor, um clube de futebol do Uzbequistão. Vai ganhar 10 milhões de euros pelos próximos 18 meses.

Em primeiro lugar, nem sabia que o Uzbequistão tinha uma equipa de futebol.

Será que Scolari aceitou o lugar devido ao nome da capital do Uzbequistão?

É que a capital é Tashkent, e não é só de nome. Hoje, por exemplo, a temperatura média esperada para a cidade é de 35 graus. Só que a praia mais próxima ficava a centenas de quilómetros, no mar Aral.

E digo ficava, porque o mar Aral está a desaparecer e já nem praias tem. Agora, se Scolari quiser ir dar uma cacholada, tem que ir ao mar Cáspio, que fica a alguns milhares de quilómetros de Tashkent.

De qualquer modo, espero bem que Scolari não renove o contrato de 18 meses. É que o ex-seleccionador nacional tem 61 anos e a esperança média de vida no Uzbequistão é de 65 anos…

“Slam”, de Nick Hornby

slamNick Horny (nascido em Inglaterra, em 1957), escreveu um livro muito divertido. Chama-se “Alta Fidelidade”, foi publicado em 1995, adaptado ao cinema em 2000, com Stephen Frears a realizar e John Cusack a protagonizar.

E isto chegava, como currículo de Hornby porque, todos os restantes livros que escreveu são versões de “High Fidelity”.

“Era Uma Vez Um Rapaz”, (“About a Boy”, 1998, adaptado ao cinema, com realização de Chris Weitz e protagonizado por Hugh Grant), “Como Ser Bom” (“How to be Good”, 2001), “Um Grande Salto” (“A Long Way Down”, 2005), e este “Slam” (2007), são todos muito parecidos com o primeiro êxito de Hornby.

Antes, já tinha publicado “Febre no Estádio” (“Fever Pitch”, 1992, também adaptado ao cinema, num filme obscuro realizado por David Evans e protagonizado por Colin Firth), mas foi “High Fidelity” que deu o mote para os restantes livros.

“Slam” tem como tema a gravidez na adolescência. A Grã Bretanha é o país da Europa com a mais alta taxa de gravidez antes dos 18 anos e Hornby dá voz a um puto de 15 anos, Sam, que engravida a namorada e que, de repente, se vê a braços com a responsabilidade de um filho.

Mais um livro divertido, fácil de ler, mas que não deixa marca nenhuma.

The Wire – 2ª e 3ª série

Grande série, esta!

Coloco-a lado a lado com os Sopranos e quase que a ponho, até, um pouco í  frente.

O grande trunfo de The Wire, em relação aos Sopranos, por exemplo, tem a ver com o facto de não ter um Tony Soprano, isto é, de não ter uma personagem central, em redor da qual tudo funciona.

wire2The Wire tem dezenas de pequenas personagens, como na vida: McNulty, o polícia de origem irlandesa, muito dado a grandes bebedeiras, com uma vida pessoal “fucked up” e uma obsessão – apanhar Stringer Bell, o negro “drug dealer” que se quer transformar num “business man”, através do “real estate”; Avon Bakersdale, o gangster traficante, que não quer ser outra coisa senão gangster; Omar, o gangster solitário, homossexual assumido, duro, sem misericórdia, mas com um código ético muito próprio; Daniels, o líder do grupo especial que realiza as escutas, cheio de dúvidas acerca da profissão; os diversos membros da equipa, cada um com a sua história pessoal e a sua visão da vida e da profissão.

Enfim, a legião de pequenas personagens, quer do lado das autoridades, quer do lado dos “bandidos”, é tão vasta que se confunde com a realidade.

Por isso mesmo, The Wire me parece uma das séries mais conseguidas, porque mais próximas da vida real.

A 2ª temporada tem o porto de Baltimore como pano de fundo, com o sindicato dos estivadores e as suas ligações com o contrabando, liderado pelos gregos. Mas, como segunda história, continua o tráfico de droga, com Avon detido, mas Stringer Bell a dominar os negócios e a tentar modernizá-los, ligando-se a senadores e a outras pessoas “sérias”.

wire3Na 3ª temporada, um dos chefes da polícia farta-se de ser criticado por não conseguir baixar a taxa da criminalidade e decide, sem dar cavaco a ninguém, empurrar os traficantes e os consumidores para três bairros, deixando-os comprar e vender í  vontade e limpando o resto da cidade. Claro que a criminalidade baixa, mas a ideia não é muito bem aceite pelas restantes forças vivas da cidade. Entretanto, Daniels e a sua equipa continua o cerco a Bell, não o conseguindo apanhar porque Omar chega primeiro.

