“Partida”, de Julian Barnes (2026)

Este é o décimo livro que leio deste escritor britânico e, a acreditar no que ele diz, será o seu último livro. Agora com 80 anos e sofrendo de uma doença mieloproliferativa, Barnes parece satisfeito com a sua extensa obra e decidiu descansar.

Dele li “Inglaterra, Inglaterra” (1998), “Amor & Etc” (2000) “Arthur & George” (2005), “Nada a Temer” (2008), “O Papagaio de Flaubert” (2010) “O Sentido do Fim” (2011) “O Ruído do Tempo” (2016), “A Única História” (2018), “O Homem do Casaco Vermelho” (2019), “Elizabeth Finch” (2022).

Como é habitual em muitos dos seus livros, Barnes fala connosco e este “Partida” – no original “Departure(s) – parece mesmo uma conversa do autor com os seus leitores, uma conversa de fim de vida.

O livro está dividido em cinco partes: duas delas conta-nos a história de Stephen e Jean, que Barnes juntou quando frequentavam a Universidade e tornou a juntar 40 anos depois; a primeira parte fala-nos nas memórias, nomeadamente a catadupa de memórias que, muitas vezes, são despertadas por um cheiro ou um sabor; outra das partes é dedicada à doença de Barnes e às doenças em geral, sobretudo o cancro e a última parte é uma espécie de despedida.

A propósito do cancro que, estatisticamente atingirá uma em cada duas pessoas, Barnes diz, com o seu habitual humor:

“O obituário «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta contra o cancro» deveria ser substituído por «Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta que o cancro manteve com ele»”

Chegado aos 80 anos, Barnes já não vai fazer uma série de coisas que poderia ter desejado fazer, mas já leva a barriga cheia e isto que ele diz, na página 136, poderia ser dito por mim:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

Mais uma leitura agradável de Julian Barnes.

“A Festa do Chibo”, de Mario Vargas Llosa (2000)

Publicado dez anos antes do escritor peruano receber o Nobel, este livro debruça-se sobre a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, de 1930 a 1961, quando foi assassinado.

O livro tem três histórias que se vão cruzando: os últimos anos da ditadura e todas as suas atrocidades e arbitrariedades, a intentona, como foi preparada, como correu e o que sucedeu aos revoltosos, e a história de Urania, filha de um dos colaboradores de Trujillo, que volta ao país muitos anos depois do fim da ditadura.

As ditaduras têm todas pontos comuns: um ditador que é visto como salvador da pátria, um grupo de cortesãos que o seguem cegamente, uma polícia política sem dó nem piedade, comunicação social domesticada e um aparente sucesso da Nação, que não seria nada sem o ditador.

Mas Trujillo tinha algumas particularidades: além de um culto da personalidade levada ao extremo da própria capital do país ter mudado de nome e ter adoptado o nome de Cidade Trujillo, o homem era um garanhão e não se coibia de comer as mulheres de alguns dos seus seguidores, que não se importavam e até achavam uma honra o Chibo ter interesse pelas suas esposas. E gostava, sobretudo, de jovens virgens. Na página 373, diz:

“A receita de Petrónio e do rei Salomão: uma conazinha fresca para devolver a juventude a um veterano de setenta primaveras”

E é aqui que entra a jovem Urania.

Recomendo.

“Sexografias”, de Gabriela Wiener (2021)

De Gabriela Wiener já tinha lido o curioso “Retrato Huaco”, de 2021. Wiener nasceu em Lima, Peru, em 1975, mas vive em Espanha desde 2003, colaborando em diversos jornais com as suas crónicas sobre sexo.

E este livro, como o próprio nome indica, é sobre sexo, reunindo diversas crónicas que abordam assuntos tão díspares como a ejaculação feminina, as relações entre trans, entrevistas com Nacho Vidal, o actor porno com um pénis de 27 centímetros, a história da iguana com priapismo, experiências num clube de swingers e etc e tal.

Gabriela Wiener conta-nos que vive com Jaime, o seu marido e com a sua mulher, Rocío – e até nisso é provocadora.

O livro é curioso, embora, às tantas, tantas experiências sexuais acabem por enjoar um pouco e é pena que os textos não estejam datados.