Cinco estrelas!

Que ninguém o pare!

Houve duas coisas de que gostei muito na noite eleitoral.

Uma, foi a maneira sentida, vibrante, máscula, í  homem, como Paulo Portas, com uma lágrima no canto do olho, se abraçou a Nuno Melo.

Por momentos, pensei que iam arrancar o braço um ao outro, tal o vigor aplicado naquele abraço.

Os homens a sério vêem-se neste gestos(*).

A outra, foi ver Paulo Rangel a ocupar metade do palanque e rodeado por 152 jovens pê-esse-dês, imberbes, a gritarem: “Ninguém pára o Rangel! Ninguém pára o Rangel! Ninguém pára o Rangel, olé-ó!”.

Concordo plenamente.

Posto a rolar, em direcção a Bruxelas, espero bem que ninguém o pare e que o deixe rolar, Europa fora, até aos Urais.

(*) – Os homens? A sério?! Vêem-se nestes gestos?

Os homens!… A sério que se vêem nestes gestos?

Os homens a sério vêm-se nestes gestos?

A reflectir

Desde as 9 da manhã que estou sentado no sofá da sala.

A reflectir.

Amanhã vou votar e ainda não decidi para quem vai o meu voto.

Se escolhesse o meu sentido de voto pela aparência dos candidatos, votaria em branco.

Ninguém se safa.

NO PS não votaria porque o Aví´ Cantigas me parece deslocado nestas eleições; aquele bigode e aquele cabelo parecem não pertencer í quela pessoa e a voz fica muito melhor a um professor primário de Mangualde do que a um deputado europeu.

No PSD também não votaria porque o cabeça de lista parece, de facto, o Manelinho, da Mafalda, com o cabelo cheio de gel e aquele corpo em forma de pêra, qual sempre-em-pé.

Na CDU, muito menos. A Dona Ilda aparece com aquele casaco verde, que parece uma grande alface frisada e troca os vês pelos bês e diz coisas que já ninguém diz em nenhum país da Europa, excepto, talvez, o Azerbeijão (que, por acaso, fica na ísia).

O meu voto também não iria para o CDS porque o Nuno Melo também não se parece nada com um eurodeputado, dando mais a impressão de ser o gerente de um loja de roupa para homens modernaços, mas pouco, tipo Cortefiel ou Dielmar. E, depois, traz o Portas sempre atrás…

No Bloco, também não. O Miguel Portas tem aqueles olhos sempre franzidos, como se tivesse obstipação crónica e agora anda com uma calmeirona sempre atrás dele, com olhos de carneira-mal-morta e ar de matadora. Perigosa, aquela senhora…

O meu voto também não iria para nenhum dos outros candidatos, por razões várias.

Para a Laurinda Alves, do MEP, não, porque é demasiado católica. Para a Manuela Magro, do Partido Humanista, também não, porque não. Para o Partido da Terra, só se fosse adubo. Para aquela coisa que se chama MMS, também não, por razões óbvias (MMS?!…). Para o MRPP, nunca, porque tem Lenine a mais. Para a Carmelinda, do RUE (ligado ao POUS, que não tem nada a ver com a OCMLP, nem com a FSR, muito menos com o PCM-ML), também não, porque estou farto de siglas.

Sendo assim, poderia escolher o meu sentido de voto depois de ler as propostas de cada um dos candidatos.

E, neste caso, tirando o tal RUE (ligado ao POUS), que propõe a ruptura com a União Europeia, todos os outros candidatos querem uma Europa melhor e mais justa, mais igual e mais fraterna, mais humana e mais amiga do ambiente, mais moderna e mais aberta e mais honesta e mais bonita e mais limpinha e mais asseada e mais, e mais, e mais…

Já passa do meio-dia, já estou a reflectir há mais de 3 horas e cada vez estou mais confuso.