De qualquer modo, é uma leitura divertida.

“Os Nomes de Feliza”, de Juan Gabriel Vásquez (2024)

Feliza Bursztyn (Bogotá, 1933-Paris, 1982) foi uma escultora colombiana cuja vida dava, de facto, para um romance, um filme e uma série televisiva. Morreu subitamente, com apenas 49 anos, e a história da sua vida teria ficado por contar se não fosse, Juan Gabriel Vásquez, que decidiu contá-la neste livro, juntando factos, testemunhos e um pouco de imaginação.

Feliza, cujo nome teve várias versões, escolheu ter uma vida diferente daquela que parecia estar-lhe destinada. Depois de um casamento precoce, depois de ter tido três filhas, abandonou tudo e dedicou-se totalmente à escultura, criando obras a partir de sucata.

Teve uma vida muito acidentada e repleta de tragédias, como a morte num acidente de aviação do seu segundo companheiro e, mais tarde, o seu próprio acidente, desta vez, a bordo de um Volkswagen – acidente esse que a obrigou a um flagelo de cirurgias reconstrutivas.

A sua ligação a tudo o que fosse diferente e provocador, levou-a, depois, a Cuba e a um confronto com as autoridades colombianas que acabaram por resultar no seu exílio, primeiro no México, na casa de Garcia Marquez, depois em Paris, onde acabou por falecer de ataque cardíaco, quem sabe proporcionado pelos muitos vapores da soldagem que usava para unir a sucata, a partir da qual criava as suas obras (só muito tarde começou a usar máscara).

Livro muito interessante.

“Porque Morremos”, de Venki Ramakrishnan (2024)

Ramakrishnan nasceu na Índia em 1952, trabalhou nos Estados Unidos e, a partir de 1999, em Inglaterra. Em 2009, foi um dos laureados com o Nobel da Química pela descoberta da estrutura do ribossoma.

Neste livro, o autor discorre sobre a nova ciência do envelhecimento. Será que podemos viver para lá dos 120 ou 150 anos? será que poderemos ser imortais? Espero bem que não, livra!

“Não obstante, quando pensamos na morte, regra geral referimo-nos à nossa: o fim da existência consciente enquanto indivíduos. Esse tipo de morte acarreta um paradoxo profundo: embora os indivíduos morram, a vida continua. Não me refiro apenas à nossa família, comunidade e sociedade continuarem sem nós. O mais notável é que cada criatura viva actualmente é descendente directa de uma célula ancestral que existiu há milçhares de milhões de anos. portanto, embora alterada e evoluída com o tempo, há uma essência em nós que tem vivido em continuamente desde há alguns milhares de milhões de anos.”

Por outras palavras: afinal, somos eternos!

A procura pela longevidade pode dar origem a cenas como a do cirurgião francês Alexis Carrel que ficou famoso por ter desenvolvido técnicas para voltar a ligar vasos sanguíneos cortados em acidentes ou em resultado de actos de violência, como esfaqueamentos. Depois de se mudar para o Estados Unidos, iniciou experiências para manter vivos tecidos humanos fora do corpo. Mas…

“em 1935 publicou um livro intitulado O Homem, Esse Desconhecido, onde recomendava a esterilização dos inaptos e a câmara de gás para criminosos e loucos, comentando a superioridade dos nórdicos em relação aos europeus do sul. No prefácio da edição alemã do livro, em 1936, Carrel elogiava o governo nazi de Adolf Hitler pelo seu novo programa de eugenia”.

O livro de Rama (agora chamo-lhe assim porque dá mais jeito…) aborda muitos temas.

“Herdamos as nossas mitocôndrias exclusivamente das nossas mães, pois o espermatozóide não contribui com mitocônxcrias para o zigoto. Devido a isso, as doenças que se devam a defeitos no genoma mitocondrial são herdados apenas da mãe.”

No que respeita à longevidade, os multimilionários têm investido muitos milhões de dólares.

“Bryan Johnson, o magnata tecnológico de meia-idade por trás da empresa Braintree Payment Solutions, gasta 2 milhões de dólares por ano, no seu regime anti-envelhecimento, o qual inclui duas dúzias de suplementos, uma dieta vegana rígida e, tal como compete a um guru da tecnologia, inúmeros dados, entre os quais mais de 33 000 imagens dos seus intestinos.”

Um livro curioso que me ajudou a não querer viver para sempre…

“Histórias que as Ruas Contam”, de Rui Passos Rocha (2025)

Que grande paciência teve Rui Passos Rocha, para estudar todas – todas! – as ruas de Portugal, continental e ilhas, e engendrar este curioso livro.

Depois de estudar a base de dados dos CTT, RPR dividiu o livro em capítulos, onde elencou as ruas mais significativas: Fontes, lavadouros e flora de um país agrário; religião; sociedade; política; forças armadas.

A propósito das várias ruas, textos bem urdidos e com uma visão progressista da História.

E muitas curiosidades:

“Grândola tem um merecido Largo Zeca Afonso, muitas ruas 25 de Abril e da Liberdade, e três ruas Catarina Eufémia. Tem uma promissora Estrada da Aldeia do Futuro e, porque o passado (soviético) também pesa naquelas paragens, uma peixaria, de seu nome Gagarine, bem no centro da vila. Já a industrial Sines, a meia hora dali, tem a obrigatória rua do Operário e duas ruas da Reforma Agrária”.

Esta outra tem a ver com a minha zona:

“E Almada tem, mesmo junto ao Cais do Ginjal e ao rio Tejo, uma histórica Fonte da Pipa. Construída em 1736 no local de uma antiga nascente, a fonte abasteceu durante mais de dois séculos a população de Almada, muita da qual subia e descia diariamente as ruas da cidade para levar para casa a preciosa água.”

E mais esta:

“Com tudo isto, porém, é de estranhar que o papa (João Paulo II) apenas tenha uma pobre travessa em Fátima. Esperar-se-ia mais. Tem, ainda assim, uma rua (e, perto dela, uma estátua bem no recinto do santuário) na Cova da Iria, não longe da cafetaria com o magnífico nome de Pecado Original”

“O Desfufador”, de Valério Romão (2025)

Tenho feito um esforço, juro que tenho, mas desisto hoje, na página 262.

Quando li a entrevista ao autor, Valério Romão, no Ipsilon, do jornal Público, pensei que ia ser um livro que me iria divertir e, por alguma razão, lembrei-me de António Rebordão Navarro e do seu livro de 1972, “O Discurso da Desordem”, que li em março de 1973, com apenas 20 anos, deslumbrado com aquela narrativa revolucionária.

A entrevista que o Público publicou sobre este “O Desfufador” até falava no velho Mário-Henrique Leiria. Coitado! Daria voltas na campa se estivesse para aí virado! Mas o que é que o pobre do Mário teria a ver com isto?!

“O Desfufador” é um livro que não incomoda ninguém porque ninguém o pode levar a sério, quando um dos seus personagens principais é o Alex, um anão que tem “corpo de pónei e sarda de cavalo”. Mas que merda de piada é esta?!

A ironia do Mário-Henrique não tem nada a ver com este chorrilho de palermices!

E eu sei o que estou a dizer…

O que é isto, afinal?

“Ao que o homem pobre não se pode negar (…) era transformar o sonho em fumo (…) ele que sempre sonhara ir ao cu a uma gaja e nunca o tinha feito”

Ou isto, na página 145:

“… quanto à execução de um orçamento cuja leitura e avaliação por parte do eleitor comum estaria, normalmente e em termos de prioridades, bem abaixo da sujeição a uma colonoscopia caseira às mãos de um tio parkinsoniano munido de uma mangueira de bombeiro”

Não, não me sinto ofendido, nem sequer me ruborizo por esta linguagem – simplesmente acho-a infanto-juvenil, como mais este exemplo absolutamente idiota, na página 181:

“a prova de que o português, em focando-se e trabalhando em grupo (!!! Exclamações minhas), é capaz de expulsar qualquer um e reclamar o que é seu. E havia que afastar da cachimónia a ideia de pequenez lusitana, a ladainha do povo simpático sempre enrabado pela sarda estranja, dos bons costumes a troco da gorjeta liliputiana…”

O autor parece enfeitiçado pelos termos “camurço” e “sarda”.

Chega de exemplos.