Ajudem-me, por favor!

Falta de apetite

Naquele dia, ele ia í  consulta, mostrar-me as análises que lhe tinha pedido. E ela ia com ele. Como sempre.

Também como sempre, ela fala, ele não abre a boca.

“Como estão as nossas análises?” – pergunta ela, apropriando-se das análises do marido.

Há mulheres que se apropriam dos seus homens.

“O meu marido rompe-me as meias todas!” – dizem, referindo-se í s meias do homem, não í s delas.

Percebe-se: eles rompem as meias e elas é que têm que as coser.

Esta mulher era dessas.

E como haviam de estar as análises: a função hepática, uma desgraça. A Gama GT, acima dos 500.

Uma lástima.

“Pois é!” – exclama ela – “E depois, este homem não me come!”

Já ouvi muita coisa, mas uma mulher queixando-se, abertamente, com esta linguagem, da disfunção eréctil do marido, era novidade.

“Não a come?…” – perguntei, hesitante.

“Sim, doutor. Nem vale a pena fazer comida, que ele não me come!”

Fiquei mais descansado.

E, com 500 de Gama GT, devido í s duas grades de minis diárias, era natural que ele não comesse nada.

Em todos os sentidos…

“As Benevolentes”, de Jonathan Littell

benevolentesDemorei quase um ano a ler este calhamaço de 884 páginas. A letra  é miudinha, quase não há parágrafos e os diálogos são todos corridos – caso contrário, o livro ultrapassaria, facilmente, o milhar de páginas.

Fui-o o lendo em doses pequenas, em voz alta, para amenizar a densidade da coisa.

Littell tem apenas 42 anos e este é o seu primeiro grande romance. Com ele ganhou o Prémio Goncourt e o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa de 2006. Embora seja nova-iorquino, escreveu-o em francês e, em França, teve um sucesso estrondoso, o que já não aconteceu nos EUA.

A acção de “As Benevolentes” decorre na 2ª Grande Guerra e o narrador é um nazi SS, convicto, Max Aue, que nos vai descrevendo as maiores atrocidades cometidas pelo Reich, com uma amoralidade difícil de engolir.

Aue, ele próprio, é uma personagem bizarra, amoral: de origem francesa, Aue abandona a família para ingressar na SS porque é um nazi convicto; a sua sexualidade é, no mínimo, estranha – só tem relações com homens, mas está apaixonado pela sua irmã gémea, com quem teve uma relação incestuosa na adolescência; as mulheres, em geral, causam-lhe repugnância, no entanto, sente uma atracção sexual muito intensa pela irmã e deseja-a ardentemente.

Aue atravessa a guerra, convencido dos valores preconizados por Hitler e vai sempre em frente, sem hesitações, passando pelos campos de concentração e seus horrores, por Estalinegrado e a sua mortandade, e sempre com aquela sensação de que está a cumprir um dever mas, ao mesmo tempo, sem qualquer moral, no fundo, sem qualquer respeito pela vida humana, a não ser a sua própria sobrevivência.

A certa altura, parece estar chocado com o modo como os prisioneiros são tratados, parece revoltar-se pelo facto de estarem subnutridos e andrajosos e de terem uma esperança de vida muito curta. Mas, no fundo, o que Aue pretende é que os prisioneiros durem mais uns meses, de modo a poderem trabalhar para o Reich, nas fábricas de armamento.

Aue sobrevive aos bombardeamentos, í  frente de batalha, a todas as agruras de uma grande guerra e í s suas próprias guerras interiores, acabando por assassinar o padrasto, a mãe e o seu maior amigo.

Por vezes, o livro é difícil de ler, com tantas descrições minuciosas das discussões entre os vários oficiais alemães – até parece que o autor está a escrever as suas memórias, como se tivesse privado de perto com Himmler, ou Eichmann, ou Goebbels.

Penso que Littell conseguiria o seu objectivo com metade das páginas. Por outro lado, o facto do livro ser tão extenso confere-lhe verosimilhança.

No final, ficamos com um sabor amargo na boca e com vontade de ir ler outro livro que nos fale de coisas mais agradáveis…