Fiz em esforço do caralho para ler esta preciosa merda até quase às 300 páginas e assusto-me só de pensar que ainda vai sair mais um volume.

A culpa é apenas do tipo do Público, cuja entrevista me fez despertar o interesse por esta miséria.

Volta Rebordão Navarro!

“Maligna Ofélia! Deves estar na tarde de domingo num café de domingo, com famílias passadas a papel químico, filhas iguais às mães, filhos iguais aos pais, criados baralhados nas contas, queixando-se dos joanetes e um cego que senta numa cadeira vazia e toca duas músicas antigas num acordeão ainda mais antigo, enquanto o seu acólito, um tipo de oleosa, doentia gordura explodindo no intervalo das rugas, passa de mesa em mesa uma caixa-mealheiro onde os cavalheiros depositam o seu pequeno óbulo”.
(in “O Discurso da Desordem”, 1972)

Mas o que me deu nesta cabeça, para me lembrar deste pequeno-grande livro do Rebordão Navarro quando li a entrevista ao autor deste “O Desfufador”.

Cenas…

“O Último Avô”, de Afonso Reis Cabral (2025)

Nem de propósito, acabei de ler hoje o último livro de Afonso Reis Cabral, que se refere ao avô do narrador, um conhecido e afamado escritor, chamado Campelo (não sei porquê, mas identifiquei-o como o Lobo Antunes), que morrera sem publicar nada relacionado com a guerra colonial.

E digo, nem de propósito, porque os apaniguados do 25 de novembro, esquecem, de propósito, o que o 25 de abril fez de mais importante: acabar com a guerra colonial!

Claro que falo em meu benefício, mas é verdade que, para mim, tão importante como o fim da ditadura, o 25 de abril significou o término daquela guerra que não fazia qualquer sentido histórico, já que todos os países europeus já tinham concedido a independência às suas colónias africanas.

O narrador deste livro é um jovem que viveu numa comunidade “hippie” no Algarve e que tem uma ligação muito importante com o avô escritor.

No fundo, o segredo deste livro é a intervenção do avô na guerra colonial, já depois do 25 de abril, num lugar tão problemático como Cabinda.

Afinal, parece que o avô não era assim um grande herói: ”O Campelo nunca o pôs o pé no mato, homem!, continuou o Anselmo. “Nem o dedo no gatilho, porra. Eu não sou ninguém para julgar, ainda menos se fosse por objeção de consciência ou motivações políticas…”

Gostei muito deste livro.

A guerra colonial continua a ser um assunto tabu na sociedade portuguesa, ainda hoje ouvi o cabrão do Ventura perorar contra o facto dos antigos combatentes não estarem a receber aquilo que deveriam. Tão preocupado que ele estava, coitadinho!… E, no entanto, deve estar bem se cagando para os antigos combatentes – ou será que, caso consiga tornar-se primeiro-ministro, irá propor que a tropa portuguesa regresse aos territórios ultramarinos?

Há coisas na História que não podemos mudar e a descolonização foi o que foi – se há muita gente que foi prejudicada, também há muitos que se lixaram por causa da guerra, quer por mortes e feridas graves, quer por situações que ficaram suspensas, aguardando pelo fim da guerra.

O livro de ARC não fala de nada disso, fala apenas de um neto que é influenciado por um avô, que ele pensa ter sido um eventual herói e que, afinal, foi mais um que se viu envolvido numa guerra sem significado.

Aconselho!

“A Harmonia das Esferas”, de João Paulo André e Carlos Fiolhais (2025)

A Música tem a ver com tudo e João Paulo André, professor do departamento de Química da Universidade do Minho e Carlos Fiolhais, professor emérito da Universidade de Coimbra (e dizer isto destes dois é muito pouco), demonstram-no ao longo destas mais de 300 páginas.

Depois de nos oferecerem elementos de música e acústica, comprovam que a Música tem a ver com a Matemática e a Astronomia, com a Física, a Química, as Ciências da Terra e do Ambiente, as Ciências da Vida e as Ciências da Saúde.

Um pequeno exemplo deste último capítulo que, por razões óbvias mais nos toca:

“Embora a ópera tenha nascido em Florença, no final do século XVI, com Dafne, de Jacopo Peri, a doença é uma condição inerente à Humanidade. De facto, a presença da doença já se faz sentir, ainda que de forma subliminar, na primeira de todas as óperas: Eros dispara sobre Dafne uma flecha de chumbo, fazendo-a rejeitar as investidas de Apolo, que, por sua vez, fora atingido por uma flecha de ouro.

Enquanto o ouro é um metal inerte, o chumbo é um metal tóxico que pode causar uma condição conhecida como plumbismo ou saturnismo, frequente em pessoas que trabalham com este elemento químico ou vivem em ambientes contaminados (…) O termo saturnismo remete para o planeta Saturno, que na alquimia estava associado ao chumbo (enquanto o Sol correspondia ao ouro e a Lua à prata). Verdadeiro espelho da vida – e, por conseguinte, também da morte – , o reportório operático tornou-se um repositório de doenças. Uma análise a 493 óperas, compostas entre 1977 e 2016, revelou que 53 (11%) incluíam um paciente e/ou um médico entre as suas personagens.”

Rico em pormenores deste género, este livro é um bom companheiro para tardes de chuva.

“O que Podemos Saber”, de Ian McEwan (2025)

McEwan continua a ser um dos meus escritores preferidos e este último livro é mesmo muito bom.

Thomas Metcalfe é um universitário académico que estuda a literatura do século 21. Ele e a sua companheira Rose, também académica, vivem em 2119, numa Europa destroçada pelas alterações climáticas, numa Inglaterra transformada num arquipélago, depois da Grande Inundação, num mundo totalmente alterado pela Desordem, em que a América voltou à confusão do wild west e em que a Nigéria domina a internet.

McEwan não perde muito tempo a explicar como é o planeta Terra no século 22. A história é narrada por Thomas e ele vive naquela actualidade e não sente necessidade em explicá-la, dando-nos, apenas, algumas pistas que nos permitem pensar que o mundo mudou muito depois de ataques nucleares e alterações climáticas extremas.

Thomas está obcecado por um poeta inglês do século 21, Francis Blundy e, sobretudo, pela sua mulher, Vivien. Na noite em que Vivien festejava o seu 54º aniversário, Francis ofereceu-lhe um poema, em forma de coroa, uma série de sonetos em que o último verso é o primeiro verso do soneto seguinte. Seria uma cópia única, escrita em pergaminho, e que até então, nunca tinha sido encontrado.

Francis Blundy não acreditava nas alterações climáticas, mas Thomas pensa que talvez aquele poema pudesse mostrar que ele estava a mudar o seu pensamento e não descansa enquanto não o encontrar.

Entretanto, pesquisa tudo o que pode sobre o poeta, a sua mulher e os amigos que estiveram no célebre jantar onde o poema foi lido, vasculhando e-mails, diários escritos on-line e outros documentos. Acabará por deduzir que o poema poderá estar enterrado algures perto da propriedade onde Francis e Vivien viveram, entretanto, localizada numa das pequenas ilhas, onde apenas se pode ir de barco dirigido por um capitão conhecedor daquele mar estranho, cheio de torres de igrejas.

O que fica de cada um de nós quando morremos?

Daqui a cem anos, o que poderão saber sobre cada um de nós? Por mais fotos que publiquemos no Instagram, por mais post colocados no X, ou no Facebook, ou no Whatsapp, por mais blogs que inventamos, como poderá alguém, daqui a cem anos, reconstituir a nossa vida, as nossas intenções, o que de facto nos aconteceu?

É isso que McEwean nos mostra, magistralmente, com a segunda parte deste livro, um longo capítulo, em que Vivien Blundy nos conta a sua vida e as suas atribulações e nos revela um segredo que não consta de nenhum e-mail, de nenhum diário, de nenhum registo informático.

Mesmo depois de lermos esse longo capítulo, a nota final que McEwan acrescenta e que diz que esse capítulo foi anotado e editado por Thomas Metcalfe deixa-nos a dúvida: será que essa é toda a verdade?

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos!

Outros livros de McEwan: A Barata; Máquinas Como Eu; Numa Casca de Noz; A Balada de Adam Henry; Mel; Na Praia de Chesil; Cães Pretos; Entre os Lençóis; O Jardim de Cimento; Solar; Lições